Campo Grande, MS | 26°C | 15 de Outubro de 2026
AO VIVO 18:02
Brasil

Montadoras europeias apostam em carros retrô para enfrentar chinesas

Fabricantes tentam aproveitar a tradição de suas marcas para competir com rivais chinesas de menor custo

Montadoras europeias apostam em carros retrô para enfrentar chinesas

Paris |Financial Times As montadoras europeias apostam em versões elétricas acessíveis de modelos retrô para impulsionar as vendas e enfrentar uma nova onda de marcas chinesas que avança sobre seus mercados domésticos.

A Citroen, controlada pela Stellantis, prepara o retorno do clássico 2CV, lançado no pós-guerra, com planos de apresentar uma versão elétrica por 15 mil euros (R$ 85.122) em 2028. Já o novo hatch elétrico ID.Polo, da Volkswagen, com preço de 25 mil euros (R$ 141.700), foi inspirado no design do Golf, um dos modelos mais vendidos da marca há décadas.

O retorno do 2CV, anunciado em uma feira do setor em Paris, vem após o sucesso da Renault com versões elétricas de modelos clássicos compactos, como o R5 e o Twingo. As montadoras europeias tentam aproveitar a nostalgia e a tradição de suas marcas —características que suas concorrentes chinesas mais novas ainda não têm— para conquistar consumidores.

"[O 2CV] tem um enorme potencial", afirmou Antonio Filosa, presidente-executivo da Stellantis, que também controla Peugeot e Fiat. Segundo ele, o modelo será desenvolvido sobre uma nova plataforma de veículos totalmente elétricos, que reduzirá os custos. "Ele será 100% produzido na Europa."

O peculiar 2CV, com teto de lona, atraiu algumas das maiores multidões na feira de Paris. Mas as montadoras chinesas tiveram presença cada vez mais expressiva e, pela primeira vez, representaram cerca de um terço dos expositores.

Marcas mais novas, com foco em tecnologia, como Li Auto e Aito, juntaram-se à BYD e a concorrentes mais estabelecidas na disputa por compradores europeus. A presença reforça a pressão crescente sobre o mercado automobilístico da região, que está estagnado, exercida por grupos chineses que avançam cada vez mais sobre o segmento de luxo para competir com BMW e Porsche.

A consultoria AlixPartners estima que as marcas chinesas responderão por 16% das vendas de veículos na Europa até 2030, ante os atuais 12%. Enquanto isso, fabricantes ocidentais enfrentam custos mais altos, fechamento de fábricas e demissões na região.

Um veículo elétrico de marca chinesa produzido na China custa cerca de US$ 20 mil (R$ 100 mil), ante US$ 31 mil (R$ 155 mil) por um modelo equivalente europeu, principalmente devido aos menores custos de baterias e matérias-primas, segundo a consultoria. Esses fatores, somados à demanda estagnada, fizeram com que as fábricas europeias operassem com menos de 60% da capacidade e provocaram dezenas de milhares de cortes de postos de trabalho no bloco.

Diante de novas restrições às exportações de híbridos e de outras medidas protecionistas destinadas a incentivar a produção de veículos na União Europeia, a Changan e outras montadoras chinesas anunciaram planos para fabricar seus modelos híbridos e elétricos com cadeias de fornecimento europeias.

Zhao Fei, gerente-geral do grupo Changan, disse que a montadora estatal negocia com vários parceiros na Europa para produzir localmente seu primeiro veículo até meados do próximo ano. O grupo pretende fabricar 180 mil unidades na Europa até 2028 e quase dobrar esse volume em dois anos.

Citroën Aircross tem desenho atualizado no mercado europeu

Carregando...

"Queremos desenvolver nossa capacidade de localização de longo prazo [...] em toda a cadeia industrial", afirmou Zhao. A empresa pretende se tornar uma das maiores montadoras do mundo até 2030, com vendas de 1,5 milhão de veículos no exterior.

A Chery, dona das marcas Jaecoo e Omoda, começará em breve a produzir veículos na Espanha. A maior exportadora de automóveis da China também negocia com a Nissan o compartilhamento da produção na fábrica da montadora japonesa em Sunderland, no Reino Unido. A Chery afirmou que pretende reproduzir o padrão de qualidade da Toyota, maior fabricante de automóveis do mundo, contratando engenheiros aposentados da empresa.

"Acredito que precisamos trabalhar no mesmo ambiente [...] para conseguir competir com a indústria automobilística local", disse Yin Tongyue, presidente da Chery.

Os presidentes-executivos da Stellantis, da Volkswagen e da Renault têm cobrado urgência na definição de novas regras para produtos "Feitos na Europa". Segundo eles, terão mais condições de competir se suas rivais chinesas montarem veículos e adquirirem componentes sob as mesmas exigências de produção. As novas regras fazem parte de uma legislação mais ampla destinada a fortalecer a indústria da União Europeia, cuja implementação deve ocorrer gradualmente ao longo dos próximos três anos.

Enquanto isso, as montadoras europeias tentam fabricar carros de forma mais barata e rápida. A Renault reduziu drasticamente seus custos nos últimos anos, em parte recorrendo a componentes e engenheiros chineses. A estratégia reformulou suas cadeias de fornecimento e reduziu o tempo de desenvolvimento de veículos para menos de dois anos.

O presidente-executivo da empresa, François Provost, disse acreditar que a montadora francesa pode ser "mais competitiva do que um fabricante chinês que produza carros na Europa".

O grupo, porém, também busca conquistar consumidores por outros motivos além do preço. Na feira de Paris, apresentou uma versão conceitual elétrica da minivan Renault Espace.

"O que digo [...] é: não olhe para o preço de compra, [mas para] quem cuidará da manutenção nos próximos dez anos. Quem garantirá que a peça de reposição chegará em 24 horas?", afirmou Provost.

A montadora não está promovendo "relançamentos pelo simples fato de relançar" modelos clássicos em versões elétricas, disse Bruno Vanel, diretor de produto da Renault. Segundo ele, a empresa quer destacar sua história e sua identidade. "As pessoas associam esses carros a todo um universo."

Leia mais

  • Honda renova compacto City e busca equilibrar as vendas no Brasil

  • Renault recebe R$ 180 milhões do BNDES para desenvolver novo carro híbrido

  • Em Paris, Volkswagen e Stellantis demonstram confiança nos veículos elétricos

Executivos europeus do setor automobilístico costumam afirmar que a falta de peças de reposição e uma rede de assistência técnica insuficiente podem limitar o crescimento das montadoras chinesas. A BYD, porém, disse já contar com 15 centros de distribuição, que ocupam cerca de 150 mil metros quadrados, para abastecer sua rede europeia de peças.

A fabricante de veículos elétricos também tem recrutado agressivamente profissionais da Tesla, da Toyota e de concorrentes alemãs. Há quase uma década, nomeou Wolfgang Egger, ex-designer da Alfa Romeo e da Audi, como diretor de design.

"Temos um centro de design em Milão. Nosso chefe de estilo é um designer alemão que cresceu na Itália. Portanto, somos tão europeus quanto o expresso", disse Alfredo Altavilla, ex-presidente da companhia aérea ITA Airways e atual assessor especial das operações europeias da BYD.

Fonte original Publicado originalmente por Folha de S. Paulo
Ver na fonte
Compartilhe

Comentários 0

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar.

0