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Michelle Bolsonaro riu por último

Eleita senadora pelo Distrito Federal, ex-primeira-dama sai fortalecida de campanha marcada por conflitos com Flávio Bolsonaro e o PL

Michelle Bolsonaro riu por último

Que Lula e os petistas têm motivos de sobra para comemorar após a vitória acachapante no segundo turno, a imprensa tem repisado ao longo da última semana. Menos dito, porém, é que, entre aqueles que estiveram ao lado do derrotado Flávio Bolsonaro, também há quem tenha motivos para celebrar.

Michelle Bolsonaro é uma delas. E a ela não faltam razões.

Michelle nunca havia disputado uma eleição. Estreou logo na corrida pelo Senado no Distrito Federal e conquistou quase 940 mil eleitores. Sua colega de partido, Bia Kicis, a quem também apoiava, ficou com a segunda cadeira. Mas a vitória de Michelle veio, pode-se dizer, a despeito dos esforços de Flávio Bolsonaro e do próprio PL durante a campanha.

É verdade que Michelle, depois de ganhar projeção nacional como primeira-dama, foi rapidamente incorporada às estruturas partidárias para construir o PL Mulher. O setor do partido, que bem poderia ter ares de perfumaria oferecida à ex-primeira-dama, ganhou tração e se tornou um de seus principais ativos. Entre 2023 e 2026, período em que Michelle esteve à frente da organização, cerca de 72 mil mulheres se filiaram ao PL.

Mas, à medida que ganhou relevância, também despertou a ira dos filhos de Jair Bolsonaro e de todos os que querem se colocar como herdeiros do bolsonarismo.

Os reveses começaram ainda antes do primeiro turno. Em junho, em meio a uma crise familiar que ganhou contornos partidários, Michelle deixou o comando do PL Mulher. A saída, anunciada após uma reunião com o presidente da legenda, Valdemar Costa Neto, teve ares de retaliação a um vídeo em que ela expôs publicamente os desentendimentos com Flávio Bolsonaro.

Na gravação, Michelle afirmou ter sido humilhada e maltratada pelo enteado, que, segundo seu relato, lhe dissera que ela "havia chegado ontem e não entendia nada de política". O tom do vídeo foi o de uma adulta que tenta colocar ordem na casa diante do garoto mal-educado.

Flávio, então pré-candidato à Presidência, reagiu negando as acusações. Em vez de encerrar a disputa, ajudou a alimentar a imagem de uma madrasta que trazia confusão para o seio da família Bolsonaro. Não funcionou.

Pouco depois, contudo, precisou recuar. Diante da força política de Michelle e das dificuldades que o conflito impunha à campanha, Flávio voltou a pedir desculpas publicamente. Michelle aceitou o pedido e fez um aceno protocolar de apoio à candidatura do enteado.

A reconciliação, porém, não se traduziu em participação sistemática na campanha presidencial. Michelle fez manifestações pontuais de apoio a Flávio, mas concentrou seus esforços na própria eleição. No segundo turno, sequer acompanhou a apuração dos votos ao lado do enteado, assim como não estava na foto dos políticos que não reconheceram o resultado das urnas.

Em setembro, escrevi nesta Folha que, entre os Bolsonaro, Michelle tinha tudo para ser a mais longeva na política. Agora eu dobro a aposta.

Michelle é Bolsonaro, mas vem mostrando há tempos que é capaz de construir voos solo. Ao perder o comando do PL Mulher, ajudou a fundar o movimento Imparáveis, que promove a reunião de mulheres em suas casas para discutir cotidiano e política.

Trata-se de uma iniciativa de organização política capilar, que transforma encontros domésticos em espaços de formação de lideranças e mobilização feminina, com potencial de atuação para além das estruturas partidárias tradicionais. Tem toda pinta de fazer jus ao nome, imparável.

Chega ao Senado com oito anos de mandato, uma organização política própria e um sobrenome do qual já não depende inteiramente. Em 2018, era apresentada na imprensa como a mulher de Jair Bolsonaro. Oito anos depois, preso, com o movimento de massas que criou sem a liderança de nenhum de seus filhos, Jair está incomunicável.

Agora, quem fala por ele é Michelle. Para um homem que fez do machismo uma marca de sua vida pública, essa é uma ironia difícil de superar. É a nova versão do presidente Jair, marido da Michelle.

Fonte original Publicado originalmente por Folha de S. Paulo
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