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Medicamentos antimicrobianos opõem indústria a pecuaristas

O nível de restrição ao uso de antimicrobianos na pecuária brasileira colocou frigoríficos e setor produtivo em lados opostos. O governo federal solicitou às indústrias de […]

17/06/2026 07:26 Equipe BeefPoint Beef Point 0 visualizações há 9 horas
Medicamentos antimicrobianos opõem indústria a pecuaristas

O nível de restrição ao uso de antimicrobianos na pecuária brasileira colocou frigoríficos e setor produtivo em lados opostos. O governo federal solicitou às indústrias de carnes que aumentem as restrições para atender exigência da União Europeia. No entanto, pecuaristas e membros da cadeia ouvidos pelo Valor acreditam que proibir determinados medicamentos vai aumentar os custos de produção e pode comprometer a produtividade do rebanho.

A solicitação do governo foi uma das respostas à decisão da UE de retirar o Brasil da lista de países aptos a exportar proteínas animais e derivados para o bloco — anunciada em maio, a medida valerá a partir de setembro. Os brasileiros deixaram a lista por não terem enviado garantias de que as carnes que exportam para a UE seriam de animais que não tiveram contato com antimicrobianos proibidos no bloco.

Na semana passada, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) sugeriu a extensão das restrições para moléculas monensina sódica, salinomicina, narasina e lasalocida. Com o pedido, a entidade tentou sinalizar aos europeus a intensificação dos esforços contra o uso desses produtos na produção de carne bovina, mas a medida acabou surpreendendo ao menos parte do segmento.

“A gente estranhou a publicação daquele documento (da indústria)”, disse Emílio Salani, vice-presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan). “Não tem como o produtor manter os níveis de produtividade, a sustentação do negócio, se o acesso a esse tipo de produto for banida ou cerceada”.

Segundo ele, a União Europeia não é totalmente contrária ao uso de antimicrobianos no tratamento contra doenças, e outros países importadores de carnes, como China e Estados Unidos, permitem o uso. A principal exigência europeia, afirma Salani, é de que não se faça uso preventivo desses produtos e de que haja garantias disso.

“O Sindan defende é que essa discussão seja técnica, e não política”, afirmou. Segundo o dirigente, o sindicato reuniu um grupo técnico, elaborou um documento para explicar o funcionamento, a importância e a segurança de cada molécula e encaminhou o material ao Ministério da Agricultura.

Entidades que representam pecuaristas e confinadores, como a Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Estado com o maior rebanho do país, e a Associação Nacional dos Confinadores (Assocon), também se opõem à proposta da Abiec. Procurada pelo Valor, a Abiec não se manifestou.

Para Francisco Manzi, diretor técnico da Acrimat, exigências de um mercado consumidor específico — nesse caso, o europeu — não devem se estender a todo o país. Manzi disse que o Brasil segue “absolutamente à risca” o “Codex Alimentarius”, um conjunto de padrões, códigos de conduta e orientações reconhecidos internacionalmente sobre produção de alimentos e segurança alimentar.

“Quando a Europa pede algo a mais, entendemos que isso tem de ser resolvido pontualmente. O Brasil tem condições de segregar o que fornece à Europa, temos interesse em atender aquele mercado, mas não podemos aceitar que a Abiec exija que o país inteiro cumpra uma exigência que só um consumidor faz”, disse Manzi.

O presidente da Assocon, Maurício Velloso, argumentou que não houve debate sobre o pedido da Abiec na Câmara Setorial da Carne Bovina, órgão consultivo ligado ao Ministério da Agricultura que reúne 42 entidades do segmento. Segundo ele, o produtor brasileiro dispensa os antimicrobianos “há bastante tempo” e prefere, em vez disso, produtos que melhoram a absorção de alimento no organismo dos animais.

Velloso afirmou ainda as moléculas que a Abiec apresentou na ampliação da lista de restrições não são consideradas antimicrobianos. O veto ao uso desses produtos, continuou, afetaria a produtividade, já que sistemas mais intensivos de criação de bezerros e bois utilizam essas moléculas. Por trás das exigências europeias, opina o dirigente, estaria um trabalho do bloco para criar barreiras comerciais capazes de “cercear” a produtividade brasileira.

“Os produtos que eles (UE) não querem que se use já não estão sendo usados. O que eles querem é uma comprovação à maneira deles, um sistema de rastreabilidade atrelado ao tal desmatamento zero”, opinou Velloso.

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) também é contra a solicitação da indústria. Segundo a entidade, a UE não pediu a proibição desses produtos, e outros países utilizam essas moléculas. Para a CNA, o Brasil deveria centrar seus esforços na comprovação de que segrega os animais que fornecem a carne que vai para a Europa.

“Ao invés de sentar com o produtor para discutir quais seriam as bonificações, as premiações pagas por esse ‘boi Europa’, e como nós vamos trazer mais propriedades para o protocolo, a indústria pediu para proibir a molécula”, disse João Paulo Franco, coordenador de Produção Animal da CNA. “E aí essa conta fica exclusivamente para o produtor pagar”.

Em maio, o Ministério da Agricultura homologou um protocolo que CNA, Abiec e Associação Brasileira das Empresas de Certificação (Abcar) elaboraram para dar garantias à UE de que a carne bovina que o Brasil exporta para o bloco é livre de antimicrobianos. Já houve procura de pecuaristas para certificar as fazendas, mas o setor produtivo diz ainda ter dúvidas sobre o fornecimento e a fiscalização dessas garantias.

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