Maria Bethânia 80 anos: cantora doma os palcos com presença magnética
Maria Bethânia em cena no show comemorativo dos 50 anos de carreira, 'Abraçar e agradecer', estreado em 2015
♫ MARIA BETHÂNIA 80 ANOS
♬ Maria Bethânia construiu discografia praticamente irretocável ao longo de 61 anos de carreira fonográfica. A força da artista também se manifesta em gravações de estúdio. Contudo, há consenso entre os seguidores de Bethânia – cantora que completa 80 anos hoje, 18 de junho, cercada de louvações nas redes sociais e na imprensa cultural – de que é no palco que a intérprete se manifesta em toda a plenitude.
De fato, Bethânia doma os palcos com magnética presença cênica. Tanto que foi em cena que a cantora despertou a atenção do Brasil pela primeira vez, em fevereiro de 1965, ao cantar “Carcará” no teatralizado show “Opinião”. De lá para cá, Maria Bethânia se impôs como a senhora da cena.
No começo, os shows eram em boates. Depois, passaram a ser feitos em teatros – habitat natural para intérprete de veia dramática. Na medida em que Bethânia teve ampliada a popularidade, a partir da segunda metade da década de 1970, a cantora passou a se apresentar em grandes casas de shows.
Recentemente, transitou por arenas e estádios do Brasil ao lado de Caetano Veloso em turnê calcada na magnitude do reencontro dos irmãos no palco. E a força é a mesma no palco de um estádio ou no palco de uma casa pequena de pouco mais de 100 lugares como o clube carioca Manouche, onde Bethânia estreou o show “Claros breus” em julho de 2019.
Com o auxílio do diretor Fauzi Arap (1938 – 2013), Maria Bethânia cristalizou um molde de espetáculo conceitual em que músicas e textos (geralmente poemas) se costuram em roteiros que jamais perdem o fio da meada. O embrião da fórmula foi o show “Comigo me desavim”, estreado em 1967. Entretanto, foi a partir do antológico espetáculo “Rosa dos ventos – O show encantado”, em 1971, que a costura se alinhavou e deu o tom dos shows posteriores da artista, alguns de caráter nitidamente político na época da ditadura, caso de “A cena muda” (1974).
Dentro do (limitado) raio de visão do colunista e crítico musical do g1, os espetáculos “Nossos momentos” (1982), “Âmbar” (estreado em 1996 e perpetuado em 1997 no álbum duplo intitulado “Imitação da vida”), “Maricotinha” (2001), “Dentro do mar tem rio” (2006) e “Abraçar e agradecer” (2015) sobressaem na trajetória de Maria Bethânia nos palcos.
É na cena que espoca a aguçada inteligência da intérprete, capaz de editar longo poema de Fernando Pessoa (1888 – 1935) com timing preciso para que os versos surtam o maior efeito possível na plateia. É quando inflexões e pausas feitas no momento certo se revelam tão importantes quanto o canto em si.
Bethânia é bicho de palco. Sabe onde pisa. Por isso, domina a cena, sendo capaz de revitalizar uma música antiga, potencializando o sentido dessa composição ao reapresentá-la em medley sagaz. Basta lembrar a junção do samba “Purificar o Subaé” (Caetano Veloso, 1981) com “Miséria” (Arnaldo Antunes, Paulo Miklos e Sérgio Britto, 1989) – sucesso do grupo Titãs – no show “Brasileirinho” (2003). Tudo fez (amis) sentido.
Foi também assim que “Vida”, canção lançada pelo mesmo Chico Buarque em 1980, reapareceu dois anos depois devidamente intensa e definitiva na intepretação de Bethânia no show “Nossos momentos” (1982). Momentos de luz – “Luz, quero luz!”, bradava ao cantar “Vida” – de voz e de sonho, como poetizou Caetano Veloso na canção feita para o referido espetáculo de 1982. Momentos intensos. Momentos do amor demais que brota do canto magnético de Maria Bethânia a cada vez que essa senhora cantora entra em cena para domar o palco.
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