Livro reconstrói relação do pai do rock argentino com o Brasil
Charly García é o protagonista de
Para os argentinos, não causa surpresa que seu ídolo maior do rock nacional, Charly García, tenha flertado com o português e feito menções ao Brasil ao longo das suas mais de cinco décadas de carreira. Mas, para a maioria dos brasileiros, trata-se de um ilustre desconhecido. Só que Charly —que morou no Brasil— é o mais proeminente dos músicos contemporâneos do país vizinho, chamado de gênio tantas vezes que o substantivo já não descreve sua importância. Reverenciado por artistas como Mick Jagger ou Sting, é o "pai do rock argentino", para citar outro de seus epítetos.
Esse abismo cultural, no limite do paradoxo, foi um dos pontos de partida do jornalista gaúcho Diego Queijo para escrever "Pasajero en Trance - Uma História de Charly García no Brasil", livro que será lançado em novembro e que tem por objetivo —mais do que responder a um desconcerto— iluminar as experiências brasileiras de Charly.
O artista pisou no país pela primeira vez no final dos anos 70, mais precisamente nas areias de Búzios (RJ), em busca de sossego e anonimato em meio à tensão social e política representada pela ditadura argentina.
O Rio foi só o início. O músico —que chegou nesta semana aos 75 anos— depois faria shows, canções e amigos em paisagens das mais variadas, de São Paulo a Arembepe (BA).
Seu percurso pelo Brasil foi reconstruído por Queijo a partir de pesquisas em arquivos nacionais e argentinos e de mais de 80 entrevistas com pessoas que são parte dessa história. Entre elas, integrantes do Paralamas do Sucesso —que mantêm uma relação criativa e de amizade com Charly há décadas— e Gilberto Gil, que conheceu o argentino em 1978, quando liderava a mítica banda Serú Girán.
Em 1981, Gil tocaria com Charly em Buenos Aires, em um show que tinha Joan Baez na plateia —proibida de se apresentar na Argentina por conta de suas posições políticas—, como conta Queijo.
"Charly é um ícone. Isso, por si só, já mereceria atenção. Mas havia outra questão que me intrigava. Charly tem uma história riquíssima com o Brasil, e os próprios brasileiros desconhecem o papel que nosso país desempenhou em sua trajetória", diz o jornalista à Folha.
Mestre de mestres, Charly é referência essencial de outro incontornável do rock argentino, Fito Páez, cuja trajetória é mais conhecida no Brasil. "Fito soube jogar melhor o jogo do showbiz. É um artista sensacional, que aproveitou o contrato internacional com a Warner para expandir sua música", pondera o autor. "Sempre mais racional, talvez, que Charly, um artista muito mais visceral, por vezes até inconsequente".
Queijo observa que, se, por um lado, o arroubo criativo indomável de Charly foi o que lhe permitiu criar uma marca definitiva na música argentina, por outro, isso o afastou da previsibilidade exigida em qualquer indústria, e também na musical: "Charly nunca, ou quase nunca, se enquadrou nisso. É um rebelde, acima de tudo. E essa postura, que faz parte do fascínio em torno dele, também teve consequências para sua circulação comercial".
"Pasajero en Trance", pelo contrário, circulará muito. Queijo dá início a uma série de lançamentos pelo Sul do país (em 1º de novembro, na Feira do Livro de Pelotas; no dia 3, em Jaguarão; e em 6 de novembro em Porto Alegre) e depois vai a Brasília, para apresentar o livro lá em 14 de novembro. São Paulo, Rio de Janeiro, Búzios e Curitiba também estão no roteiro.
Entre as marcas que o Brasil deixou na obra de Charly, Queijo menciona o primeiro álbum do Serú Girán, de 1978, "composto em sua maior parte em Búzios e gravado em São Paulo", conta. "É talvez o que guarda mais referências brasileiras, seja ao Carnaval, seja a Milton Nascimento, seja a ritmos afro-brasileiros. Mas essas marcas aparecem também em outros momentos de sua discografia, com participações dos Paralamas do Sucesso, de Paula Toller e referências ao Brasil em letras e temas. É uma relação que atravessa diferentes fases de sua carreira."
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