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Lav Diaz examina com estética sóbria embate entre filipinos e Igreja

Lav Diaz examina com estética sóbria embate entre filipinos e Igreja

"Deixem-nos Passar, Caros Ancestrais" mergulha nos meandros da presença espanhola nas Filipinas do início do século 17. Atento à presença da Igreja Católica e à violência embutida nos processos da catequização e da colonização, o novo filme de Lav Diaz se passa numa floresta da ilha de Luzón, a maior do arquipélago asiático.

Conhecido por seu apreço a durações extremamente longas, que chegam a superar dez horas, o cineasta filipino estreia agora uma narrativa de 151 minutos. Para seus parâmetros, é quase um curta-metragem, ainda mais enxuto do que o lançamento do ano passado, "Magalhães", com Gael Garcia Bernal, que tem pouco menos de três horas.

Ainda assim, estão presentes a maior parte das características que consagraram o realizador de "Florentina Hubaldo, CTE", de 2012, e "A Mulher que Se Foi", de 2016. A começar pela sonoridade, que intercala palavras em inglês e espanhol com o tagalo, principal idioma das Filipinas.

O diretor evita regras difundidas da montagem cinematográfica. Isso significa que ele concentra toda a ação de uma cena em um só plano, sem cortes e sem mudança de ponto de vista.

Além disso, prefere os enquadramentos abertos, em que os corpos dos personagens humanos aparecem em meio ao cenário. Isso torna ver a obra na TV ou no computador desconfortável, porque essa escolha estética favorece a tela grande.

As cenas filmadas de frente lembram a organização dos filmes dos irmãos Lumière, de cerca de um minuto, sem cortes. Essa sensação é reforçada pelo preto e branco escolhido pelo cineasta e pela textura da imagem, com marcas que lembram a película, embora a câmera seja digital.

Vemos, assim, os filipinos que fogem da perseguição espanhola surgirem do fundo da imagem e desaparecerem pela lateral do quadro, em ações que se desenrolam lentamente.

De maneira geral, quando se faz um filme, é importante saber se a cena será rodada em um ambiente interno ou externo, o que determina as necessidades de microfonagem e iluminação. Diaz tem predileção por cenas que se passam em varandas e cabanas no meio da floresta, espaços ao mesmo tempo internos e externos, em que a luz vaza por entre troncos e folhagens.

Em "Deixem-nos Passar, Caros Ancestrais", esse espaço intermediário é a igreja que o padre Enciso, vivido por Bart Guingona, tenta construir numa clareira da mata, com o objetivo de civilizar a população. Como a maior parte dos homens morreu no enfrentamento aos espanhóis, Enciso se aproveita das mulheres.

Dungwen, papel de Christian Bables, um dos frutos das "visitas" do clérigo, tem um nome espanhol, Rafael, e, como diz um de seus companheiros, metade de seu sangue é índio e metade é espanhol.

Dungwen recusa essa identidade mestiça, alinhado com a resistência ao domínio colonial. Mas o pai quer que ele lidere uma expedição para buscar mármore para o altar da igreja, e isso o revolta.

Como em outros filmes de Diaz, aqui as histórias têm ramificações e mais de um protagonista. Interpretada pela cineasta filipina Isabel Sandoval, a curandeira Babayeng Indimatadog é presa pelo padre durante um de seus rituais ditos pagãos, que não se dobram às imposições católicas. Seu cárcere lembra o de Florentina Hubaldo no filme de 2012, em que a mulher figura como metáfora de uma nação aprisionada e desmemoriada.

O transporte do mármore para a igreja ecoa passagens de "Memorial do Convento", romance de José Saramago —a construção do templo consumindo vidas, um gesto de exibição do poder da instituição religiosa colonial. Ou ainda a desmedida empreitada de "Fitzcarraldo", de Werner Herzog, de carregar uma embarcação floresta adentro.

Sóbrio, o cinema de Diaz não filma os embates mais brutais —não há imagens de estupros ou tortura, por exemplo. Ainda assim, o cineasta dá a ver a violência colonial por dentro, na escala cotidiana dos indivíduos, que resistem, até o fim.

Com planos fixos, poucos cortes e cenas ambientadas nesses ambientes intermediários entre o dentro e o fora, o longa faz com que o espectador experimente a tensão no enfrentamento entre as forças europeias e a população local.

Fonte original Publicado originalmente por Folha de S. Paulo
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