Juros altos freiam construção no 3º trimestre, mas infraestrutura sustenta empregos
Setor criou 200,4 mil vagas formais até agosto
A construção civil perdeu ritmo no terceiro trimestre de 2026, pressionada pelos juros elevados e pelo aumento dos custos, mas a expansão das obras de infraestrutura ajudou a sustentar o mercado de trabalho do setor, segundo relatório apresentado nesta quinta-feira (29) pela Cbic (Câmara Brasileira da Indústria da Construção).
O indicador de atividade da construção recuou em relação aos três meses anteriores e a igual período de 2025. Apesar da desaceleração, o setor manteve a criação de vagas formais, concentrada principalmente em projetos de energia, transmissão elétrica e instalações industriais.
O nível de atividade do setor ficou em 45,9 pontos no terceiro trimestre, ante 47,8 pontos no segundo. O indicador, elaborado pela CNI (Confederação Nacional da Indústria) com apoio da Cbic, permanece abaixo de 50 pontos, patamar que indica retração da atividade na percepção dos empresários.
Nos primeiros nove meses do ano, a média foi de 46,2 pontos, um recuo de um ponto em relação ao mesmo intervalo de 2025. A utilização da capacidade operacional também caiu no terceiro trimestre, tanto na comparação trimestral quanto na anual.
Para este ano, a projeção da Cbic é de crescimento de 1,2% para o PIB da construção civil. A expectativa é de avanço moderado, sustentado pelo desempenho do primeiro semestre e pelo emprego em obras de infraestrutura.
Para 2027, uma aceleração mais consistente do setor dependerá, segundo o relatório, da redução dos juros e do arrefecimento dos custos da construção.
"A taxa de juros ser elevada realmente impacta bastante o nosso negócio. O que a construção espera, e a gente apresentou isso para todas as candidaturas, é que haja um cuidado com as contas públicas que possibilite a queda dessa taxa de juros, que impacta não só a produção nem só a venda, mas o consumo das famílias", afirmou Eduardo Aroeira, presidente da Cbic, durante coletiva de imprensa nessa manhã.
A taxa de juros elevada foi apontada por 40% dos empresários consultados como o principal problema enfrentado pelo setor. Segundo a Cbic, é o maior percentual desde o terceiro trimestre de 2023. O custo do crédito, o endividamento das famílias e o encarecimento dos insumos dificultam o planejamento das empresas e restringem a expansão.
A pressão sobre os custos aparece nos indicadores setoriais. O INCC (Índice Nacional de Custo da Construção), calculado pela FGV (Fundação Getulio Vargas), acumulou alta de 6,64% nos 12 meses encerrados em setembro, acima da inflação oficial, de 4,58% no mesmo período. A mão de obra subiu 7,78%, enquanto materiais e equipamentos tiveram aumento de 6,06%.
Mesmo com a perda de ritmo da atividade, a construção civil encerrou agosto com 3,15 milhões de trabalhadores com carteira assinada, o maior contingente desde o início da série do Novo Caged, em janeiro de 2020. O número foi 3% superior ao registrado no mesmo mês de 2025.
De janeiro a agosto, o setor criou 200.431 empregos formais. As obras de infraestrutura responderam por 79.065 vagas, alta de 26,89% em relação ao período homólogo, quando foram criados 62.312 postos. O resultado superou o da construção de edifícios.
Segundo Ieda Vasconcelos, economista-chefe da Cbic, o avanço está relacionado à execução de projetos contratados em leilões e concessões realizados nos últimos anos e a investimentos privados em empreendimentos industriais e energéticos. A expansão ocorre principalmente no interior do país, com complexos de energia renovável, linhas de transmissão de grande porte e fábricas de celulose.
A capital paulista permaneceu como a cidade que mais criou empregos na construção em números absolutos. Nos primeiros oito meses do ano, os serviços especializados responderam por 59,32% das novas vagas abertas na cidade. Rio de Janeiro, Fortaleza, Belo Horizonte e Salvador também estiveram entre os municípios com maior geração de postos de trabalho.
"A gente vivencia um ciclo de expansão da infraestrutura, e esse ciclo é longo e vai continuar. Em relação ao mercado imobiliário continuamos com atividade, com o processo produtivo no próximo ano, porque lançamos unidades no ano passado e estamos lançando neste ano. O crescimento em 2027 será sustentado pelos dois segmentos", afirmou Ieda. Para ela a maior preocupação está no setor imobiliário.
A Cbic avalia que os juros elevados e o endividamento das famílias continuam limitando a expansão do mercado imobiliário. A entidade também aponta a reforma tributária e a escassez de mão de obra entre os desafios que devem permanecer no radar das empresas em 2027.
"O setor da construção civil, mercado imobiliário, nunca emitiu nota fiscal para venda de apartamento. Porque o próprio contrato, a promessa de compra e venda era suficiente para caracterizar a venda e a tributação. Com a nova reforma tributária, nós passamos a ter que emitir nota fiscal, uma coisa que a gente nunca fez, e essa nota fiscal também não está preparada no momento. A nossa preocupação é grande, por conta dessa necessidade de definições que ainda estão por falta e que não dependem das nossas empresas", afirmou Aroeira.
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