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Japão teme ficar sem terras raras por restrições da China

Tóquio pede pressão dos EUA para que Pequim alivie restrições às exportações de ítrio

Japão teme ficar sem terras raras por restrições da China

Tóquio, Washington e Hong Kong |Financial Times O Japão está a meses de esgotar seus estoques de ítrio, um metal essencial, e pediu aos Estados Unidos que pressionem a China a flexibilizar os controles de exportação de terras raras que ameaçam provocar graves perturbações nos setores automotivo, de defesa e de semicondutores em todo o mundo.

Tóquio fez o pedido ao governo americano e a grandes empresas dos EUA, segundo pessoas familiarizadas com o assunto em Washington e no Japão.

Nos últimos meses, Washington pressionou a China a aumentar o fornecimento de terras raras, incluindo o ítrio —metal resistente ao calor e fundamental para a fabricação de veículos, motores a jato e semicondutores—, aos Estados Unidos e seus aliados. As cadeias de fornecimento da indústria de defesa americana dependem de componentes fabricados no Japão que contêm ítrio.

Se Pequim não mudar de posição e os países ocidentais não encontrarem substitutos ou ampliarem seus estoques, a escassez poderá surgir já no fim deste ano, afirmaram autoridades do governo japonês e executivos de tradings.

"Estamos em uma situação grave para manter o fornecimento às indústrias que utilizam esses materiais", disse um funcionário do governo japonês. "Os estoques estão diminuindo, e há um limite para os esforços de economizar terras raras."

"O prazo não é de anos, mas de meses, e a questão é como sobreviver ao próximo ano", acrescentou o funcionário. "Se todos agirem agora, tudo ficará bem. Se todos ignorarem o problema, haverá um risco sistêmico para a economia mundial."

A China domina a cadeia de fornecimento de terras raras, da mineração ao processamento, e tem usado essa posição como instrumento de pressão em resposta à guerra comercial do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Pequim também reforçou os controles de exportação para o Japão em resposta a declarações feitas no ano passado pela primeira-ministra Sanae Takaichi sobre a ameaça existencial que um conflito envolvendo Taiwan representaria para o país. As falas provocaram indignação na China.

A escassez de ítrio se tornou o principal ponto de pressão para as empresas japonesas do setor de materiais. O metal é usado no revestimento de motores e de câmaras de corrosão por plasma empregadas na fabricação de chips.

O preço do óxido de ítrio fora da China disparou para US$ 1.150 (R$ 5.765) por quilo, alta de 179 vezes em relação ao valor de dois anos atrás. Na China, o preço é de US$ 9 (R$ 45,09) por quilo, segundo avaliações da Argus.

Autoridades americanas e japonesas realizaram diversas conversas sobre a escassez de ítrio, incluindo uma reunião no mês passado, em Washington, quando representantes do Departamento de Energia dos EUA e do Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão convocaram um "grupo de resposta rápida" para minerais críticos.

Na reunião, realizada duas semanas antes de Trump receber o líder chinês, Xi Jinping, na Casa Branca, o governo japonês esclareceu a gravidade da situação. A intenção era também levar empresas americanas afetadas pela escassez a pressionar Washington para levantar a questão com Pequim.

Os Estados Unidos reclamam que a China não está cumprindo a promessa de flexibilizar os controles sobre terras raras, feita durante a trégua comercial firmada pelos dois países em outubro do ano passado. Depois que Trump se reuniu com Xi em Pequim, em maio, a China reiterou o compromisso de "tratar das preocupações dos EUA relacionadas à escassez na cadeia de fornecimento de terras raras [...] incluindo o ítrio".

Um alto funcionário americano afirmou ao Financial Times no mês passado que a China estava cumprindo dois terços de seus compromissos de fornecimento de terras raras aos Estados Unidos e permitindo que o Japão comprasse apenas o mínimo necessário para atender à demanda.

Autoridades americanas disseram a Pequim que os EUA não exportarão motores a jato necessários ao C919, o primeiro avião comercial desenvolvido pela China, enquanto a produção estiver limitada pela falta de ítrio, essencial à fabricação de turbinas.

A China também concordou em comprar 200 aviões da Boeing durante a visita de Trump a Pequim, em maio. O acordo, porém, ainda não foi concluído, em parte devido a complicações relacionadas a minerais críticos.

Erin Browne, principal autoridade do Tesouro americano para assuntos internacionais, disse ao Financial Times que as terras raras são essenciais à produção de aviões e motores a jato da Boeing.

"Para produzir aeronaves, são necessárias terras raras", afirmou Browne. "Tudo está, de certa forma, sob o mesmo guarda-chuva: para [...] exportar motores, também são necessárias terras raras."

O Ministério da Economia do Japão e o Tesouro dos EUA, que lidera as negociações comerciais com a China, não quiseram comentar especificamente a situação do ítrio.

Um alto funcionário do Tesouro americano afirmou que o acesso confiável a minerais críticos é "essencial para a segurança econômica e nacional dos Estados Unidos".

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"Restrições às exportações que interrompam o fluxo de minerais críticos são motivo de séria preocupação", disse o funcionário.

A embaixada chinesa nos Estados Unidos não respondeu a um pedido de comentário.

"É um pânico justificado no Japão", afirmou Gracelin Baskaran, chefe do programa de segurança de minerais críticos do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington. "Provavelmente, o país terá de sofrer por enquanto."

Fonte original Publicado originalmente por Folha de S. Paulo
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