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Economia

Ícone em pesquisas agropecuárias, Embrapa está em uma encruzilhada, diz relatório

Agricultura exige capital, tecnologia e velocidade, e a Embrapa não está acompanhando, segundo pesquisadores

08/07/2026 22:00 Mauro Zafalon Folha Mercado 0 visualizações há 3 dias
Ícone em pesquisas agropecuárias, Embrapa está em uma encruzilhada, diz relatório

Criticar a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) é quase um sacrilégio. É uma instituição pública cuja imagem é tão positiva que tende a bloquear a atenção para problemas que, internamente, são conhecidos e discutidos, mas que, externamente, permanecem invisíveis.

A empresa ajudou a construir a agricultura tropical moderna, tem uma importância singular na história da agropecuária brasileira, desenvolveu pesquisadores, que deram novos rumos ao setor, e colocou o país no centro do mundo quando se trata de fornecimento de alimentos.

Essas apreciações são de um grupo de pesquisadores, que, com base em documentos internos, entrevistas e relatórios já feitos pela própria empresa ou encomendados pelo governo federal, detecta sinais de preocupação, tensões administrativas, dificuldades operacionais e desafios estratégicos que se tornaram visíveis para quem convive com a empresa no cotidiano.

O legado é extraordinário, mas o risco atual é elevado, afirmam pesquisadores em um relatório do INCT/PPED (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento), como resultado de um projeto da Sest (Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais), chamado de "Embrapa entre o legado, o futuro e as transformações necessárias". O estudo envolveu o trabalho de sete pesquisadores, coordenados por Ana Célia Castro e Antônio Márcio Buainain.

O núcleo da ameaça reside na possibilidade de deterioração silenciosa das capacidades que sustentaram as contribuições da empresa por décadas, afirmam. A visão de futuro da Embrapa antecipa com consistência uma agricultura sustentável, digital, resiliente, inclusiva e articulada à bioeconomia. Há, no entanto, tensões estruturais típicas de organizações complexas de ciência e tecnologia na empresa.

A agricultura mudou, e condicionamentos externos como mudanças climáticas, exigências regulatórias, reconfiguração das cadeias de valor, desigualdades territoriais e pressões competitivas são identificados, mas não necessariamente transformados em posicionamento institucional claro e efetivo. Há visão e diagnósticos, mas ainda faltam caminhos e escolhas, alerta o relatório.

O ambiente agrícola hoje passa por transformações profundas na agricultura, na ciência, nos mercados e nas políticas globais. A transformação tecnológica é rápida, e a pesquisa se deslocou do sistema clássico para biotecnologia avançada, edição gênica, ciência de dados, sensoriamento remoto, automação robótica e inteligência artificial. A Embrapa encontra dificuldades para disputar espaço nesses setores, onde há a exigência de alta intensidade de capital, velocidade e risco tecnológico.

Ao longo das últimas décadas, a empresa teve uma perda gradual de capacidade institucional. Ela conserva talentos individuais de alto nível, mas tem dificuldade crescente de mobilizá-los em direção a propósitos comuns.

A burocracia é a combinação perversa entre ausência de processos claros, fragmentação organizacional, baixa qualidade de dados, sobreposição de sistemas e uma cultura que multiplica a complexidade. A tudo isso, soma-se a burocracia federal, que retira a agilidade, autonomia técnica e capacidade da empresa. A Embrapa produz documentos de alta qualidade, mas carece de mecanismos para transformar visão em ação.

A rede de unidades descentralizadas, que funcionou por décadas, vem enfrentando tensões correntes. Ela precisa de revisão estratégica, integração funcional e atualização de missões. O problema não está nas unidades, mas no vazio da governança.

O relatório destaca, ainda, que a empresa produz documentos sofisticados, com diagnósticos detalhados e visão de futuro, mas há uma distância entre os exercícios de planejamento e sua materialização no cotidiano institucional.

A Embrapa precisa estabelecer prioridades consistentes, principalmente com o avanço de tecnologias disruptivas, como edição gênica, inteligência artificial, agricultura digital, biotecnologias avançadas e automação agrícola.

Há um processo de erosão continuada da capacidade de investimentos em pesquisa e em inovação, associado à redução da dotação do Tesouro Nacional.

A diversificação de fontes de financiamento é desejável, mas não pode substituir o financiamento público. Ele protege a autonomia científica da empresa, viabiliza a produção de bens públicos e permite que a Embrapa atue em áreas estratégicas e negligenciadas pelo mercado, aponta o relatório.


Quanto à equipe da Embrapa, o problema central não está na capacidade individual de seus profissionais, mas na erosão progressiva da capacidade institucional de mobilizá-los em direção a um projeto coerente. A empresa não enfrenta uma crise de talentos, mas uma crise de gestão de talentos.

Os pesquisadores alertam, ainda, para a ausência de uma avaliação de desempenho e resultados. Instituições de pesquisa exigem lideranças com conhecimento científico e organizacional, e a Embrapa encontra dificuldades nesse quesito.

A sua relevância continua inquestionável, mas é preciso assegurar a capacidade contínua de renovação institucional em um ambiente científico, tecnológico e político diverso daquele que sustentou a sua trajetória de sucesso. A empresa precisa preservar, mas também renovar o seu capital humano, hoje pressionado pelo envelhecimento e pela descontinuidade de concursos e perda de atrativos pelas novas gerações de pesquisadores.

O desafio central consiste em criar condições organizacionais para transformar propósitos em ação. A agricultura brasileira depende de respostas inovadoras a desafios globais complexos, e a Embrapa só manterá relevância se demonstrar capacidade de atuar como protagonista na construção dessas respostas.

RECOMENDAÇÕES

Entre as recomendações do relatório estão a necessidade de reforçar a capacidade de coordenação, atualizar mecanismos de financiamento, reduzir entraves burocráticos, fortalecer a governança, valorizar talentos internos, renovar a cultura organizacional e reposicionar a empresa em redes nacionais e globais de ciência, inovação e políticas públicas.

No setor de recursos humanos, há um envelhecimento do quadro técnico, descontinuidade geracional e necessidade de competências em áreas que se tornam centrais para pesquisas contemporâneas, como ciência de dados, digitalização, avaliação de impactos, articulação institucional e captação de recursos.

A rede de unidades descentralizadas da Embrapa é um dos maiores ativos, mas é preciso uma revisão de funções estratégicas. O relatório indica que a empresa precisa reduzir custos de transação internos, simplificar fluxos, dar maior visibilidade às decisões de integrar de forma mais consistente planejamento, orçamento e execução. Governança é a capacidade de decidir, priorizar, acompanhar e corrigir rumos.

Na avaliação dos pesquisadores que produziram o relatório, o que está em jogo é a reconstrução da capacidade institucional de pensar, decidir e agir estrategicamente como empresa pública de Estado.

RESPOSTA DA EMBRAPA

Em resposta, por escrito, à Folha, a Embrapa afirma que "o documento não se propõe a ser um plano de ação, tampouco um conjunto de medidas corretivas de curto prazo capazes de, isoladamente, solucionar os desafios institucionais identificados".

É um diagnóstico sobre a trajetória da Embrapa, seus ativos e contribuições históricas, e as fragilidades acumuladas ao longo das últimas décadas. Parte das questões apontadas pelo diagnóstico já vem sendo objeto de ações em curso, segundo a empresa.

No desafio quanto às tecnologias disruptivas, a Embrapa afirma que tem priorizado ações que orientam os investimentos de médio e longo prazo. Entre as tecnologias emergentes já priorizadas, destaca a fixação biológica de nitrogênio, bioinsumos, aplicações de inteligência artificial e avaliações do risco climático.

As pesquisas em áreas disruptivas seguem sendo priorizadas, como a edição gênica por CRISPR-Cas9 para o desenvolvimento de tecnologias para adaptação às mudanças climáticas, a aplicação de inteligência artificial em modelos preditivos de clima, produtividade e sanidade vegetal, além do uso de visão computacional para diagnóstico precoce de pragas e doenças.

A Embrapa afirma, ainda, que sobre a perda de investimentos, o movimento de recomposição já teve início, e o orçamento discricionário teve uma ampliação de 210% desde 2022. Quanto à gestão organizacional, a empresa afirma que o seu corpo científico e gerencial é composto por profissionais qualificados e engajados em suas atividades de pesquisa, gestão e governança.

A empresa reconhece a necessidade de unir conhecimento científico e capacidade organizacional na formação de suas lideranças, mas afirma que já vem avançando na qualificação organizacional com diversos programas. A renovação do capital humano tornou-se uma questão estratégica. Em 2025, 19% dos empregados possuíam mais de 65 anos. Para enfrentar esse cenário, após 15 anos, a empresa voltou a realizar concurso público.

Quanto à atuação futura para responder aos desafios da agricultura, sustentabilidade e segurança alimentar do país, a empresa diz que a capacidade de adaptação já vem sendo testada na prática.

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