Hello Kitty entra em disputa diplomática entre Japão e China
Sanrio encerra parceria com série japonesa criticada na China e pede desculpas por conteúdo considerado incompatível com sua filosofia corporativa
Tokio e Beijing |Financial Times A Hello Kitty foi arrastada para um impasse diplomático entre Pequim e Tóquio, enquanto diplomatas e analistas buscam sinais de distensão em uma crise que já dura um ano, congelou as relações entre os dois países e prejudicou os laços comerciais.
A Sanrio, empresa responsável pela marca bilionária, anunciou na quinta-feira (29) que encerrará sua colaboração com uma série dramática da televisão japonesa que provocou indignação na China por sua representação da história da guerra.
A empresa, que havia vendido versões da Hello Kitty com roupas inspiradas na série de espionagem, pediu desculpas em uma publicação nas redes sociais. Segundo a companhia, a produção utilizou "expressões incompatíveis com a filosofia corporativa da Sanrio".
O Global Times, tabloide nacionalista estatal chinês, advertiu em um editorial publicado na quinta-feira (29) que "a Hello Kitty não deveria dançar com a direita japonesa".
O episódio ocorreu após uma série de sinais recentes de que os dois lados poderiam estar se aproximando de uma saída para a crise. Diplomatas e especialistas afirmaram que os países chegaram a considerar um aperto de mãos entre o líder chinês, Xi Jinping, e a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, à margem do fórum da Apec (Cooperação Econômica Ásia-Pacífico), em Shenzhen, no próximo mês.
O rompimento diplomático foi desencadeado por declarações de Takaichi no Parlamento, no ano passado, segundo as quais o Japão poderia se envolver militarmente caso a China invadisse Taiwan. As falas deram início a uma disputa que desgastou as relações sino-japonesas, provocou uma intensa guerra de propaganda nas redes sociais e deteriorou significativamente os laços comerciais entre Tóquio e seu maior parceiro comercial.
A disputa também dá poucos sinais de arrefecimento. A China acusa Takaichi de conduzir o Japão por um caminho de remilitarização semelhante ao dos anos 1930. A primeira-ministra, que nunca escondeu sua aversão à China, mantém altos índices de aprovação interna, impulsionada por sua recusa em retirar as declarações.
O People's Daily, jornal estatal chinês, tem criticado especialmente a série japonesa de espionagem Vivant. A produção retrata organizações de inteligência chinesas torturando seus rivais japoneses com métodos que, segundo o jornal, "foram usados pelo Exército japonês invasor, com provas irrefutáveis".
Embora muitos especialistas considerem que Xi e Takaichi estejam presos demais às próprias posições para reduzir as tensões, alguns analistas e diplomatas apontaram acontecimentos recentes que podem indicar uma mudança cautelosa no tom.
Na quarta-feira (28), um centro de estudos ligado ao Estado chinês promoveu em Pequim um simpósio conjunto com a Organização Japonesa de Comércio Exterior. O encontro tinha como objetivo declarado "identificar formas de aliviar as tensões e construir um mecanismo para reparar as relações".
No início desta semana, Xi enviou uma mensagem de condolências à família de Yasuo Fukuda, ex-primeiro-ministro japonês que morreu na semana passada e havia trabalhado para melhorar as relações bilaterais. Na mensagem, o líder chinês elogiou a "visão correta da história" de Fukuda e manifestou a esperança de que os atuais políticos japoneses "preservem firmemente os fundamentos políticos das relações bilaterais".
"Eles [Pequim] sentem fortemente que se encurralaram ao reagir de maneira excessivamente rápida e dura às declarações dela [Takaichi] sobre Taiwan", afirmou Joerg Wuttke, sócio do grupo DGA em Washington. "Portanto, é preciso haver algum mecanismo que permita aparecer ao lado dela sem ceder demais."
Ele observou que um aperto de mãos entre Xi e Takaichi na Apec remeteria a um encontro de 2014, quando o então primeiro-ministro japonês Shinzo Abe, morto em 2022, e Xi trocaram um cumprimento frio após uma série de disputas acirradas.
Muitos especialistas, porém, minimizam as perspectivas de uma distensão iminente.
Jeffrey Hall, especialista em relações internacionais da Universidade de Estudos Internacionais de Kanda, afirmou que a postura de Takaichi contrária à China é popular no Japão, onde predominam as opiniões negativas sobre Pequim.
"A Apec poderia ser uma oportunidade, se ela quiser, mas será que quer?", questionou. "Ela precisa equilibrar sua base doméstica, que simplesmente não gosta da China, com os interesses da comunidade empresarial japonesa, que preferiria que as coisas transcorressem sem problemas."
"Em muitos aspectos, ela é um alvo perfeito para a propaganda anti-Japão", acrescentou.
Comentários 0
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar.