Guerra eleva preço de insumos de infraestrutura e pressiona concessionárias
Empresas de serviços de água querem cortar flúor depois de alta de 300% no preço
O aumento no preço do petróleo, provocado pelo fechamento do estreito de Hormuz por cerca de quatro meses, causou uma disparada no valor de insumos e materiais usados por vários setores de infraestrutura, incluindo rodovias e saneamento.
Empresas e representantes de diversas concessionárias citam atrasos nas entregas de produtos usados no tratamento de água e custo maior com combustível para abastecer máquinas e caminhões.
Pressionadas por preços mais elevados, companhias de tratamento e distribuição de água querem cortar a adição de flúor ao líquido, uma determinação da lei 6.050, de 1974, que tem como objetivo prevenir cáries nos dentes.
Carol Marques, diretora técnica e econômica da Abcon (Associação Brasileira das Empresas de Saneamento), disse à Folha que a entidade pedirá ao Ministério da Saúde a suspensão —ou, pelo menos, redução e racionamento— da fluoretação da água, processo de adição de fluoreto.
As companhias relatam, segundo ela, redução na disponibilidade de ácido fluossilícico, utilizado na adição de fluoreto à água (fluoretação). De acordo com a Abcon, as empresas registram atraso de aproximadamente três meses na entrega do produto e aumento de preço superior a 300% no mercado spot (contrato à vista).
Marques afirma que o cenário é reflexo do impacto sofrido pela Mosaic, empresa de fertilizantes que reduziu as operações no Brasil em meio à escalada no preço do enxofre obtido a partir do refino do petróleo. O ácido fluossilícico é um subproduto da fabricação do fertilizante fosfatado, e, segundo Marques, a companhia americana é a principal fornecedora do ácido às empresas associadas da entidade.
A diretora da Abcon afirma que a associação solicitou reunião com a pasta, mas ainda não teve resposta.
Procurado pela Folha, o Ministério da Saúde não respondeu sobre eventual reunião com a Abcon para debater o tema. "O método [fluoretação] é recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde), e estudos apontam que a medida reduz em cerca de 50% a prevalência de cáries na população. Os custos operacionais da fluoretação representam de 0,2% a 0,6% do custo total do tratamento de água em cidades de médio e grande porte. Em São Paulo, por exemplo, esse custo foi estimado em cerca de R$ 0,08 por habitante/ano", escreveu o ministério.
Em nota à Folha, a Mosaic disse que "enfrenta desafios relacionados à inesperada indisponibilidade e ao elevado custo do enxofre, insumo essencial para a produção de fertilizantes fosfatados".
Segundo a Mosaic, esta é a crise de abastecimento mais grave que o setor enfrenta desde 2008. "Como consequência direta desse cenário, a companhia suspendeu temporariamente novas ofertas de ácido fluossilícico. A medida se aplica exclusivamente a novas negociações, sendo que todos os volumes já contratados serão entregues rigorosamente conforme os termos acordados", disse em nota.
Marques afirma que a Abcon também registrou aumento de até 300% no sulfato de alumínio, coagulante usado para remover impurezas da água, feito a partir de enxofre. Além disso, fornecedores estão recusando a renovação de contratos de longo prazo e estendendo prazos de entrega, diz.
Segundo a Abcon, o prazo de validade do sulfato de alumínio é de apenas quatro meses —por esse motivo, as empresas não formam grandes estoques do produto.
A alternativa é o policloreto de alumínio, também chamado de PAC. O problema, diz Marques, é que esse é um produto mais caro e cujo uso exige adaptação técnica das empresas de água e esgoto.
"Algumas empresas já migraram para o PAC. E a preocupação é que a migração em massa das empresas, diante desse choque no sulfato de alumínio, gere também um efeito sobre os preços do PAC."
Há impacto nos preços nos tubos de PVC (policloreto de vinila) e Pead (polietileno de alta densidade), também feitos de derivados do petróleo, cujos valores aumentaram até 45% na comparação com o período anterior à guerra, segundo a Abcon.
De acordo com Carol Marques, o tempo de entrega dos tubos de PVC passou de até 30 dias para 45 a 60 dias. No caso do Pead, o tempo de espera saltou de 45 a 60 dias para 75 a 90 dias.
"Nós estamos em um momento de investimento muito intenso para o alcance das metas de universalização [de acesso a água e esgoto]. Nós temos uma série de obras pelo país que estão sendo afetadas, tanto em termos de custo como em termos de cronograma. As empresas estão fazendo o gerenciamento dos estoques para manter essas obras em funcionamento e não causar atrasos nos investimentos previstos", diz Marques.
Em nota à reportagem, o diretor financeiro e de relações com investidores da Sabesp, Daniel Szlak, disse que a companhia "acompanha esse tema com atenção porque a Sabesp está em um momento de forte execução de investimentos".
Szlak afirma, porém, que os efeitos da guerra não alteram o plano de investimentos da companhia e não comprometem a execução dos projetos previstos.
INSUMO ASFÁLTICO
No setor de rodovias, a disparada no preço do petróleo nos últimos meses pressiona o valor do material asfáltico.
Tulio Abi-Saber, CEO da Via Cristais (concessionária da Vinci Highways que opera 594 quilômetros da BR-040, de Minas Gerais a Goiás), diz que a companhia registrou aumento de aproximadamente 30%, em pouco mais de 40 dias, no custo do insumo.
Apesar da alta nos preços, Abi-Saber diz que isso não afetará a realização de investimentos pela concessionária. "A Via Cristais tem todo o seu ‘funding’ [captação de recursos] muito bem equacionado."
Questionado sobre o risco de a concessionária vir a pedir um reequilíbrio do contrato, ele disse que ainda "precisa esperar para ver". "Ainda não está claro para mim qual será a totalidade dos efeitos, se vão ser relevantes ou não", completa o executivo.
Rui Klein, diretor-geral de concessões da EcoRodovias, diz que a variação do preço do material asfáltico está sendo monitorada pelas concessionárias.
"A gente cria rapidamente algumas contingências, gerencia isso numa espécie de força-tarefa e depois leva ao poder concedente, porque, de fato, esses efeitos de guerra, como é o caso agora com [a guerra no] Irã, são efeitos que não são previsíveis e há uma resposta contratual. As próprias agências criam respostas para essas crises."
Na EPR, o aumento no preço foi menor, segundo José Carlos Cassaniga, diretor-presidente do grupo. Ele diz que a empresa fez aquisições de material asfáltico em escala, com contratos mais antigos e nos quais constava um mecanismo de proteção para essas variações.
"Como o insumo asfáltico tem uma participação importante na nossa cadeia de serviços e investimentos, nós organizamos uma compra de maior monta, com maior duração, pagamentos organizados e até antecipados e um fluxo de entrega de materiais bastante inteligente. De certa forma, ajudou também a conviver com esse momento", afirma à reportagem.
A Veolia Brasil, empresa francesa que atua com gestão de resíduos (lixo) em estados como Santa Catarina e Alagoas, diz que observou aumento de 30% a 40% nos custos com combustível para operação da frota de caminhões e de máquinas que atuam em aterros sanitários.
Por enquanto, o impacto financeiro tem sido absorvido pela própria empresa, segundo Tiago Camargo, diretor de desenvolvimento de negócios públicos. "A gente vem monitorando isso há dois ou três meses para ver se ele realmente vai se consolidar no segundo semestre."
O preço do petróleo vem recuando em meio ao cessar-fogo de 60 dias definido por EUA e Irã enquanto negociam um acordo definitivo de paz. Na semana passada, o preço do petróleo alcançou o patamar que tinha antes da guerra do Irã após mais de quatro meses de conflito.