Geração Z de Portugal e Espanha tenta articular greve geral conjunta
Jovens dos dois países da península Ibérica estão nas ruas protestando por melhores condições de moradia
Uma "conexão ibérica" vem se formando entre os jovens da geração Z que protestam por melhores condições de moradia na Espanha e em Portugal. Os movimentos dos dois países se apoiam mutuamente, usam as mesmas estratégias para conseguir mudanças legislativas, e pressionam suas centrais sindicais para convocar, no dia 11 de novembro, o que seria a primeira "greve geral ibérica" da história.
"Estamos cada vez mais a ouvir de vocês sobre uma greve geral em 11 de novembro. Temos que puxar junto. O problema da habitação não conhece fronteiras", postou no Instagram Miriam Bué, porta-voz do Sindicato de Inquilinas e Inquilinos de Madri, entidade central nos protestos contra o despejo da idosa Maricarmen Abascal na Espanha.
A greve conta com o apoio do Sindicato de Moradoras e Moradores de Lisboa. Os sindicatos de trabalhadores na Espanha também já aderiram. A CGTP, Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses, ainda não respondeu se fará parte do movimento.
Neste sábado (24), milhares de estudantes portugueses desafiaram as autoridades e desceram a avenida da Liberdade em direção ao Rossio com o objetivo de fazer mais uma "acampada" –montagem de tendas onde os estudantes passam a noite em protesto contra os alugueis altos.
A Polícia de Segurança Pública proibiu esse tipo de manifestação e disse que retiraria as barracas do Rossio caso elas efetivamente se instalassem. Juristas portugueses contestam a proibição, invocando dispositivos legais que dizem que o direito de manifestação não necessita de autorização prévia.
Na madrugada de terça-feira (20), a Polícia de Segurança Pública retirou à força as barracas que haviam sido montadas na maior "acampada" na cidade até então. 55 jovens foram detidos e soltos ao longo do dia, com a promessa de se apresentar posteriormente às autoridades.
"A avenida da Liberdade é um símbolo para várias gerações de portugueses", diz à reportagem o estudante João Cruz, de 27 anos, doutorando em ciências do ambiente. Ele se refere ao fato de que o percurso reproduz aquele que os portugueses fazem todos os anos no dia da Revolução dos Cravos, 25 de abril, a data nacional do país.
O Largo do Rossio é o mesmo lugar onde, em 1974, os militares que derrubaram a ditadura salazarista colocaram cravos nos canos de suas armas. Alguns jovens que se preparavam para a descida da Liberdade portavam flores vermelhas na lapela.
"Não há líderes no movimento, há assembleias todos os dias em que cada um pode falar por três minutos. É algo do povo para o povo", afirma Carolina Malamud Carreiras, de 21 anos, estudante de psicologia que participou de várias "acampadas". "O clima nas manifestações é ao mesmo tempo muito lindo e muito triste. Lindo no sentido em que há muita união e solidariedade. Melancólico porque as queixas são muito reais. Muitos jovens não veem um futuro neste país e também não querem emigrar".
A dificuldade para sair da casa dos pais, devido ao alto custo de moradia, é um problema comum a jovens de muitos países europeus. "Usamos redes sociais para partilhar os contextos em que vivemos, que são semelhantes", afirma João Cruz. "Há muita colaboração entre Portugal e Espanha porque nos dois países esse contexto é muito parecido".
Na área da habitação, existem redes ativistas como a European Action Coalition for the Right to Housing and the City (Coalizão Europeia de Ação pelo Direito à Habitação e à Cidade), com ramificações na França, Bélgica, Holanda, Irlanda, Itália e República Checa, entre outros países do continente. João Cruz, que faz parte desta rede, esteve em Madri durante os protestos na praça Puerta del Sol num evento promovido pela Coalizão.
As "acampadas" portuguesas são inspiradas nos protestos surgidos em Madri em solidariedade à aposentada Maricarmen, que aos 87 anos foi despejada do imóvel onde morava desde a juventude. Acabou morrendo num hospital no último dia 7 de outubro, o que desencadeou ocupações de praças com tendas por todo o país.
Portugueses e espanhóis também têm em comum as pautas políticas. Em Portugal, os jovens protestam contra uma lei que facilita os despejos e tira travas sobre aumentos de alugueis – o primeiro-ministro Luís Montenegro, de centro-direita, acredita que isso criaria um "boom" na construção civil e baixaria o preço dos aluguéis. Os jovens defendem, ao contrário, mais controle no arrendamento e a criação de mais moradias populares.
A lei de Montenegro foi pré-aprovada mas, após os protestos, perdeu apoio entre os parlamentares e há dúvidas se resistirá a uma segunda votação. O tema deverá voltar à pauta na próxima terça-feira, 27 de outubro. Está prevista uma grande manifestação neste dia em frente à Assembleia da República.
"Derrubar uma lei não é tão difícil", diz Teresa Mamede, porta-voz do Sindicato das Moradoras e Moradores de Lisboa, que guarda proximidade com o Sindicato de Inquilinas e Inquilinos de Madri. "Se a lei não passar, nossa vida não vai melhorar, apenas não vai piorar ainda mais. O papel das ruas é ir além. Nossa reivindicação é pelo fim dos despejos para quem não tem alternativa de moradia, e também pelo controle dos alugueis. Essas medidas sim fariam diferença".
A pauta ecoa as reivindicações dos jovens madrilenhos. Na Espanha, o primeiro-minsitro Pedro Sanchez propôs duas novas leis que protegiam inquilinos, que ficaram conhecidas como "Decretos Maricarmen". Os decretos foram derrubados pelos deputados. O episódio expôs a fragilidade de seu governo e forçou Sánchez a convocar novas eleições, marcadas para 29 de novembro.
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