Frustração dos jovens pode ser explicada em um gráfico?
Parte do cansaço vem das limitadas chances de ascensão
Toda sociedade que acredita na igualdade de oportunidades costuma assumir um bonito compromisso com suas crianças. O compromisso de que o lugar onde alguém nasce não deve decidir o tamanho do seu futuro. Trabalho duro e estudo deveriam abrir horizontes. Mesmo quando o caminho começa difícil, deveria existir uma estrada possível entre a origem e o destino.
A Curva do Grande Gatsby ajuda a entender por que esse compromisso parece tão distante para as gerações mais jovens. Ela mostra uma relação na qual países com maior desigualdade tendem a ter menor mobilidade entre gerações. À medida que a distância entre ricos e pobres cresce demais, fica mais difícil para os filhos dos mais pobres subir e mais fácil para os filhos dos mais ricos permanecer no topo.
O Brasil aparece como um dos casos mais expressivos dessa tensão. Nossa concentração de riqueza e renda faz com que a origem familiar tenha um peso muito alto na vida adulta. Nascer em uma família rica costuma significar acesso a uma série de vantagens. Nascer em uma família de classe média baixa ou pobre, por outro lado, significa começar a corrida muitos metros atrás e com responsabilidades adultas chegando cedo demais.
É por isso que a desigualdade brasileira não afeta apenas o presente. Ela atravessa gerações. A renda e a riqueza concentradas no topo tendem a se converter em investimento privado nos filhos, em herança, em moradia melhor, em escolas melhores e em uma rede de proteção que reduz o custo dos fracassos. Agora, se você nasce na classe média ou na pobreza, você terá muito menos tempo disponível para construir o próprio caminho.
A comparação com países nórdicos, como Suécia e Noruega, ajuda a iluminar esse contraste. Esses países também têm os seus desafios. A diferença é que a distância entre os grupos costuma ser menor e o Estado atua com mais força para impedir que a origem defina o destino. Maior equilíbrio salarial e sistemas tributários mais progressivos, por exemplo, reduzem o peso da origem familiar sobre a trajetória dos filhos.
Assim, nesses países, a criança depende menos dos recursos dos pais para acessar boas oportunidades. No Brasil, a origem familiar ainda funciona como um fator decisivo na definição das oportunidades disponíveis.
Nesse contexto, durante muito tempo, dissemos aos mais jovens que bastava aceitar sacrifícios e adiar recompensas. Muitos acreditaram nessa história. Alguns fizeram cursos, outros acumularam diplomas, entraram em estágios, aceitaram salários apertados, moraram mais tempo com os pais, adiaram filhos, adiaram casa e adiaram até a sensação de estar vivendo a própria vida.
E então surge uma pergunta que ninguém parece estar escutando: por que tanto esforço compra tão pouco futuro?
A frustração que nasce daí tem nome técnico e tem nome humano. O nome técnico é baixa mobilidade intergeracional. O nome humano é a sensação de correr numa esteira que acelera sozinha, em que você se esforça cada vez mais para permanecer exatamente no mesmo lugar.
E existe um risco político nisso que poucos estão levando a sério. Uma sociedade que entrega estagnação produz uma juventude ressentida, e o ressentimento costuma procurar culpados antes de procurar soluções.
O texto é uma homenagem à música "Pontes Indestrutíveis", de Charlie Brown Jr.