Filme 'Feito Pipa' traz tramas e personagens com pouca precisão
Longa apresenta cenários sem personalidade definida
Em "Pacarrete", seu primeiro longa, Allan Deberton buscou o apoio de Marcélia Cartaxo para levar adiante um filme em que os elementos cômicos predominam sobre o melodrama que se instala a partir do instante em que a personagem procura impor uma cultura estranha à cidade de Russas, no Ceará.
Em "Feito Pipa", o investimento de Deberton é diretamente no melodrama, um melodrama basicamente clássico. Ali existe, no centro, o garoto Gugu, papel de Yuri Gomes, que vive uma infância feliz em companhia da avó, Dilma, vivida por Teca Pereira. Ele leva o que se pode chamar de uma infância feliz, sem repressão, explorando seus dotes de futebolista e dançarino. A avó fornece afeto e liberdade.
Neste primeiro momento, pouco surge na tela a figura paterna, aliás bem introduzida. Sua imagem é, imediatamente, ameaçadora, ainda que diga tantas vezes quanto puder que adora o filho. Como o ator é Lázaro Ramos, artista com quem, em princípio, nós, espectadores, temos boas relações, "Feito Pipa" introduz uma interessante ambiguidade. A imagem paterna de imediato sinaliza perigo, mas isso é mitigado pela presença do ator.
Ao mesmo tempo, podemos indagar de imediato o que há de errado nesse pai que tanto afirma gostar muito do filho, mas não o leva para morar consigo.
O problema é que o Alzheimer da avó, que se manifesta desde o início, mas ainda é suave, agrava-se à medida que a ação se desenvolve. Ela será internada e o neto terá de morar com o pai.
Infere-se daí uma ruptura na família. O pai deixa o garoto com a avó porque tem um segundo casamento e uma filha dessa outra relação. Não me lembro se a mãe de Gugu morreu ou não. O fato é que ela está ausente, assim como a madrasta. O novo polo de afeto é o pai. Este bem que tenta se aproximar do filho, ensina-o a andar de moto e tudo mais. Mas não é uma aproximação que possamos chamar de natural. É visível que faz um esforço nessa direção.
Gugu passa a ter a companhia de sua irmãzinha. Eis um viés que o filme poderia ter desenvolvido –a existência de um afeto muito maior do pai pela filha do que pelo filho do qual se distanciou.
Em troca, descobrimos que o pai sofre com o futuro sexual de seu filho e passa a fantasiar que ele pode ser gay, a partir de alguns sinais que, concretamente, não querem dizer nada. A repressão se abate sobre Gugu, que já nem pode mais contar com a avó como contrapeso.
O filme de imediato faz lembrar "Quando o Amor É Cruel", o magnífico melodrama de Luigi Comencini, justamente sobre a relação pai e filho. É um melodrama assumido, ao contrário deste de Deberton, que evita transbordamentos sentimentais. No filme de Comencini o pai ama imensamente o filho. É um homem ilustrado, cônsul inglês em Florença, mas não consegue simplesmente compreender o filho.
Essa rápida sinopse serve para mostrar certas deficiências de "Feito Pipa". Uma delas é fazer da figura paterna um homem bem-intencionado, porém de horizontes um tanto limitados. O filme não se interessa pela figura dele, apenas pela função paterna. Também não existe localização geográfica precisa.
Ao contrário de "Pacarrete", que tinha uma localização precisa, aqui Deberton opta por desenvolver seu filme em torno de um problema, a sexualidade e sua relação turbulenta de um sujeito, o filho, com a norma. A repressão que pode se abater pela simples suspeita de desvio da norma.
É por se dedicar mais ao problema que aponta e ao condicionar o relacionamento pai e filho a isso, o filme opta por uma forma mais abstrata. É difícil localizar a que classe social pertence a avó, por exemplo. Sua casa parece um cenário mais do que uma casa.
Também não há uma localização mais precisa da trama. Aqui, pode-se voltar ao outro caso. No filme de Comencini a ação se dá em Florença. A beleza e o aspecto suave da cidade contrastam com a natureza do drama entre pai e filho.
Caso optasse por um caminho mais concreto, construindo personagens mais do que tipos, buscando localizar o drama com mais precisão –tanto geográfica como de classe social–, o filme poderia também evitar a fotografia publicitária, em que os lugares parecem lugar qualquer, sem personalidade definida.
Seria menos didático, talvez, e não prejudicaria a evolução eficaz da narrativa. Ganharia, no entanto, em transe, excesso e insânia, elementos essenciais ao melodrama, como se sabe ao ver, por exemplo, os filmes de Almodóvar.
Por fim, existe um contraste a notar entre "Feito Pipa" e, digamos, "Vicentina Pede Desculpas", de Gabriel Martins, outro filme em cartaz.
Neste, não podemos imaginar a trama senão entre pessoas quase sempre negras e da periferia. "Feito Pipa" poderia se passar entre pretos, brancos, bolivianos ou astecas, sudestinos ou nordestinos. "Vicentina", ao contrário, começa e termina como melodrama, o que talvez enfraqueça sua evolução, que é ponto forte de "Feito Pipa".
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