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Filme de Gabriel Martins transforma tragédia em um retrato social

Filme de Gabriel Martins transforma tragédia em um retrato social

Cada um faz seu luto como pode. Vicentina, cujo filho era motorista de ônibus, o faz passando de porta em porta para se desculpar pelo filho, que ela julga responsável por um desastre horrível. O ônibus caiu de um viaduto, virado, matando não só o rapaz como quase todos os passageiros.

Não existe nenhuma evidência de que ele fosse o culpado, mas a polícia tem lá suas dúvidas, que os noticiários da TV multiplicam por dois e os programas sensacionalistas, por dez. Vicentina passa os dias e noites vendo televisão, cada dia sentindo mais culpa pelo acontecido.

Em um momento, decide iniciar o seu périplo: visitar cada mãe ou pai de vítima para pedir desculpas pelo mal que o filho teria causado. É evidente que qualquer espectador pode lembrar do acidente de um avião, na Europa, em que o copiloto tomou a cabine de comando até levá-lo ao chão, matando todos os passageiros.

Aqui é um pouco diferente. E pode-se perguntar até que ponto a mídia não bota toda atenção na eventual responsabilidade do motorista, sem atentar à penca de problemas técnicos que podem afetar o comportamento de um veículo.

O importante é que Vicentina se põe a pedir desculpas. Toda a sua vida desenrola-se então num ambiente amarelado, que parece reproduzir sua depressão.

É curioso como o diretor Gabriel Martins passa de um filme onde a felicidade dá o tom —"Marte Um"— para outro em que a dor é o sentimento mais presente. Na expressão da atriz, assim como em seu andar, com ajuda de muleta, a dor se manifesta.

No entanto, será ela o aspecto principal do filme? Ou seria sobretudo um pretexto para que, visita após visita, uma variedade de reações aconteça e fragmentos de vida de pessoas quase sempre modestas, quase sempre negras e periféricas, apareçam. Há quem se alivie ao falar com ela, quem a ofenda, quem partilhe sentimentos ou simplesmente não a receba.

Afinal, o que é a dor? Qual o caminho para seu alívio? Essa é a única pergunta, me parece, que justifica o périplo de Vicentina, que não o torna um exercício penoso e vão, como se somar ao seu o sofrimento dos outros pudesse constituir uma forma de alívio. Em suma, o luto é pessoal, intransferível.

O que mais importa, contudo, é outra coisa: a maneira como pessoas quase sempre modestas, pertencentes a uma pequena classe média, podem se identificar, não na dor, mas nos gestos. O que atravessa essas visitas todas é o sentimento de terem algo em comum. Não apenas essa história imediata, a do desastre, mas algo mais difuso: existe uma história não dita que aproxima as personagens.

Sim, são quase todas negras, mas diferentes das de "Marte Um", que decorriam de um momento de conquistas que levavam à igualdade, ou a algo próximo, a um sonho de igualdade.

Em "Vicentina" tudo aponta para outro lado. O sofrimento de Vicentina antecede o acidente, ele vem de seu corpo, da perna claudicante. Não é um filme de vitória, mas de derrota. Não de todo, entretanto. Em dado momento, Vicentina cruza com um casal de idosos para quem o mais importante no encontro com ela consiste na possibilidade de pedir um dinheiro, uma espécie de indenização pelo acidente que matou seu filho. É um abuso, evidentemente.

Mas a mulher lhe entrega o que pode: existe um sentido de solidariedade que vai além do fato imediato. Um sentido de comunidade, talvez. A algumas variantes dessa comunidade de pequena classe média da periferia é que o filme busca nos apresentar.

Talvez o maior reparo que se possa fazer a esse filme seja seu tom cavernoso, que apenas por acaso parece coincidir com o amarelão da Netflix, que distribui o filme. Esse tom é de infelicidade, certamente. Mas há um momento em que algo de muito especial acontece.

Estamos em uma sala, com uma mesa atrás das personagens. Ali estão uma garrafa muito branca e um objeto amarelo-vivo. E esses dois criam um contraste que em nada afeta a tristeza do tom, mas lhe tira a atmosfera funérea.

Esse detalhe de direção de arte —e, mais do que isso, de direção— não importa muito, pois antes de tudo "Vicentina" impõe a originalidade de um olhar capaz de apanhar pessoas e paisagens interiores com a intensidade do vivido.

De todas as visitas que faz Vicentina, uma me chamou a atenção: a do homem que atribui toda a responsabilidade da tragédia não só ao filho, como à própria Vicentina, como se atribuir a culpa a alguém —e alguém que já se sente culpada sem nenhum motivo palpável— já o aliviasse.

A cada variante —os que são ternos, os que abraçam, os que são distantes ou mesmo hostis— revela-se um fragmento de um mundo complexo, atravessado ele mesmo de dores, tristezas, recalques e também alegrias.

Fonte original Publicado originalmente por Folha de S. Paulo
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