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Política

Êxito além-fronteiras

Reeleição de Lula tem ao menos três efeitos de importância internacional

Êxito além-fronteiras

Imprevisível, inédita e inquestionável, a reeleição do presidente Lula tem efeitos positivos mais vastos do que a auspiciosa derrota do que há de pior na política brasileira. Três deles, ao menos, possuem dimensão internacional e potencial para fortalecer a presença externa do Brasil.

O primeiro é que a amazônia escapou do previsível avanço da degradação, patrocinado pelo negacionismo em aliança com o crime. A proteção da floresta continua a ser um problema maiúsculo de interesse global. Seu enfrentamento requer do governo clareza de objetivos; capacidades estatais acrescidas; recursos utilizados com sabedoria; cooperação internacional; e inteligência política para dialogar e arbitrar interesses legítimos e conflitantes: populações indígenas e tradicionais; produtores rurais; pecuaristas; mineradores legalizados; a numerosa população que vive em suas cidades.

Por outro lado, vindo a ser um patrimônio da humanidade, em boa medida sob nossa gestão, a amazônia é também poderoso trunfo de uma política exterior ambiciosa. Garante ao país vez e voz nos fóruns mundiais que decidem o futuro do planeta.

A segunda consequência positiva da derrota de Flávio Bolsonaro é a redução a suas verdadeiras proporções do Escudo das Américas —a fantasia trumpista de domínio sobre o continente. Sem as suas três nações mais populosas —Brasil, México e Canadá—, a couraça serve apenas como exercício de submissão de governos fracos aos caprichos de Donald Trump —cuja estrela, já não sem tempo, parece cadente. Poderá produzir estragos, mas dificilmente servirá de proteção aos países que sob ele se abrigam. Por certo, são reais os problemas de segurança continental —especialmente os causados pelo crime transnacional. Difícil imaginar que o Brasil consiga lidar com eles sem muita cooperação, sobretudo com os Estados Unidos, como, de resto, já ocorria bem antes de Trump. Um desafio e tanto para o governo que continua, para suas lideranças militares e seus experimentados diplomatas.

Por fim, o mais importante. No domingo (25), os eleitores brasileiros provaram ser possível vencer a extrema direita votando livremente. A destra extrema, como se sabe, está em ascensão nas democracias representativas. Oposição desleal, rejeita os princípios básicos das democracias liberais. Em especial os destinados a impedir que se torne despótico o governo de quem chegou ao poder pela vontade da maioria. A saber, Estado de Direito, freios e contrapesos institucionais, imprensa livre, sociedade civil autônoma, proteção às minorias.

A extrema direita tem raízes nacionais e seus traços variam de país a país. Nutre-se de descontentamos específicos —aqui, da insegurança pessoal ameaçada pela criminalidade; ali, da fobia aos imigrantes, especialmente os de outra cor e de outros costumes; acolá, da perda do trabalho e do status social. Mas é também um fenômeno internacional: se reproduz pelo exemplo e se apoia em redes globais por onde circulam ideias; experiências de atuação; agendas prontas; pessoas e recursos.

Ter vencido o bolsonarismo, versão cabocla do extremismo de direita, é ao mesmo tempo exemplo para o mundo e trunfo da projeção internacional do Brasil no universo das democracias.

Fonte original Publicado originalmente por Folha Poder
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