Eu sei bem como o vício em apostas destrói famílias
Quando fazia uma amizade, minha primeira advertência era de que meu familiar pediria dinheiro emprestado para apostas
Parece ser uma diversão inofensiva. No entanto, especialistas sinalizam que o vício em apostas virtuais já é uma das principais causas de empobrecimento e ruptura de vínculos no país. Algumas projeções indicam de que em cinco anos as apostas possam superar o álcool e as drogas como principal indutor da situação de rua.
Eu sei bem o que o vício em apostas pode causar em um círculo familiar. Senti isso na pele ainda muito novo. Uma das pessoas mais importantes em minha vida foi viciada em jogos e isso afetou minha infância e adolescência.
Tive uma boa infância, no entanto, em certos momentos não tínhamos dinheiro para o básico e, quando isso acontecia, nosso provedor desaparecia por dias, com vergonha de ter gasto o salário em apostas. O vício era tão grande que ele pedia dinheiro emprestado a todos a sua volta.
Em minha adolescência, quando fazia uma nova amizade ou tinha uma nova namorada, minha primeira advertência era de que, em algum momento, aquela pessoa pediria dinheiro emprestado e que se este novo amigo ou namorada emprestasse, eu romperia relações.
Não guardo mágoas deste período, apenas me entristeço, pois esta pessoa tão importante para mim tinha um potencial enorme, mas o vício era maior do que qualquer capacidade. Aprendi muito com esta situação e sei o mal que as apostas virtuais podem causar na vida das pessoas, principalmente dos mais vulneráveis.
Devido a isso, sempre tento incluir esta pauta nos projetos e ações sociais da ONG Meu Sonho Não Tem Fim. Um exemplo é a reflexão "O Portal Mais Largo do Mundo", baseada em um texto de meu livro "Um Sonho que Não Tem Fim", disponível para download no site da organização.
Nesta história conto a reação de um morador de rua ao medir o celular de um jovem que acessava um aplicativo de apostas online e, surpreendendo-se com as pequenas dimensões do aparelho, exclama aos presentes: "São apenas 15 centímetros de altura por 7 centímetros de largura".
Voltando-se novamente para o grupo de jovens, ele faz um breve discurso, deixando motivos para profundas reflexões. "Parece mentira, mas por este pequeno portal passou todo o meu dinheiro, meu carro, o pão dos meus filhos, meus móveis e a minha casa. Por ele também passou a minha saúde, as esperanças de minha esposa e toda a felicidade do meu lar."
Após uma longa pausa, aquele homem —visivelmente emocionado— continua sua explanação: "Sim, meus jovens, todos os meus planos de construir uma família feliz passaram por este pequeno portal, dia após dia, jogada após jogada. Hoje, eu não tenho mais nada. Nem família, nem saúde, nem esperança. Mas, quando passo por alguém acessando-o, ainda ouço o chamado daquele que é responsável pela minha desgraça dizendo: só mais uma jogada! Quem sabe não é o começo da recuperação de tudo aquilo que você perdeu! Por isso é que eu lhes digo: este é o portal mais largo do mundo! De aparência inofensiva: pequeno, alegre e colorido, por ele pode-se passar tudo o que se tem de mais valioso na vida."
Histórias como esta não são apenas ficção, estão acontecendo cada vez com mais frequência e nós, como sociedade, precisamos cobrar regras mais severas, controles sobre publicidade e campanhas de conscientização a respeito dos riscos das apostas online.
Obviamente, que tudo isso é muito difícil, uma vez que, alguns dos maiores anunciantes do país são empresas deste setor, assim como importantes formadores de opinião insistem em serem seus ferrenhos defensores.
Façamos a nossa parte, acreditemos que não existe melhor caminho para a solidariedade humana do que a luta e o respeito pela dignidade individual.