Estamos preparados para um colapso no setor de IA?
Data centers enfrentam risco de obsolescência e demanda concentrada
A IA (inteligência artificial) tem muitas implicações para a humanidade, a maioria delas ainda longe de ser plenamente compreendida. Entre elas há uma consequência concreta e atual: a tecnologia provocou uma enorme onda de investimentos em capital físico para atender à demanda por grandes data centers.
De acordo com um estudo instigante, denominando de Financing the AI Buildout ("Financiando a expansão da IA", em tradução livre), de Stijn van Nieuwerburgh, da Columbia Business School, os gastos nos Estados Unidos deverão representar, em média, 3,6% do PIB (Produto Interno Bruto) entre 2025 e 2032, inclusive. O percentual supera a média de 2,2% do PIB destinada às ferrovias entre 1870 e 1890, sem falar nos 1,1% gastos com rodovias entre 1956 e 1973. Na verdade, seria o maior ciclo de investimentos já registrado em um setor específico.
Algumas dessas transformações anteriores se estenderam por períodos muito mais longos. Mas isso torna a expansão da infraestrutura de IA ainda mais concentrada e, possivelmente, mais disruptiva. Além disso, como explica van Nieuwerburgh, o financiamento dessa onda de investimentos começa a criar riscos clássicos, apesar da solidez das grandes empresas —principalmente Alphabet, Amazon, Meta, Microsoft e Oracle— que impulsionam o aumento dos gastos.
Esses riscos também têm dimensão macroeconômica. Ciclos de expansão podem facilmente se transformar em crises, com a queda das avaliações no mercado de ações, a falência de empresas, prejuízos para credores e o desaparecimento de investimentos planejados. Desta vez será diferente? Em última análise, isso depende da rentabilidade dos novos negócios —e, nesse caso, as expectativas são bastante elevadas.
Como aponta o estudo, os investimentos de capital somados das empresas mencionadas passaram de US$ 97 bilhões (R$ 530,26 bilhões) em 2020 para US$ 416 bilhões (R$ 2,27 trilhões) em 2025. A previsão é que cheguem a US$ 801 bilhões (R$ 4,38 trilhões) em 2026. Em 2020, o fluxo de caixa operacional dessas companhias superava os gastos de capital em US$ 155 bilhões (R$ 847,32 bilhões). Em 2025, elas ainda registravam um excedente de mais de US$ 187 bilhões (R$ 1,02 trilhão).
Mas, ao longo desse período, a proporção dos gastos de capital em relação ao fluxo de caixa operacional subiu de 38% em 2020 para quase 69% em 2025. Em 2026, segundo as projeções das próprias empresas, os investimentos superarão o fluxo de caixa em US$ 93 bilhões (R$ 508,39 bilhões), e a relação entre gastos e geração de caixa chegará a 113%.
Alphabet e Microsoft ainda deverão gastar um pouco menos do que geram em caixa. Já os investimentos da Oracle superarão seu fluxo de caixa em 138%; os da Amazon, em 36%; e os da Meta ficarão próximos desse patamar.
Como resultado, estão sendo criadas estruturas financeiras cada vez mais complexas. Assim, como já ocorreu em outros momentos, um ciclo de investimentos está provocando uma explosão do endividamento.
Embora os investimentos diretos das grandes empresas de tecnologia em nuvem, conhecidas como hyperscalers, continuem importantes, "o modelo de financiamento marginal está mudando. Desenvolvedores especializados em data centers, fundos imobiliários, fundos de infraestrutura e investidores de private equity estão construindo ou adquirindo instalações e alugando capacidade para as grandes empresas de tecnologia em nuvem e outros grandes usuários".
Segundo o estudo, o resultado é uma estrutura financeira cada vez mais complexa e pouco transparente. Em particular, o autor observa que "a dívida com classificação de risco pública representa apenas uma parcela relativamente pequena do financiamento dos data centers; volumes muito maiores são fornecidos por meio de empréstimos bancários sindicalizados e operações de crédito privado, sobre os quais há pouca informação disponível publicamente".
Em resumo, "a questão central não é apenas que a infraestrutura de IA está exposta a riscos tecnológicos e operacionais, mas que a estrutura de financiamento do setor pode transmitir e amplificar esses riscos".
Esse comportamento tem precedentes históricos. Entre os riscos para os proprietários de data centers estão a concentração de inquilinos e de fontes de demanda final; a obsolescência tecnológica, que pode exigir o descarte e a substituição das instalações em pouco tempo; e as dificuldades políticas e operacionais para viabilizar os investimentos.
Além disso, van Nieuwerburgh acrescenta que "projetistas de chips, provedores de serviços de computação em nuvem, operadores de data centers e investidores em infraestrutura dependem cada vez mais uns dos outros por meio de contratos de longo prazo, investimentos estratégicos e acordos de financiamento". Isso cria fragilidade.
Esses problemas não se restringem ao setor de IA. O ciclo de investimentos é grande o suficiente para produzir efeitos expressivos sobre a economia. Um estudo do banco central dos EUA, o Fed (Federal Reserve), indicou que os gastos com equipamentos de informática, software e data centers contribuíram com mais de 1 ponto percentual para o crescimento anualizado do PIB americano na comparação trimestral no primeiro trimestre deste ano. Parte desse efeito foi compensada pelo aumento de meio ponto percentual do PIB nas importações líquidas dessas categorias.
O relatório Perspectivas da Economia Mundial, do FMI (Fundo Monetário Internacional), e uma publicação recente de Matt Klein na plataforma Substack ajudam a entender os efeitos internac ionais da expansão global da IA, especialmente sobre os produtos de Taiwan e da Coreia do Sul.
Uma questão fundamental, porém, é até que ponto a euforia com a IA contaminou o mercado de ações, sobretudo nos Estados Unidos. Algumas vulnerabilidades já são evidentes.
Primeiro, as chamadas Sete Magníficas —Alphabet, Amazon, Apple, Meta, Microsoft, Nvidia e Tesla— vinham, até recentemente, impulsionando cada vez mais para cima o mercado acionário americano.
Segundo, o mercado está em níveis de avaliação raramente vistos. O rendimento real dos lucros ajustado ciclicamente está em 2,5%, apenas ligeiramente acima da taxa de juros real atual. Isso só faria sentido se os lucros das empresas estivessem prestes a crescer muito mais rapidamente do que em qualquer outro momento.
No passado, porém, sempre que os lucros ficaram tão baixos em relação aos preços das ações, estes despencaram. Será que esse ciclo de expansão impulsionado pela IA, com todas as incertezas inevitáveis sobre a rentabilidade futura, o retorno dos investimentos enormes e crescentes e a engenharia financeira cada vez mais elaborada, será diferente?
Quanto mais tempo durar o ciclo de investimentos e a engenharia financeira associada a ele, maior tende a ser o impacto negativo sobre a economia quando essa fase terminar.
Isso não significa que a própria IA deixará de ser a tecnologia transformadora que parece ser. Mas somente uma espécie que adora brincar de roleta-russa toleraria uma empresa —a Anthropic— cujo prospecto afirma que ela pode criar "riscos catastróficos ou existenciais para a humanidade".
Novas tecnologias frequentemente provocaram euforias no mercado de ações e ciclos de investimentos que terminaram em crises. Os recentes tremores nos mercados sugerem que isso pode estar acontecendo agora com a IA. O retorno à realidade virá quando tiver de vir. É preciso estar preparado.
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