Eros, o asteroide gigante que pode se tornar ameaça no futuro
Com cerca de 34 km de comprimento, o asteroide Eros foi o primeiro objeto da categoria dos chamados NEOs a ser descoberto
Imagine uma rocha espacial gigantesca, que passa perto, mas a uma distância segura da Terra. Só que um dia, ela pode sofrer um desvio de sua trajetória e ser colocada em rota de colisão com nosso planeta. Um possível impacto com potencial para extinguir boa parte da vida por aqui. O que parece um roteiro de um filme de ficção é, na verdade, um futuro possível de Eros, o segundo asteroide da série sobre esses pequenos corpos que passam próximos ao nosso planeta. Mas se você é da “galerinha do apocalipse”, não precisa nem separar uma roupa para o fim do mundo, porque a possibilidade de Eros atingir a Terra é remotíssima e apenas em um futuro muito distante.
Com aproximadamente 34 quilômetros de comprimento, Eros foi o primeiro objeto da categoria dos chamados NEOs a ser descoberto. Os NEOs, ou Near-Earth Objects, são asteroides e cometas cujas órbitas passam relativamente próximas da órbita da Terra. Hoje conhecemos milhares deles, mas no final do século XIX nem sabíamos que eles existiam.
Essa descoberta aconteceu em 13 de agosto de 1898. Curiosamente, ela ocorreu quase simultaneamente em dois observatórios diferentes. O astrônomo alemão Carl Gustav Witt, trabalhando em Berlim, foi o primeiro a anunciar oficialmente a descoberta. Pouco depois, verificou-se que o astrônomo francês Auguste Charlois também havia registrado o objeto na mesma noite.
O novo corpo celeste recebeu o nome de Eros, o deus grego do amor e do desejo, filho de Ares e Afrodite. O nome masculino quebrou uma tradição de dar aos asteroides nomes de personagens mitológicos femininos, mas aquele também era um objeto diferente.
Enquanto a maioria dos asteroides se encontra no cinturão principal, entre Marte e Júpiter, Eros percorre uma órbita bastante alongada que o aproxima da Terra. Embora ele não cruze atualmente a órbita do nosso planeta, aproxima-se o suficiente para ser classificado como um asteroide próximo da Terra.
Essa proximidade, inclusive, permitiu uma medição precisa de sua paralaxe durante as aproximações de 1900 e 1931. A partir da paralaxe de Eros, a distância da Terra ao Sol foi calculada com uma precisão que só foi superada em 1968 com o desenvolvimento de novas tecnologias de medição astronômica.
Fisicamente, Eros também é um objeto fascinante. Sua forma alongada se assemelha a uma sela. Um objeto maciço com 7 trilhões de toneladas de massa, 34 km de comprimento e 11 de largura. Tão grande, que ocuparia toda a Baía de Guanabara, e mesmo deitado, ainda seria mais alto que o Everest.
As observações realizadas ao longo de mais de um século revelaram que Eros é um asteroide predominantemente rochoso, pertencente à classe espectral S. Isso significa que sua composição é rica em silicatos e minerais, além de metais como ferro e níquel. Estudos espectrométricos da superfície indicam que Eros tem uma composição mineralógica similar aos meteoritos condritos ordinários do tipo L ou LL. Isso não significa necessariamente que Eros seja a fonte direta desses meteoritos, mas reforça a ideia de que muitos deles podem ter se originado em asteroides semelhantes a ele.
As características únicas de Eros fizeram dele um alvo preferencial para a primeira missão espacial a orbitar um asteroide. Um feito alcançado pela sonda NEAR Shoemaker em fevereiro do ano 2000. O nome da missão homenageava Eugene Shoemaker, um dos maiores especialistas em impactos cósmicos e um dos pioneiros da ciência planetária moderna.
Durante quase um ano, a sonda estudou Eros em detalhes sem precedentes. Ela mapeou sua superfície, analisou sua composição química, mediu seu campo gravitacional e registrou mais de 160 mil imagens. Os cientistas descobriram uma paisagem coberta por crateras, blocos rochosos gigantescos e uma camada de regolito formada pela fragmentação contínua das rochas ao longo de milhões de anos.
A missão também produziu uma das maiores surpresas da exploração espacial. Em fevereiro de 2001, após concluir seus objetivos principais, a NASA decidiu tentar algo que originalmente não estava previsto: pousar a sonda na superfície do asteroide. Apesar de não ter sido projetada para isso, a NEAR Shoemaker realizou uma descida controlada e pousou com sucesso em Eros, tornando-se a primeira espaçonave a pousar suavemente sobre um asteroide.
As informações coletadas pela missão, além de apontar a possível relação entre asteroides do tipo S e alguns condritos encontrados na Terra, mostraram que esses pequenos corpos também podem ser mundos complexos, com geologia própria e uma história dinâmica de colisões e transformações.
Mas Eros ainda nos guardava uma surpresa em outro campo de pesquisa: a defesa planetária.
Atualmente, sua órbita não representa nenhum risco de colisão com a Terra. As previsões para os próximos milhares de anos mostram que não existe ameaça conhecida de impacto. No entanto, quando estudamos a evolução orbital em escalas de milhões de anos, a situação se torna mais interessante.
Apesar de ser um asteroide próximo, ele não cruza a órbita do nosso planeta. Mas ele cruza a órbita de Marte e isso significa que o Planeta Vermelho pode provocar pequenas alterações na sua trajetória a cada aproximação. Nada muito significativo a curto prazo, mas estudos da evolução orbital do asteroide mostram que, num futuro muito distante, Eros pode se tornar um Earth Crosser, ou seja, um objeto que cruza a órbita terrestre.
Isso não seria uma situação muito agradável, tendo em vista que Eros é cerca de 6 vezes maior do que o asteroide que provocou a extinção dos dinossauros. Felizmente, isso não ocorreria antes de, pelo menos, 2 milhões de anos – tempo suficiente para escolhermos uma boa roupa para o fim do mundo.
Asteroides são assim, objetos extremamente dinâmicos com órbitas que podem sofrer alterações significativas ao longo do tempo. Por isso, movimentos como o Asteroid Day procuram conscientizar o público sobre a importância de monitorar e estudar esses corpos, mesmo aqueles que não representem uma ameaça imediata.
O Universo já nos ensinou que a vida na Terra é uma dádiva extremamente rara e frágil. Por isso, se quisermos continuar explorando a imensidão do Cosmos, precisamos também voltar nossa atenção para esses pequenos corpos, que passam silenciosamente pela vizinhança. Porque um dia, um deles pode cruzar o nosso caminho, e é bom estarmos preparados para isso.