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Empresários retiram doações e pressionam ONGs após vitória de Lula

Intimidações públicas e negativas de investimento fazem parte de campanha bolsonarista que nasce na esteira de boicote a comerciantes

Empresários retiram doações e pressionam ONGs após vitória de Lula

Na segunda-feira (26), uma ONG que atende crianças com câncer em Sergipe recebeu a negativa de uma empresa de aço que estava disposta a apoiar a causa. No mesmo dia em que o país repercutia a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em uma reunião agendada muito antes do resultado das urnas, os captadores ouviram um não surpreendente: "Lula deveria estar ajudando essas organizações".

O caso foi revelado pelo GACC (Grupo de Apoio à Criança com Câncer) de Sergipe, em meio a uma série de intimidações e retirada de apoios a ONGs, incentivada por empresários bolsonaristas nas redes sociais.

Eles pregam a suspensão de ações solidárias —incluindo doação de cestas básicas, agasalhos e brinquedos, compras de rifas, trabalho voluntário e investimento social. Movimento que surgiu na esteira da dispensa de trabalhadores por motivação política e do boicote a "estabelecimentos petistas".

"Entendemos o recado em tons de ameaça", afirma Regimari Dias, gerente de captação de recursos do GACC Sergipe.

O recurso negociado seria para a construção da sede da entidade. "O empresário disse que o cenário agora não favorecia e nos aconselhou a 'dar um tempo até a poeira baixar'."

E essa tem sido a estratégia da ONG que não se posicionou publicamente a favor de nenhum candidato durante a campanha política.

Outra organização de Manaus (AM), que atua com crianças e famílias em abrigos, perdeu dois parceiros nesta semana.

"Uma empresa perguntou em quem tínhamos votado e outra disse que não apoiaria mais porque o governo que deveria resolver nossos problemas", diz Cleslley Rodrigues, diretor-executivo da Nacer e líder estadual do Dia de Doar.

A ONG Turma do Bem, que oferece atendimento odontológico gratuito, perdeu 5 voluntários nesta semana, sendo 2 deles declaradamente bolsonaristas.

"Somos 19 mil dentistas voluntários que têm todo o tipo de olhar político", afirma o fundador e presidente da Turma do Bem, Fábio Bibancos.

Na reta final das eleições, Bibancos gravou um vídeo em defesa da "dignidade humana e da democracia" que alcançou 124 mil visualizações no Instagram.

"O voluntariado é um exercício de cidadania que independe de vontade política. Se a pessoa não quer mais ajudar porque o seu candidato perdeu a eleição, essa pessoa está no lugar errado", acrescenta o dentista paulistano.

A Ação da Cidadania, que há 30 anos enfrenta a fome no país, relatou intimidações nos anúncios que a ONG veicula na internet, com comentários como "vai pedir para o pai dos pobres" ou "pede para o Nordeste pagar".

Em outro flanco, uma organização parceira da entidade no Sul do país diz ter recebido ligação de uma empresa pedindo ressarcimento de valores doados desde 2025.

"Se você luta contra a fome você é chamado de comunista", diz Rodrigo Kiko Afonso, diretor-executivo da Ação da Cidadania.

Segundo o sociólogo, esse boicote representa o recrudescimento de algo que já vinha acontecendo desde que Donald Trump voltou ao governo nos Estados Unidos, em campanha contra iniciativas de diversidade e inclusão, por exemplo.

"Empresas usam esse discurso como desculpa para ser mais autoritárias e diminuir doações, que vão cada vez menos para direitos básicos", diz Afonso, que acrescenta que ações sociais são complementares ao trabalho do governo. "Não somos governo, mas somamos nas políticas públicas, que não alcançam todo mundo."

Dona de uma plataforma que conecta empresas que doam por meio de verba direta ou leis de incentivo com organizações sociais, a Simbi diz não ter encontrado evidências significativas de diminuição na destinação de recursos nesta semana.

Pelo menos R$ 1 bilhão já foi gerido pela startup, que conta com mais de 40 multinacionais em seu portfólio.

"Em dez anos de Simbi, já passamos por vários períodos eleitorais, e eles sempre trazem dúvidas sobre impactos no setor", diz Raphael Mayer, cofundador da Simbi. "Não percebemos nenhuma movimentação de empresas deixando de investir em projetos sociais, e os clientes seguem com o planejamento que estava previsto."

Como maneira de minimizar a intensidade do boicote e preparar terreno para o Dia de Doar, que acontece em 1º de dezembro, o Movimento Por uma Cultura de Doação preparou uma "carta pela solidariedade".

"Em um país de tantas vozes, experiências e opiniões, a solidariedade nos aproxima. Mesmo com diferenças políticas, religiosas e culturais, podemos compartilhar o desejo de construir uma sociedade com mais cuidado, dignidade e oportunidades. A doação é a voz da sociedade civil, independente do poder público", diz a carta, que será divulgada publicamente nesta sexta-feira (30).

Fonte original Publicado originalmente por Folha de S. Paulo
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