Em derrota para Trump, 'onda azul' surpreende nas eleições dos EUA
Resultado das eleições de meio de mandato representa revés para o presidente americano
Depois de meses de pesquisas que apontavam um cenário desfavorável ao presidente Donald Trump, os americanos foram às urnas nesta terça-feira (3) para renovar o Congresso dos Estados Unidos e definir o equilíbrio de forças em Washington nos dois últimos anos do segundo mandato do republicano.
As pesquisas apontavam para uma Câmara dos Representantes quase garantida para os democratas —feito confirmado pela projeção da CNN ainda na noite desta terça-feira. As pesquisas para o Senado também apontavam tendência de conquista da oposição, mas com disputas mais acirradas.
O resultado surpreendeu até os democratas mais otimistas. Até 0h desta quarta-feira (4), no horário de Brasília, a oposição a Trump garantia a maioria das cadeiras do Senado.
Um dos resultados mais aguardados era o do Texas, onde o democrata James Talarico derrotou o republicano Ken Paxton, aliado de Donald Trump, na disputa por uma vaga no Senado, em uma das maiores surpresas da noite eleitoral.
Outras estados conquistados foram a Carolina do Norte, uma virada já esperada segundo as pesquisas, e Carolina do Sul, uma grande supresa.
O estado, que não elege um democrata para o Senado desde 1998, teve uma eleição mais competitiva do que o esperado entre a democrata Annie Andrews e a republicana Darline Graham. Na véspera da votação, o Cook Political Report classificava a disputa como favorável aos republicanos, mas não como uma vitória garantida, em um sinal de que a oposição ganhava espaço mesmo em territórios tradicionalmente conservadores.
Outra grande novidade da noite ficou com Kansas, estado que não elegia um senador democrata há 94 anos. Lá, Adam Hamilton, democrata e pastor metodista, que disputou a cadeira do Senado pelo Kansas contra o republicano Roger Marshall. A disputa era uma das principais corridas sem favoritos claros.
Em Ohio, estado vencido por Trump nas últimas três eleições presidenciais, o democrata Sherrod Brown conseguiu retornar ao Senado, dois anos depois de perder a tentativa de reeleição. Ele derrotou o republicano Jon Husted, nomeado para ocupar a cadeira deixada por JD Vance, atual vice-presidente americano. A disputa foi uma das mais caras do país, com mais de US$ 400 milhões em gastos eleitorais.
Em Iowa, outro estado que se consolidou como reduto republicano, o democrata Josh Turek, deputado estadual e medalhista paralímpico, enfrentou a republicana Ashley Hinson pela vaga deixada por Joni Ernst. O estado não elege um democrata para o Senado desde 2008, e a disputa chegou à eleição sem favorito claro, segundo o Cook Political Report.
A expectativa de uma onda democrata marcou a reta final da campanha. A oposição buscava transformar a insatisfação com o custo de vida, a economia e as políticas do presidente em uma vitória eleitoral capaz de reduzir o poder de Trump no Legislativo.
A Flórida, que se consolidou como um dos principais redutos republicanos dos Estados Unidos, também chamou a atenção durante a apuração. Trump venceu no estado por mais de 13 pontos percentuais em 2024, e os republicanos ocupavam 20 das 28 cadeiras da Flórida na Câmara dos Representantes antes das eleições.
Em maio deste ano, o governador republicano Ron DeSantis sancionou um novo mapa eleitoral que ampliou de 20 para 24 o número de distritos vencidos por Trump na eleição presidencial de 2024, em uma tentativa de favorecer seu partido na disputa pelo Congresso.
Apesar da mudança, a democrata Kathy Castor conseguiu se reeleger no 14º distrito, na região de Tampa, que havia sido redesenhado para favorecer os republicanos. O novo mapa transformou uma cadeira antes considerada segura para os democratas em uma disputa competitiva, em um território onde Trump teria recebido 54% dos votos em 2024.
Os republicanos venciam a maioria da bancada do estado na Câmara e venceram a disputa pelo Senado, mas por margens apertadas em algumas das disputas, em contraste com a vitória de Trump por mais de dois dígitos no estado em 2024.
As eleições de meio de mandato, conhecidas como midterms, costumam ser desfavoráveis ao partido que ocupa a Casa Branca.
Embora não estivesse na cédula, Trump transformou a disputa em um teste de sua popularidade, pedindo durante comícios que os eleitores votassem como se seu nome estivesse nas urnas. O apelo ocorreu em meio à queda de sua aprovação e às tentativas de alguns candidatos republicanos de se distanciar do presidente.
Com a vitória democrata mais clara, o presidente fez comentários em sua rede social. "Se eu estivesse [nas cédulas de votação], nós teríamos ganhado de lavada!", escreveu.
Os americanos votaram para renovar as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 das 100 vagas do Senado, ambas controladas pelos republicanos antes da eleição. Os democratas precisavam conquistar três cadeiras adicionais para retomar a Câmara e quatro para obter a maioria no Senado.
Uma vitória democrata na Câmara deve abrir caminho para investigações sobre o governo e ampliaria a fiscalização da Casa Branca. Mesmo com o controle das duas Casas, porém, a oposição enfrentaria o poder de veto de Trump, que só pode ser derrubado por dois terços dos votos em cada uma delas.
O resultado também servirá de termômetro para a eleição presidencial de 2028. Além do Congresso, os americanos escolheram governadores em 36 estados. Até o início da madrugada, os democratas haviam vencido 15 dessas disputas, e os republicanos, dez.
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