Eleição na Virgínia expõe disputa acirrada e divide eleitores sobre Trump
Democratas apostam no Congresso para conter avanços do presidente; republicanos temem oposição como maioria
Na entrada de uma escola em Hanover, no estado da Virgínia, placas com os nomes do republicano Rob Wittman e da democrata Shannon Taylor anunciavam uma das disputas acirradas por uma vaga na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos.
Em postos montados pelos dois partidos, apoiadores conversavam com eleitores que chegavam para votar nesta terça-feira (3) nas eleições de meio de mandato.
A cena se desenrolava em uma região tradicionalmente conservadora, onde Wittman tenta manter a cadeira que ocupa desde 2007. Há dois anos, o republicano foi reeleito com uma vantagem de quase 13 pontos percentuais, mas agora enfrenta uma disputa considerada equilibrada por analistas eleitorais.
Para os eleitores ouvidos pela Folha na região, a eleição expôs preocupações com o custo de vida, o aborto e os rumos do governo Donald Trump. Enquanto republicanos temem que uma vitória democrata no Congresso bloqueie as políticas do presidente, eleitores da oposição esperam justamente impor limites ao republicano.
Uma eleitora republicana que pediu para não ser identificada reconheceu que o custo de vida está elevado, mas afirmou temer que uma maioria democrata agrave a situação econômica, com aumento de impostos. Para ela, porém, o principal tema da eleição é o aborto. "A questão mais importante é proteger os que ainda não nasceram. Porque, se não conseguimos proteger vidas inocentes, o que mais vamos conseguir fazer?", questionou.
O tema também mobilizava duas apoiadoras republicanas que conversavam com eleitores na porta da escola. Elas criticaram propostas relacionadas ao aborto e aos direitos das pessoas trans, especialmente a participação de mulheres trans em competições esportivas.
As duas defenderam o governo Trump, apesar das ressalvas à maneira como o presidente se comunica. "Não gosto da maneira como ele fala. Acho que é grosseiro e excessivamente agressivo em alguns momentos. A razão pela qual apoio Trump é a eficácia de suas políticas", afirmou Ellen, que pediu para não ter o sobrenome nem a idade revelados.
As republicanas também rejeitaram a avaliação de que o presidente tenha piorado a situação econômica do país. Para elas, os democratas atribuem a Trump problemas que já existiam e ignoram os efeitos positivos de suas medidas.
Questionadas sobre o que aconteceria se os democratas conquistassem a maioria no Congresso, ekas afirmaram temer que a oposição bloqueie as políticas do presidente e concentre esforços em investigações contra ele.
"Meu maior medo é que revertam tudo o que foi feito nos últimos dois anos, que paralisem o progresso alcançado e concentrem toda a atenção em ações judiciais contra Trump", disse Lisa, 79, que também preferiu não divulgar o sobrenome.
Do outro lado da disputa, uma voluntária democrata que pediu anonimato criticou a influência de Trump sobre integrantes do Partido Republicano e afirmou temer a concentração de poder nas mãos do presidente.
Embora tenha feito duras críticas ao republicano, ela disse esperar que uma eventual vitória democrata não seja usada para buscar vingança política. Para ela, o país precisa encontrar uma forma de seguir em espírito de cooperação, com prioridade para o fortalecimento das regras de ética no Judiciário.
Mesmo em uma região conservadora, a oposição ao presidente também aparece entre eleitores que mudaram de posição política nos últimos anos. Jennifer Bowles, 44, contou que passou de opiniões mais conservadoras para posições progressistas por volta de 2020, sobretudo em razão da atuação do governo Trump durante seu primeiro mandato.
Entre suas preocupações estão a imigração, o direito ao aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Ela diz esperar que uma maioria democrata no Congresso consiga equilibrar o poder do presidente, embora reconheça que Hanover continua sendo um reduto republicano. "Talvez mais pessoas sintam que precisam votar agora para tentar mudar o Congresso. Se os democratas conquistarem a maioria, talvez isso ajude a equilibrar o governo", afirmou.
A cerca de 40 quilômetros dali, em Richmond, capital da Virgínia, o cenário eleitoral é diferente. A cidade, que integra o quarto distrito congressional, é um reduto democrata e deu ampla vantagem a Kamala Harris na disputa presidencial de 2024.
Entre os eleitores ouvidos pela Folha na cidade predominaram críticas ao custo de vida e à atuação de Trump, especialmente em relação às promessas econômicas feitas durante a campanha presidencial.
O funcionário público Sam Jasinski, 30, afirmou que os preços continuam elevados e que as medidas adotadas pelo governo contribuíram para agravar o problema. "Não acho que tenha havido nenhuma melhora no custo de vida. Objetivamente, as coisas estão menos acessíveis agora do que em 2024."
Jasinski disse não ter sido tão afetado pessoalmente quanto outras pessoas que conhece, mas afirmou que a situação contrasta com o discurso adotado por Trump. "Fazer campanha prometendo melhorar o poder de compra e depois tomar medidas que parecem ir justamente na direção contrária é vergonhoso", disse.
A preocupação se repetiu entre outros eleitores da cidade. Ash, 23, que pediu para não ter o sobrenome revelado, relatou a dificuldade de acompanhar os preços dos alimentos, especialmente da carne, diante de salários que, segundo ela, não acompanham os aumentos. "Os preços continuam subindo, mas os salários não. É difícil ir ao supermercado e encontrar algo que você costuma comprar já mais caro do que da última vez", afirmou.
Ela também criticou as demissões de funcionários federais promovidas pelo governo e a participação americana em conflitos militares, lembrando que Trump prometeu evitar novas guerras.
Embora tenha votado nos democratas, a eleitora afirmou não concordar com todas as decisões do partido. Sua principal expectativa é que uma eventual maioria democrata no Congresso obrigue o governo a negociar suas propostas. "Espero que meu voto contribua para impedir isso e para que haja mais discussões e soluções equilibradas, em vez de simplesmente aprovar o que se quer", disse.
Ashley W., 27, que trabalha nas escolas públicas de Richmond e na Universidade Virginia Commonwealth também expressou insatisfação com o governo. Ela citou a imigração, a guerra e o custo de vida entre suas principais preocupações. "Ele diz que quer fazer melhor, mas, se alguma coisa mudou, foi para pior", afirmou sobre Trump.
Na avaliação dela, o presidente está mais preocupado em beneficiar a si próprio e as pessoas próximas do que a população americana.
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