Economia, STF, Congresso e ruas: conheça os desafios do próximo presidente
Seja Flávio Bolsonaro ou Lula, ocupante do Planalto a partir de 2027 enfrentará uma miríade de problemas
Seja Flávio Bolsonaro (PL) ou Lula (PT) o vencedor neste domingo (25), o próximo presidente terá à sua espera uma coleção de problemas ao subir a rampa do Palácio do Planalto no dia 5 de janeiro de 2027. Alguns deles são comuns, outros distintos em termos de impacto potencial.
A seguir, uma compilação nada exaustiva dos principais itens do começo do mandato do 44º mandatário máximo do Executivo brasileiro.
ECONOMIA
A economia é o grande denominador comum em termos de desafio. A curva da dívida pública, que chegou ao recorde de 83% do PIB em agosto, tende a ser agravada com os quase R$ 300 bilhões em bondades eleitorais aprovadas por Lula para 2026 e 2027.
Boletins do Ministério do Planejamento alertam há meses para o risco de um "shutdown" de serviços governamentais.
Aqui, a história pregressa coloca o atual presidente numa situação complicada em caso de reeleição, já que ele prometeu manter o expansionismo fiscal. Como corrigir o problema sem enfrentar acusação de estelionato é uma incógnita.
Do lado de Flávio, o suposto pendor liberal dos Bolsonaros não resistiu no governo do pai e, nesta jornada até o segundo turno, ele prometeu medidas econômicas igualmente sem dizer de onde tiraria o dinheiro.
O senador ainda promete reviver um programa tributário ruinoso, o Perse, que facilitou a vida de lavadores de capital do PCC e outros grupos. Logo, uma eventual acusação de estelionato, em especial se sua propalada reforma de R$ 200 bilhões existir e cortar a área social, está no horizonte.
CONGRESSO
A composição do novo Congresso gera uma ilusão de controle absoluto em caso de vitória de Flávio, algo que ele explorou em sua propaganda.
Por evidente, Lula irá sofrer mais se for reeleito. A esquerda seguirá minoritária, com 124 deputados eleitos num universo de 513 em que 257 formam maioria simples e 308, qualificada para mudar a Constituição.
A solução estará na fórmula do terceiro mandato, a manutenção de uma aliança com o centrão e partidos de centro como MDB e PSD, com postos no ministério. Nem isso evitou a debacle a partir da votação do IOF de 2025, quando mais de 70% desses aliados foram contra o governo, mas garante um começo.
Naturalmente, o mesmo vale para Flávio, que só com a bancada líder de 121 deputados do PL não fará verão, ainda mais com as anunciadas vontades de alterar a Carta. No Senado, a situação é mais confortável, com as 28 de 81 cadeiras nas mãos de seu partido, mas nem por isso o centrão e o centro serão dispensáveis.
EMENDAS
Se o centrão será, como sempre, o fiel da balança, tudo na vida tem um preço. No caso, a manutenção dos R$ 61 bilhões em emendas parlamentares neste ano, algo visto universalmente como um desvio da noção de prioridades de governos eleitos.
A despeito do discurso agressivo, Lula só tentou arranhar o acerto por meio da campanha do seu ex-ministro Flávio Dino, ora no Supremo, contra a prática. Não terá bala para agir sozinho.
Flávio conta com o que vê como um Congresso ideológico, mas isso dura até a primeira divergência sobre onde colocar um ginásio de esporte. Em privado, defende as emendas.
SUPREMO
Após permear toda a campanha eleitoral, a crise no Supremo Tribunal Federal promete deixar um legado complicado para qualquer um dos vencedores.
Triunfando Flávio, o embate estará contratado quando o filho de Jair Bolsonaro indultar o pai, condenado por tentativa de golpe. A jurisprudência da corte é clara, vetando isso, então bruxarias como a soltura do ex-presidente durante a revisão criminal de seu caso já estão na ordem do dia.
Há também a guerra interna do tribunal. Sendo Flávio presidente, saem fortalecidos André Mendonça, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux.
Mas eles ainda são minoritários, e a ala associada ao lulismo ou à neutralidade poderá tanto escalar ainda mais a disputa quanto buscar alguma acomodação, a depender da sanha bolsonarista que exige ao menos a cabeça de Alexandre de Moraes em um impeachment via Senado.
Na via contrária, um Lula reeleito poderá tentar comandar uma acomodação maior, mas terá dificuldades para reeditar a parceria com o Supremo em oposição ao Legislativo hostil que marcou seu mandato até descobrirem que Moraes e outros tinham relações inconvenientes com Daniel Vorcaro.
MASTER E INVESTIGAÇÕES
O ex-dono do Banco Master seguirá como um espinho na vida de muito político, mas aqui o dano maior é sobre Flávio, dadas suas relações próximas com Vorcaro e as investigações sobre o tema.
Além do caso "Dark Horse" e correlatos na seara Master, o senador com longa ficha de suspeitas na área ética ainda viu emergir sua relação com o advogado Willer Tomaz numa apuração sobre lavagem bilionária de dinheiro com as famigeradas bets. Em caso de vitória, processos criminais são paralisados, mas não necessariamente investigações.
Se Lula prevalecer, a sua dor de cabeça maior no campo hoje é o caso Lulinha, que atinge a Presidência por meio de seu ex-chefe de gabinete. O grau de disputa interna na Polícia Federal será fator central para definir o impacto potencial para o petista num quarto mandato.
AS RUAS
Por fim, a extrema polarização desse pleito, com os candidatos chegando nariz a nariz no dia do segundo turno, sugere uma mobilização posterior. O histórico de 2022, quando a derrota de Bolsonaro pai para Lula levou aos acampamentos em quartéis que desaguaram no 8 de Janeiro, é autoexplicativo.
Empoderada pela boa votação legislativa e tendo quase conquistado a Presidência, a base bolsonarista poderá manter algum grau de mobilização como visto nos "bloquinhos do Nikolas".
Do outro lado, se não há golpismo a apontar até aqui, as massas à esquerda coordenadas por uma eficaz campanha digital no segundo turno do PT podem seguir com espírito combativo que não demonstravam desde que foram solapadas pelos atos de 2013 em caso de derrota de Lula.
De um modo ou de outro, o futuro presidente talvez tenha de lidar com uma oposição mais vocal da parte dos eleitores.
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