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É preciso recuperar virtudes liberais para revitalizar a democracia

Caso Master revela riscos de captura fatal das instituições brasileiras pela máfia

14/06/2026 09:00 Mano Ferreira Folha de S. Paulo 0 visualizações há 4 horas
É preciso recuperar virtudes liberais para revitalizar a democracia

Os celulares de Daniel Vorcaro guardam um país. No pouco que já veio a público, conhecemos relações nada republicanas com os três Poderes, governo e oposição. Numa camada mais sombria, conexões com milícia, jogo do bicho, matadores de aluguel e fundos de investimento conectados ao PCC. A velha doença do patrimonialismo encontrou a infiltração do crime organizado na economia formal e no setor público. Radiografia de um patrimonialismo mafioso.

O presidente da República recebeu um gângster no Palácio do Planalto, fora da agenda oficial, por intermédio de um ex-ministro. Pelo que sabemos, seu principal opositor foi ainda mais longe: cobrou dinheiro do mafioso. E recebeu. Não satisfeito, após ser flagrado na mentira, defendeu a negociata: "Não tenho que justificar nada a ninguém", disse o príncipe herdeiro do bolsonarismo.

Como se vê, o fenômeno já orbita os centros de poder da República. Negligenciá-lo pode levar à captura fatal da democracia brasileira pela máfia.

Some ao quadro nacional uma recessão democrática global: hoje, 74% da população mundial vive sob autocracias, um retorno ao nível médio de 1978, segundo o relatório V-DEM. Cresce o sentimento de que o Estado de Direito foi convertido em ornamento hipócrita do poder real. Emergem, como tentações, niilismo e desesperança. Tentar articular respostas fora do desprezo, da ruptura ou da reprodução dos vícios do sistema soa ingenuidade. Ceder a essas tendências, porém, é cavar mais fundo o buraco em que estamos.

Uma leitura me ajudou a reacender esperanças: "A História Perdida do Liberalismo", de Helena Rosenblatt, traça uma genealogia etimológica que contraria suposições do senso comum. Longe de ser apenas uma doutrina do livre mercado, o liberalismo nasceu como ética de convivência e responsabilidade. Da compreensão de que há um conjunto de virtudes necessárias para a liberdade florescer em sociedades complexas: a busca pelo bem comum, a generosidade na apreciação da divergência, a disposição de aprender com o outro, o desapego ao próprio erro.

Segundo a historiadora, a origem da palavra liberal remete à Roma Antiga, como adjetivo que indica, justamente, generosidade e abertura de espírito. A migração para o léxico político ocorre de modo orgânico, buscando traduzir condutas liberais para a vida pública. A primeira aparição de liberal como substantivo político foi encontrada num artigo abolicionista de 1780. E a consolidação do uso da palavra como objeto de disputa ocorre na reflexão sobre os descaminhos da Revolução Francesa.

Rosenblatt nos oferece uma hipótese incômoda. Apesar de permeada por transformações socioeconômicas e outras influências, a crise da democracia pode ser produto do esvaziamento do liberalismo de seus fundamentos originais. Com esse enquadramento, a barbárie jacobina chocou os liberais clássicos: como valores tão nobres, de liberdade, igualdade e fraternidade, abraçados com entusiasmo, puderam conduzir a sociedade a um regime de terror?

Dessa reflexão, iniciada pelo reconhecimento de um fracasso, emerge a palavra liberalismo. Primeiro como rótulo pejorativo, criado por tradicionalistas, para indicar uma suposta patologia social. E logo apropriado positivamente por pensadores que, mesmo diante da ruína da revolução, mantinham o otimismo reformista: aprendendo com aqueles acontecimentos, a humanidade seria capaz de caminhar para um ambiente de maior liberdade. E não é que fomos?

A resposta superou o padrão de valores do Antigo Regime, afirmando a necessidade de impor limites à própria convicção e abraçar a complexidade. Ergueu-se, assim, o sofisticado desenho institucional de pesos e contrapesos, o império da lei em substituição ao império dos homens, amparado por princípios como a igualdade jurídica. A expansão do direito ao voto veio acompanhada por instituições contramajoritárias, com o Judiciário como freio às tentações tirânicas da maioria. E, ao mesmo tempo, o impulso democrático levou à universalização de serviços essenciais para a dignidade.

A tarefa diante de nós parece conter essa ordem de grandeza. Recolhendo os fracassos do nosso tempo, como podemos reinventar o liberalismo e a democracia? Uma missão coletiva, orgânica e aberta, provisória e precária, da qual nenhuma resposta monopolista será capaz de dar conta. Mas uma condição de possibilidade para a sua construção é uma ambiência cultural mínima de abertura, que viabilize uma cooperação concorrencial com honestidade intelectual.

Voltando ao Brasil de hoje, tudo parece fora de lugar. Poderes desviam de suas funções. Autoridades operam o Estado em benefício próprio, negligenciando problemas comuns. É verdade que nunca fomos muito afeitos à igualdade jurídica, ainda menos à universalização da dignidade. Séculos de cultura escravagista não se superam facilmente. Mas a atual captura patrimonialista na alta cúpula do poder remete às feições do Antigo Regime.

E nesse contexto, como os principais grupos políticos reagem à exposição pública do mecanismo mafioso do Master? Tentando empurrar o problema para o outro. A culpa é sempre do adversário. Do nosso lado, apenas mal entendidos e exageros. A polarização virou um exercício cotidiano de narcisismo. Amplificado pelos algoritmos, que reforçam a identidade grupal e silenciam o diferente. Uma câmara de eco que nos afasta da disposição democrática. Como resolver o problema? É preciso enfrentar a pergunta.

O liberalismo clássico tinha uma obsessão com o tema do aperfeiçoamento humano, um compromisso ético com o desenvolvimento contínuo de nossas potencialidades. A proliferação do mercado de coaches e autoajuda talvez sinalize essa demanda. O problema é que a educação, nesse sentido mais profundo, não se confunde com fórmulas prontas nem converte os sujeitos em seguidores de mestres e mitos. Ela exige um cultivo da interioridade, que os liberais clássicos chamavam de "Bildung".

Há, contudo, um problema anterior: a nossa elite cultural, que deveria liderar o cultivo dessas virtudes, parece mais preocupada em preservar o próprio status. Por ausência de etiqueta ou diversidade de valores, ridiculariza ou instrumentaliza demandas legítimas de grupos subalternizados, ampliando ressentimentos.

Pense na velocidade com que certos liberais aderem à demonização de demandas sociais, como linhas auxiliares do reacionarismo em busca de popularidade fácil. Ou na pintura dos evangélicos como um monolito atrasado, apagando o enorme pluralismo protestante —que, aliás, desempenhou papel central na história do liberalismo.

No fundo, persiste a antiga crença de que a massa iletrada não está pronta para a liberdade. De que é preciso tutelar o povo antes de emancipá-lo. Um traço da história liberal, hoje reproduzido na esquerda, na direita, no jornalismo e na academia, em mistura de espanto e condescendência. O vício do elitismo.

Num tempo de bolhas identitárias e polarizadas, reafirmadas por certezas estridentes, talvez o gesto mais subversivo e agregador para um movimento de abertura cultural seja o reconhecimento da própria vulnerabilidade, o compartilhamento da dúvida em voz baixa, a capacidade de rir de si.

Sempre há o risco da espetacularização do sofrimento, transformado em capital social, que joga toda a responsabilidade para as circunstâncias. É possível, no entanto, formular uma vulnerabilidade protagonista, pela disposição honesta de assumir falhas, respostas precárias e contradições.

A fragilidade humana é nosso único território verdadeiramente comum. Reconhecê-la em nós mesmos é o primeiro movimento para enxergar o outro como alguém que merece ser compreendido antes de corrigido. Especialmente quando mais profundamente discordamos. Essa responsabilidade é compartilhada. Mas se os liberais não aplicarem a si mesmos esse compromisso, não estaremos à altura do nome. Vamos merecer a democracia?

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