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Documentário sobre Piketty tropeça em apontar saídas para concentração de riqueza

Filme explica por que o capitalismo produz desigualdade, mas não por que eleitores fazem escolhas imprevistas

Documentário sobre Piketty tropeça em apontar saídas para concentração de riqueza

Quem imaginaria que um livro de quase 700 páginas sobre economia pudesse virar um documentário interessante? E mais: que continuasse tão atual mais de dez anos depois de publicado? É exatamente essa a surpresa de "O Capital no Século 21", dirigido por Justin Pemberton e inspirado no best-seller do economista francês Thomas Piketty.

Agora, a obra está disponível no Prime Video.

A boa notícia é que ninguém precisa entender de economia para acompanhar o filme. Em vez de despejar gráficos e fórmulas, ele conta uma história: a de como a riqueza foi se concentrando nas mãos de cada vez menos pessoas. Para isso, mistura entrevistas, imagens de arquivo, trechos de filmes, propagandas e cenas da cultura pop. O resultado é leve, mesmo tratando de um assunto pesado.

Uma das passagens mais interessantes explica uma ideia que marcou os anos 1980. Os governos de Ronald Reagan, nos Estados Unidos, e Margaret Thatcher, no Reino Unido, defendiam que reduzir os impostos dos mais ricos faria toda a economia crescer.

A lógica parecia simples: empresários investiriam mais, criariam empregos e todos sairiam ganhando. O documentário mostra que a história acabou sendo diferente. Os ricos ficaram ainda mais ricos, mas essa riqueza não "escorreu" para o restante da população como muitos imaginavam.

É aí que entra a principal ideia de Piketty. Quando quem já tem patrimônio consegue multiplicar sua riqueza mais rapidamente do que a economia cresce, a distância entre ricos e pobres aumenta. Quem vive de investimentos tende a enriquecer muito mais depressa do que quem vive apenas do salário.

Mais de dez anos depois da publicação do livro, essa discussão continua atual. A pandemia aumentou desigualdades, a inflação pesou sobre milhões de famílias e as grandes empresas de tecnologia passaram a concentrar ainda mais dinheiro, dados e influência.

Até aqui, o documentário convence. A dúvida aparece quando ele tenta apontar saídas.

O filme parece partir da ideia de que, diante de tanta desigualdade, as pessoas passariam naturalmente a defender mais impostos sobre os super-ricos e uma distribuição mais equilibrada da riqueza. Mas foi isso mesmo que aconteceu?

Em muitos países, o aumento da desigualdade pós-pandemia produziu frustração, medo e sensação de perda de oportunidades. Só que esse descontentamento nem sempre se transformou em apoio a políticas de redistribuição.

Em vários lugares, fortaleceu partidos conservadores, nacionalistas ou liberais, que canalizaram a insatisfação para outros temas, como imigração, segurança, burocracia ou desconfiança da política tradicional. Justamente os temas sobre o capitalismo que se fazem presente nos dias de hoje.

Talvez esteja aí a principal pergunta que o documentário deixa sem responder. Ele explica muito bem por que o capitalismo produz desigualdade. Explica menos por que essa desigualdade levou tantos eleitores a fazer escolhas políticas diferentes daquelas que muitos economistas esperavam.

Mesmo assim, vale muito a pena assistir. Porque, no fim das contas, "O Capital no Século 21" nos lembra que economia não trata apenas de dinheiro. Trata de poder, de oportunidades e do tipo de sociedade que queremos construir. E essa continua sendo uma das discussões mais importantes do nosso tempo.

Fonte original Publicado originalmente por Folha Mundo
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