Desafio dos rankings universitários é ampliar o conceito de excelência
Indicadores de qualidade precisam incorporar inclusão, diversidade, sustentabilidade e transformação social Mais do que classificar instituições, rankings podem contribuir para o aperfeiçoamento da gestão universitária
Lançado em 2003, o Ranking de Xangai inaugurou uma nova etapa na comparação internacional de universidades. Philip Altbach, professor emérito do Boston College (EUA) e especialista em educação superior, reconhecia as limitações dessas classificações, mas advertia que os rankings acadêmicos vieram para ficar. Desde então, multiplicaram-se os usos de rankings e ratings.
No Brasil, destacam-se duas iniciativas de avaliação externa não governamental. O Ranking Universitário Folha (RUF), criado em 2012, classifica universidades em cinco dimensões: pesquisa científica, ensino, mercado de trabalho, internacionalização e inovação. Já o Guia da Faculdade, rating desenvolvido desde 2019 pelo Estadão em parceria com a Quero Educação, avalia cursos superiores considerando projeto pedagógico, corpo docente e infraestrutura. Enquanto rankings ordenam instituições ou cursos por desempenho, ratings os agrupam em categorias de qualidade.
Apesar das críticas acadêmicas, os rankings integram progressivamente o planejamento e a gestão de universidades públicas e privadas.
A literatura científica aponta sete usos dos rankings universitários: governança e avaliação institucional; comparação de desempenho e aprendizagem organizacional; valorização das universidades e defesa da ciência; soberania científica; análise da geopolítica do conhecimento; internacionalização e alianças estratégicas; e transparência para orientar decisões educacionais.
Para teóricos do campo da avaliação educacional, como Heraldo Vianna e Daniel Stufflebeam, avaliar deve fundamentar decisões e promover melhorias. Os rankings podem identificar fragilidades, revelar boas práticas e contribuir para o aperfeiçoamento da gestão universitária. Avaliar para melhorar, não apenas classificar.
Em um sistema educacional marcado pela expansão e mercantilização, os rankings também oferecem informações comparativas a estudantes, famílias e gestores. Ajudam a "separar o trigo do joio" em um mercado no qual convivem instituições de excelência, ofertas precárias e verdadeiras fábricas de diplomas.
A expansão dos usos dos rankings acompanha uma mudança mais profunda: a excelência universitária tende a ser cada vez mais examinada não apenas pelo desempenho acadêmico, mas também por suas contribuições sociais. Que qualidade esses instrumentos devem reconhecer e medir?
Os indicadores de ensino, pesquisa, internacionalização e inovação não expressam toda a missão universitária. Iniciativas internacionais, como os rankings UI GreenMetric e o THE Impact Rankings, voltadas à sustentabilidade e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, já incorporam outras dimensões.
É preciso avançar na avaliação da diversidade, da inclusão, da equidade racial e de gênero e da participação de mulheres, pessoas negras, indígenas e trans na universidade e na ciência. Sustentabilidade não se resume à educação ambiental: envolve responsabilidade social, condições de trabalho, governança e compromisso territorial. Para rankings e ratings, como o RUF e o Guia da Faculdade, o desafio é incorporar essas dimensões respeitando suas distintas metodologias.
A excelência universitária do século 21 exige articular produção de conhecimento, formação profissional e transformação social. Contabilizar publicações, patentes ou projetos de extensão não basta. É necessário avaliar suas contribuições efetivas. O mesmo vale para diversidade e sustentabilidade: uma universidade não pode ensinar esses princípios sem incorporá-los às próprias práticas. A coerência entre o que ensina, pratica e entrega à sociedade também deve ser considerada na avaliação da qualidade.
O Brasil precisa de universidades capazes de produzir ciência de excelência, formar profissionais qualificados e promover transformações sociais. Precisa também de governos que financiem a ciência, valorizem as universidades e garantam a produção, a confiabilidade e o acesso público aos dados educacionais oficiais, essenciais à avaliação independente e ao controle social das políticas educacionais.
Afinal, não basta saber quem ocupa o primeiro lugar. É preciso discutir que excelência queremos reconhecer, medir e promover e assegurar à sociedade as evidências para acompanhar seus resultados.
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