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Debates políticos têm eficácia duvidosa numa era de atenção difusa

É pedir demais que um debate presidencial ofereça ideias claras sobre como melhorar a nossa vida?

Debates políticos têm eficácia duvidosa numa era de atenção difusa

Debater ou não debater? Aponte um político apresentando argumentos para não comparecer a um debate e, na maioria dos casos, vai expor uma lorota.

Com as duas retas finais de campanhas mais decisivas para o destino das duas maiores democracias das Américas, os debates estão chamando atenção especial.

No caso dos Estados Unidos, a eleição envolve todos os assentos da Câmara, 35 das 100 vagas no Senado, e 34 dos 50 governos estaduais. Apesar de inúmeros candidatos terem entrado no pleito desconhecidos da maioria do público externo à sua base eleitoral, o fator Donald Trump acabou por nacionalizar campanhas regionais.

O caso mais notório é o do imenso Texas, o estado que não despacha um democrata para o Senado desde 1988. Uma picuinha pessoal fez com que o presidente retirasse seu apoio ao republicano John Cornyn, atual senador e vitorioso garantido, e apoiasse nas primárias Ken Paxton, um político tão rejeitado e controverso que nem Daniel Vorcaro toparia arrumar garotas de programa para entretê-lo.

O calouro democrata que vai enfrentar Paxton é James Talarico, um suave seminarista presbiteriano de 37 anos que já aceitou participar de quatro debates. Mas o republicano fugiu do confronto, sem ao menos mentir sobre o motivo, o que é compreensível, já que ele encerra coletivas abruptamente quando as perguntas incomodam.

Na era da atenção fragmentada e dos formatos curtos de conteúdo, é mais difícil avaliar a importância dos debates em campanhas nacionais. Uma exceção gritante ocorreu em junho de 2024, quando um Joe Biden exausto e confuso diante de Trump não teve escolha senão desistir da candidatura à reeleição.

Os debates presidenciais americanos só começaram na década de 1960, quando 90% dos domicílios com televisão ofereciam uma audiência cativa aos candidatos. As campanhas hoje se beneficiam mais de memes e frases de efeito que se tornam virais.

Mas um debate só pode ser tão vigoroso ou relevante quanto a qualidade do debatedor. E, convenhamos, a idade dos linchamentos digitais e do declínio da vergonha na vida pública reduziu dramaticamente a vocação não puramente pecuniária pela carreira política. Por isso, quando o inexperiente e desconhecido Barack Obama eletrizou uma convenção partidária em 2004, pôde surfar na oratória rumo à Presidência.

Se o candidato presidencial que venceu o primeiro turno brasileiro não voltar atrás de ter voltado atrás de fugir ao debate na Band no próximo domingo (18), não podemos esperar uma noite de grande respeito pela inteligência do eleitor.

Afinal, ele quer convencer os brasileiros de que o vídeo publicado na terça-feira (13), afirmando que ia faltar ao confronto, não passava de "uma armadilha" para forçar o presidente a confirmar presença. Lembro de eleições para representante de classe, na minha adolescência, conduzidas com mais maturidade.

Por sua parte, o presidente que dominou a vida política brasileira nas últimas três décadas não submeteu sua oratória à renovação de dieta e regime físico que o mantêm lépido aos 81 anos que completa neste mês.

É pedir demais que um debate presidencial ofereça ideias claras sobre como melhorar a nossa vida e não se resuma a servir uma visão sombria de tudo o que o seu lado tem a perder, além do cardápio de vinganças à espera, se outro lado ganhar?

Fonte original Publicado originalmente por Folha Mundo
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