CV usa ouro de garimpo ilegal para financiar crimes, diz PF
PF diz que Comando Vermelho usa ouro de garimpo ilegal na Terra Indígena Sararé como moeda de troca para financiar crimes. Leia no Poder360
Facção controla áreas de exploração na Terra Indígena Sararé; operação federal já causou prejuízo de mais de R$ 110 milhões
O CV (Comando Vermelho) passou a controlar áreas de garimpo ilegal na Terra Indígena Sararé, no oeste de Mato Grosso, e usa o ouro extraído no local como moeda de troca para financiar atividades criminosas, segundo a Polícia Federal. A informação foi divulgada em reportagem do Fantástico, da TV Globo, exibida no domingo (28.jun.2026).
Segundo a reportagem, a facção chegou à região em 2023, oferecendo segurança armada aos garimpeiros. Depois, ampliou sua atuação e passou a controlar frentes de extração ilegal de ouro. Ao programa, o delegado da PF, Rodrigo Vitorino, afirmou que o grupo troca o metal por drogas e armas em países vizinhos.
A Terra Indígena Sararé foi homologada em 1985, tem 67.000 hectares e abriga indígenas do povo Nambikwara. O território abrange os municípios de Conquista d’Oeste, Nova Lacerda e Vila Bela da Santíssima Trindade, em Mato Grosso. Segundo a Casa Civil, 4.200 hectares já foram degradados pelo garimpo ilegal.
O Poder360 mostrou que a Terra Indígena Sararé é alvo de operações contra o garimpo ilegal desde ao menos 2021. Naquele ano, o governo federal autorizou o envio da Força Nacional para preservar a ordem pública e proteger pessoas e patrimônio.
Na operação realizada pela PF em junho de 2026, foram executadas 1.090 ações integradas na Terra Indígena Sararé. Segundo a Casa Civil, as ações causaram prejuízo estimado de R$ 93,3 milhões ao garimpo ilegal, com a apreensão ou destruição de escavadeiras, geradores, motores, motocicletas e outros equipamentos usados na atividade.
O balanço mais recente divulgado pelo Fantástico indica que o prejuízo ao garimpo ilegal supera R$ 110 milhões. A reportagem informa que 72 pessoas foram presas, 153 kg de ouro e mais de 42.000 litros de diesel foram apreendidos. Também foram destruídos 33 túneis, quase 4 toneladas de explosivos, 200 acampamentos, mais de 800 motores e 31 escavadeiras.
Na 5ª feira (25.jun.2026), a PF cumpriu mandado contra um homem suspeito de vender máquinas e fuzis a traficantes. Segundo o delegado Rodrigo Vitorino, a entrada de armas de grosso calibre na terra indígena está relacionada à presença da facção na região.
A PF informou, em maio, que cumpriu mandados de prisão preventiva e de busca e apreensão em Parauapebas (PA) e Boa Vista (RR) para combater a extração e o comércio ilegal de ouro na Terra Indígena Sararé. A Justiça também determinou o sequestro de bens e o bloqueio de mais de R$ 1,9 milhão dos investigados.
Segundo a corporação, a investigação começou depois que a PRF prendeu um dos investigados em flagrante com 460 g de ouro extraídos de terra indígena. A partir desse episódio, a PF identificou uma associação criminosa voltada à gestão do garimpo ilegal.
A presença do Comando Vermelho na região já havia sido apontada pelo Ibama em outubro de 2025. Na ocasião, uma operação conjunta mirou o Garimpo do Cururu, onde, segundo o órgão, havia integrantes da facção. O Ibama afirmou que a organização controlava áreas da terra indígena com grupos fortemente armados.
Na operação de 2025, agentes localizaram bunkers usados para armazenar equipamentos, insumos e armas. O Ibama informou que motores, escavadeiras, motocicletas, caminhonetes, acampamentos, armas de fogo e explosivos foram apreendidos ou destruídos.
Além da atuação do crime organizado, o garimpo ilegal provocou danos ambientais na Terra Indígena Sararé. Em maio, uma operação da PF e da Polícia Civil de Mato Grosso apreendeu escavadeiras, motores e óleo diesel em área próxima ao território. Segundo o Ministério dos Povos Indígenas, os agentes flagraram extração ilegal de ouro e degradação ambiental, incluindo o desvio do curso do rio Sararé.
A reportagem do Fantástico também mostrou danos no chamado Garimpo do 4, onde a retirada de terra atingiu o lençol freático. Segundo a reportagem, o rio Sararé apresenta sinais de poluição. Um agente do Ibama ouvido pelo programa afirmou que a recuperação da área pode levar centenas de anos.
A operação federal segue sem prazo para terminar. Segundo o governo, as ações continuarão até a retirada dos invasores e o restabelecimento das condições de segurança e da integridade da Terra Indígena Sararé.