Crise global do açúcar afeta produção e consumo na Índia
Agricultores relatam perdas na lavoura em meio à escassez de água e ao custo dos fertilizantes
Latur (Índia) | The New York Times Conflitos. Mudanças climáticas. Um El Niño devastador. Todos esses fatores conspiram para acabar com o gosto do mundo por doces.
Os preços globais do açúcar dispararam, depois que um verão quente e seco castigou grande parte das regiões produtoras do mundo, contribuindo para elevar os preços dos alimentos em geral.
Em nenhum lugar isso é sentido tão intensamente quanto na Índia, maior consumidora de açúcar do mundo e segunda maior produtora. A pior temporada de monções em 11 anos e o temor de uma safra ruim de cana-de-açúcar fizeram os preços dispararem em meio à temporada de festivais hindus, quando deuses e mortais são homenageados com doces.
Para piorar, os preços elevados do açúcar também dificultam as metas de segurança energética da Índia. A cana-de-açúcar é uma cultura fundamental para o esforço do país de ampliar o uso de biocombustíveis, sobretudo agora que a Índia busca reduzir as importações de petróleo enquanto as rotas marítimas do Oriente Médio estão bloqueadas pela guerra.
O El Niño deste ano —fenômeno natural recorrente que altera os padrões climáticos em várias partes do mundo— deixou muitos canaviais do país ressecados, apenas um ano depois de terem sido encharcados pelo excesso de chuvas e devastados por pragas.
Protestos eclodiram por causa da alta dos preços. O governo alertou comerciantes de açúcar contra a formação de estoques. E um país que normalmente exporta açúcar tomou a medida extraordinária de abrir as portas às importações neste ano, pressionando ainda mais os preços globais do produto.
"Esta safra está perdida", disse o agricultor Morarji Patil, de 30 anos, ao lado de seu canavial em uma manhã abafada de setembro, na região de Marathwada, no oeste da Índia.
Assim como outros agricultores da região, Patil já estava sufocado pelas dívidas e pelos altos preços dos fertilizantes antes que o calor escaldante e a escassez de chuvas agravassem a situação. Seus pés de cana eram finos e baixos, atrofiados pela falta de água durante o verão, justamente quando mais precisavam dela. Patil esperava colher 70% menos do que o normal.
O banco tomou seu trator por causa de empréstimos não pagos. Seus vizinhos assistiram à cena. Patil ingeriu inseticida na tentativa de acabar com a própria vida, mas foi socorrido pela família e levado às pressas para um hospital.
"Fiquei sobrecarregado", disse ele.
Depois vieram as despesas médicas. Ele tomou mais dinheiro emprestado para pagá-las.
A Índia é um exemplo dos efeitos abrangentes que os conflitos e os fenômenos climáticos extremos podem ter sobre a economia de um país. Os preços dos alimentos sobem mês após mês. Culturas agrícolas importantes continuam ameaçadas, enquanto os efeitos do El Niño se prolongam até o próximo ano, aumentando a probabilidade de secas e enchentes extremas. Além disso, a Índia é extremamente vulnerável a choques no abastecimento global de petróleo. O país importa a maior parte do petróleo bruto que consome.
AÇÚCAR COMO COMBUSTÍVEL
Na Índia, o açúcar há muito conta com o apoio do Estado, que inclui preços garantidos aos agricultores e, até este ano, tarifas elevadas de importação. Mais recentemente, o setor se beneficiou de uma determinação do governo que tornou obrigatória a mistura de 20% de etanol à gasolina nos postos indianos. O governo afirmou que sua política de biocombustíveis reduziu a demanda por petróleo e a poluição climática, além de economizar divisas para o país. A mistura de etanol foi descrita como "um pilar fundamental da transição energética da Índia".
A medida também criou uma fonte adicional de receita para as usinas de açúcar.
Mas provocou a indignação dos motoristas indianos.
Eles reclamaram que o etanol reduz a eficiência do combustível e danifica os veículos, especialmente os mais antigos, cujos motores não são compatíveis com uma mistura que contém 20% de etanol.
Aditya Kare, de 21 anos, abastecia sua motocicleta Hero, de 2018, em um posto na cidade vizinha de Latur. Ele disse que a mistura de etanol reduziu o rendimento médio de sua moto de 60 Km por litro para cerca de 45 quilômetros por litro. Com isso, ficou mais difícil se virar com os 100 rúpias (R$ 5,05) que seus pais lhe dão para ir à faculdade.
"Em casa, estamos planejando comprar uma moto elétrica", disse.
Na tentativa de conter a insatisfação pública, autoridades do governo afirmaram, em comunicado divulgado em julho, que não havia evidências de um "padrão generalizado de falhas nos motores", mas reconheceram um impacto "pequeno" na eficiência do combustível.
O APELO DO AÇÚCAR
Ao atravessar Marathwada, onde Patil cultiva a terra, veem-se fileiras de cana-de-açúcar plantadas entre lavouras de soja, algodão e, cada vez mais, altas turbinas brancas que geram energia a partir do vento.
O cultivo da cana tem um custo elevado. A planta exige muita água, e a demanda por açúcar, tanto para alimentação quanto para combustível, está levando muitos agricultores a perfurar poços mais profundos e a esgotar os aquíferos locais.
O poço de Patil tem 244 metros de profundidade. Neste ano, nem mesmo nessa profundidade há água.
Uma represa no rio Manjara se transformou em uma vala seca. Os lagos estão sem água.
"Esse ambiente não é bom para a cana-de-açúcar", disse o agricultor Ganesh Gomare. "Mas a economia de Marathwada depende da cana."
O açúcar é tentador. O cultivo oferece lucros relativamente altos. Há usinas nas proximidades. Por isso, Gomare, de 38 anos, destinou uma parcela ainda maior de suas terras à cana neste ano.
A decisão saiu pela culatra. Ele espera colher metade do volume normal.
Nas proximidades, Dagdu Venkat Rao Padile, de 66 anos, arrancou um pé de cana de seu campo. Os nós do caule eram muito mais curtos do que deveriam ser poucas semanas antes da colheita. A planta estava debilitada. Seu teor de açúcar seria ínfimo.
"Vai me custar mais cortar a cana do que o que vou receber por ela", disse Padile.
Ele calculava que sua produção seria um quarto do normal. As chuvas foram tão escassas que deixou a maior parte de suas terras sem plantio.
TEMPORADA DE DOCES
Diante do temor provocado pela alta dos preços do açúcar, a Federação Nacional de Usinas Cooperativas de Açúcar alertou recentemente contra "compras motivadas pelo pânico ou formação excessiva de estoques". Ainda havia bastante açúcar na Índia, afirmou a entidade.
Leia mais
Pedidos de recuperação judicial no agro caem 20,7% no segundo trimestre, diz Serasa
Após choque energético, ONU adverte sobre possível crise alimentar mundial
Interrupção do tráfego em Hormuz começa a afetar colheitas, diz agência da ONU
Isso trouxe pouco alívio aos consumidores que aguardavam na fila da Gurukrupa Farsan Mart, em Chhatrapati Sambhajinagar, cidade anteriormente conhecida como Aurangabad, em uma sexta-feira à noite. Os preços haviam subido 10% em todos os produtos expostos nas prateleiras, dos pequenos bolinhos chamados modaks às esferas amanteigadas de laddoos, muito apreciadas durante os festivais hindus. Os clientes estavam comprando menos de tudo, disse o gerente da loja, Ganpath Mhaske.
"Os preços dos alimentos e dos combustíveis também subiram. As pessoas precisam escolher com o que vão gastar", afirmou.
Tanisha Gaikwad havia praticamente eliminado o açúcar de sua alimentação. Mesmo assim, entrou na fila da loja de doces para comprar uma pequena caixa de laddoos e oferecê-los no altar de Mahalaxmi, deusa da riqueza e do poder. Segundo ela, suas orações não poderiam ser feitas sem açúcar.
Comentários 0
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar.