Corrida maluca
Lula e Flávio Bolsonaro prometem mundos e fundos e sacrificam princípios
Ainda bem que a campanha do segundo turno presidencial é curta. Não creio que os cofres públicos resistiriam a mais algumas semanas de medidas desesperadas de Lula tentando reverter um quadro eleitoral que lhe é adverso. Do primeiro turno para cá, o petista já anunciou desoneração de combustíveis, expansão do Pé-de-Meia universitário e uma série de benefícios para microempreendedores. Estamos falando de gastos da ordem de algumas dezenas de bilhões de reais neste e no próximo ano.
Num exercício mais holístico, que considera todas as bondades de fundo eleitoral, estima-se um impacto de R$ 290 bilhões, entre gastos, renúncias e créditos subsidiados. Não que Jair Bolsonaro tenha feito coisa muito diferente quatro anos atrás. A chamada PEC Kamikaze e outras medidas eleitoreiras implicaram despesas até maiores que as de Lula.
E não estamos tratando apenas de dinheiro. Na tentativa de atrair eleitores, Lula passou a defender a redução da maioridade penal para crimes hediondos, tese que o PT e o próprio Lula sempre combateram.
No caso de Flávio Bolsonaro, os cavalos de pau ideológicos são ainda mais constrangedores. Ele votou pelo fim da escala 6x1, medida que sempre criticou. Também se tornou favorável ao Bolsa Família, antes descrito como "bolsa farelo". Metamorfose semelhante ocorreu em relação ao Farmácia Popular.
Sou o primeiro a reconhecer que vida de político não é fácil. Eles precisam encontrar um ponto de equilíbrio entre responder aos anseios populares por mudança e manter posicionamentos políticos e doutrinários identificáveis e consistentes. Quando abrem mão desse delicado ajuste fino e abraçam o oportunismo sem disfarces, a mensagem que passam é que a única coisa que interessa é conquistar o poder. Princípios e coerência são sacrificáveis.
É até possível que esse seja um retrato mais fiel da política como ela se materializa no mundo real, mas ele impõe uma gramática cínica que favorece os candidatos com retórica antissistema. Quem perde é a política institucional.
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