Campo Grande, MS | 26°C | 18 de Outubro de 2026
AO VIVO 14:24
Brasil

Como saber se você já pode se aposentar?

Ter um patrimônio elevado não significa estar pronto

Como saber se você já pode se aposentar?

Considere um indivíduo com R$ 5 milhões investidos e que está pensando em parar de trabalhar. Será que ele já pode se aposentar? A resposta parece depender do patrimônio, mas começa por uma pergunta mais difícil: quanto custará sua vida quando o salário deixar de entrar na conta e por quanto tempo precisa receber essa renda?

O primeiro erro é imaginar que precisamos substituir integralmente o salário. Quem recebe R$ 40 mil mensais, gasta R$ 25 mil e investe R$ 15 mil não precisa necessariamente de R$ 40 mil para manter seu padrão de vida.

Na aposentadoria, deixará de fazer os aportes destinados a financiá-la. O objetivo é substituir o consumo, não o salário.

Mas esse consumo continuará igual? A aposentadoria não necessariamente custa menos. Ela custa diferente. Algumas despesas desaparecem, outras diminuem e outras podem crescer bastante, em momentos distintos.

Nos primeiros anos, a vida pode até ficar mais cara. Quem passou décadas trabalhando encontra tempo para viajar, frequentar restaurantes e realizar projetos adiados. Um casal aposentado aos 60 anos pode gastar mais entre os 60 e os 70 do que gastava enquanto trabalhava.

Por outro lado, desaparecem gastos com transporte e refeições profissionais. A educação dos filhos provavelmente terminou, o financiamento imobiliário pode estar quitado e diminui a necessidade de comprar bens para estruturar a família.

Com a idade, o consumo também muda. Aos 80 ou 85 anos, muitas pessoas viajam menos, trocam de carro com menor frequência e reduzem gastos com lazer. Não é regra, mas ajuda a explicar por que as despesas podem diminuir em termos reais durante parte da aposentadoria.

Uma despesa, entretanto, tende a caminhar na direção contrária: saúde. Planos de saúde já têm mensalidades elevadas nas faixas etárias superiores e continuam sujeitos a reajustes. Medicamentos e tratamentos também podem ganhar peso no orçamento. Em situações de perda de autonomia, cuidadores podem representar gastos ainda maiores.

Assim, a redução de outras despesas pode compensar parte do aumento com saúde e até diminuir o gasto total em termos reais. Isso não é garantido, especialmente quando surgem necessidades prolongadas de cuidados.

Há ainda outro detalhe: a inflação do aposentado pode ser diferente da média do país. Conforme a saúde ganha peso no orçamento, aumentos de planos, medicamentos e tratamentos passam a impactar mais seu custo de vida.

Corrigir tudo apenas pelo IPCA pode não refletir essa realidade. A inflação da parcela de saúde e cuidados pessoais no IBGE foi quase 26% maior que o IPCA na última década.

Voltemos aos R$ 5 milhões. Uma pessoa pretende gastar R$ 15 mil mensais, equivalentes a 3,6% do patrimônio ao ano. Outra deseja gastar R$ 35 mil, ou 8,4%. São taxas iniciais de retirada, não garantias de sustentabilidade, mas mostram como o mesmo patrimônio pode ser suficiente para uma pessoa e insuficiente para outra.

Também é necessário decidir se você aceita consumir parte do capital ou deseja preservá-lo para os filhos. Quem pretende manter o patrimônio corrigido pela inflação precisa de uma reserva maior com o tempo de benefício. E uma conta que só funciona se os investimentos renderem exatamente o esperado para a taxa de retirada oferece pouca segurança de eventualidades.

Uma referência simples é a regra dos 300, derivada da conhecida regra dos 4%. Se seus investimentos proporcionarem retorno líquido de impostos e inflação de 4% ao ano, você precisaria de um patrimônio equivalente a 300 vezes sua retirada mensal para preservar o capital em termos reais. Assim, quem deseja gastar R$ 10 mil mensais precisaria acumular R$ 3 milhões.

Com retorno real líquido de 5%, essa necessidade cairia para aproximadamente 240 vezes a retirada, ou R$ 2,4 milhões. Naturalmente, essas contas pressupõem retornos constantes e não eliminam os riscos de mercado e de longevidade.

Estar financeiramente pronto também não significa querer parar de trabalhar. Algumas pessoas continuam trabalhando por prazer ou propósito. A independência financeira oferece essa liberdade: trabalhar por escolha, não por necessidade.

Estar pronto para se aposentar não significa alcançar determinado patrimônio. Significa ter recursos suficientes para financiar a vida que deseja, mesmo com mudanças nas despesas e imprevistos.

Mas há uma variável capaz de mudar todas essas contas: o tempo. Financiar vinte anos de aposentadoria é muito diferente de financiar quarenta. E se você viver até os 100 anos? Essa será a pergunta que encerra nossa série amanhã.

Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor.

Fonte original Publicado originalmente por Folha de S. Paulo
Ver na fonte
Compartilhe

Comentários 0

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar.

0