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Como os problemas da Volkswagen foram criados na China

Alemã dominou mercado chinês por 40 anos, mas ficou atrás de rivais chineses na transição para elétricos

11/07/2026 07:00 Keith Bradsher Folha Mercado 1 visualizações há 18 horas
Como os problemas da Volkswagen foram criados na China

A Volkswagen tem problemas ao redor do mundo, o que a levou a anunciar na última quinta-feira (9) que reduziria o número de modelos oferecidos em até metade. Muitos de seus problemas podem ser rastreados até a China.

A potência alemã do setor automotivo, segunda maior montadora do mundo depois da Toyota, liderou o mercado na China, o maior mercado de carros do mundo, por quatro décadas. Durante muitos anos, as joint ventures e fábricas da empresa na China forneceram metade ou mais dos lucros mundiais da companhia, o que ajudou a Volkswagen a custear altos salários e benefícios generosos para sua vasta força de trabalho na Alemanha.

Mas as vendas da Volkswagen na China no ano passado caíram um terço em comparação com 2019, com a empresa ficando atrás dos concorrentes chineses na transição para carros elétricos. E o desempenho da empresa continua piorando: as vendas na China de abril a junho caíram mais um terço em relação ao ano passado, um desempenho fraco mesmo pelos padrões de desaceleração da economia chinesa e do mercado automotivo.

A Volkswagen agora enfrenta uma concorrência assustadora de rivais chineses em mercados fora da China também. Carros chineses estão inundando a América Latina e a África, onde a Volkswagen há muito tempo está entre os líderes de mercado. E na União Europeia, território natal da VW, as montadoras chinesas ultrapassaram as japonesas em termos de participação de mercado em maio. A rápida expansão de estreiantes chineses com preços baixos na Europa está pressionando a Volkswagen e outras fabricantes europeias a reduzir preços, diminuindo suas margens de lucro.

A Volkswagen não detalhou como poderia enxugar suas operações com uma gama de modelos mais limitada. A empresa disse que teria como meta produzir 9 milhões de veículos por ano, em comparação com uma meta de 12 milhões antes da pandemia de Covid-19 e 10 milhões mais recentemente. Reportagens da imprensa alemã haviam sugerido que a Volkswagen estava se preparando para demitir até 100 mil trabalhadores até o final da década e fechar quatro fábricas na Europa.

Os problemas da Volkswagen relacionados à China podem ser relacionados parcialmente a decisões que a empresa tomou muitos anos atrás. Há quase 20 anos, quando os líderes da China pressionaram a indústria automotiva do país a mudar para carros elétricos, os líderes da empresa na Europa eram céticos.

Como outras multinacionais, a Volkswagen relutou em começar a projetar uma linha de carros elétricos do zero até que o público chinês mostrasse uma clara preferência por esses modelos. Em contraste, as montadoras chinesas em geral acreditaram em Pequim e se planejaram segundo suas intenções.

Bancos controlados pelo Estado também concederam empréstimos enormes com taxas de juros baixas às montadoras chinesas, enquanto governos locais forneceram apoio financeiro que ajudou as empresas a fazer pagamentos de juros e as sustentou quando enfrentaram dificuldades.

Este ano, a Volkswagen lançou o primeiro de muitos modelos que desenvolveu na China para ser totalmente elétrico e ter ampla conectividade com a internet, o ID. Unyx 07. Sua arquitetura eletrônica abrangente, segundo a Volkswagen e analistas, se traduz em economias de custo consideráveis.

"Nos últimos três anos, renovamos completamente nosso portfólio de produtos", disse Ralf Brandstätter, presidente e CEO do Grupo Volkswagen China, em resposta por e-mail a perguntas. "Este ano, estamos lançando nossa maior ofensiva de produtos de todos os tempos, com 20 modelos inteligentes e eletrificados chegando ao mercado."

Mas os novos modelos da Volkswagen na China estão chegando tarde. Em 2024 e 2025, a China ofereceu subsídios extensivos para famílias trocarem carros movidos a gasolina por alternativas elétricas. Agora, muitas famílias chinesas que queriam carros elétricos já os têm.

Para piorar as coisas, Pequim reduziu os subsídios para veículos elétricos no início deste ano, depois que o programa se tornou um fardo orçamentário. As vendas de carros elétricos a bateria e híbridos plug-in em toda a indústria na China caíram 14% no primeiro semestre deste ano em relação ao mesmo período do ano passado.

"As montadoras estrangeiras na China perderam o bonde dos veículos elétricos", disse Stephen Dyer, chefe da divisão automotiva e industrial da Ásia na consultoria AlixPartners.

A Volkswagen inicialmente tentou adaptar alguns carros a gasolina para versões elétricas. Isso impactou a empresa quando a Tesla aumentou a produção e as vendas na China em 2020, gerando uma adoção rápida e quase nacional de carros elétricos.

Um padrão claro surgiu desde então. Algumas montadoras, como Tesla e Xiaomi, vendem apenas carros elétricos. A BYD, a chinesa que disputa com a Tesla o primeiro lugar nas vendas globais de veículos elétricos, também vende carros híbridos com baterias grandes e motores a gasolina pequenos.

Algumas montadoras chinesas que anteriormente fabricavam principalmente modelos a gasolina mudaram metade ou mais de suas vendas para carros elétricos, notadamente a Geely, que agora rivaliza com a BYD pela liderança de mercado na China. Multinacionais como Volkswagen, General Motors e Ford continuam oferecendo principalmente carros movidos a gasolina.

Mas as vendas de carros movidos a gasolina na China despencaram este ano quase duas vezes mais rápido do que a queda nas entregas de carros elétricos a bateria e híbridos plug-in a gasolina-elétrico.

A participação da Volkswagen no mercado chinês de carros movidos a gasolina aumentou ligeiramente. Mas com mais de 3 em cada 5 carros novos na China agora sendo totalmente elétricos ou híbridos plug-in, a força em um segmento em rápida retração não impediu a empresa de perder vendas no geral.

"As dificuldades da Volkswagen na China derivam principalmente de sua própria transformação lenta", disse Cui Dongshu, secretário-geral da Associação Chinesa de Carros de Passageiros, um grupo comercial.

Uma crise no mercado imobiliário dificultou a compra de um carro novo para milhões de famílias chinesas, liberando o excesso de estoque das fábricas locais para exportação. A China também manteve sua moeda fraca, permitindo que suas montadoras vendam mais barato que os rivais em mercados estrangeiros.

As exportações de carros da China dispararam para 8 milhões no ano passado, vindas de 1 milhão em 2020, e estão a caminho de alcançar 12 milhões este ano. Para comparação, todo o mercado de carros da União Europeia foi de cerca de 11 milhões no ano passado.

Além de correr atrás dos concorrentes chineses em sistemas de propulsão, a Volkswagen tem sido mais lenta em dominar software de veículos e outras tecnologias eletrônicas. A empresa alemã seguiu os padrões da indústria europeia testando recursos de direção autônoma por mais tempo do que os rivais chineses antes de introduzi-los em carros produzidos em massa.

Enquanto a Volkswagen tem testado metodicamente, as montadoras chinesas introduziram tecnologias de direção autônoma, apesar de acidentes ocasionais.

A Volkswagen também ficou atrás dos concorrentes chineses na adoção de painéis de instrumentos chamativos com grandes telas de exibição que se tornam extensões do smartphone do motorista. Os carros da Volkswagen começaram a parecer antiquados em comparação.

Agora, a alemã começou a exportar carros da China para a Ásia Central e o Oriente Médio. Também começou a procurar maneiras de usar tecnologias desenvolvidas por seus engenheiros chineses na América do Sul e na África.

"A Volkswagen China tem o potencial de se tornar tanto um polo de exportação quanto fornecedor de tecnologia para o Sul Global", segundo Brandstätter, o chefe da empresa na China.

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