Campo Grande, MS | 26°C | 20 de Outubro de 2026
AO VIVO 11:56
Brasil

Como abstenção pode dar vitória a Flávio Bolsonaro ou a Lula

No primeiro turno, presidente foi o mais prejudicado, perdendo 8 pontos em relação à pesquisa da véspera

Como abstenção pode dar vitória a Flávio Bolsonaro ou a Lula

[RESUMO] Cientista político analisa de que maneira a taxa de comparecimento nas urnas afeta mais alguns candidatos do que outros e acarreta as diferenças entre pesquisas e o total computado pelo TSE. Resultados dos últimos pleitos mostram que a abstenção é maior entre pessoas com menos estudo e renda, prejudicando o desempenho de políticos que possuem mais eleitores na base da pirâmide social, caso de Lula no primeiro turno. No próximo domingo, o número de ausentes pode determinar a reeleição do petista ou a vitória de Flávio Bolsonaro.

"No sistema solar das campanhas, os profissionais são de Marte, os acadêmicos são de Vênus."

A frase do estrategista Dan Schnur distingue não apenas duas categorias, mas dois olhares sobre as eleições. Devo ser de Mercúrio, pois pertenço a um grupo minoritário de "híbridos".

Talvez eu seja hoje um dos que estudam eleições e partidos há mais tempo, tendo publicado meu primeiro artigo em 1979. Nessa área escrevi dissertação de mestrado, tese de doutorado e 12 livros, sozinho ou em parceria.

De outro lado, antes de me dedicar aos comentários na TV, participei de pelo menos 91 campanhas majoritárias, dentro e fora do país, sendo cinco presidenciais.

Atuei como coordenador de pesquisas, consultor de estratégia e, em mais de uma dezena, coordenador do marketing. Tive a honra de trabalhar para muitos dos melhores políticos da Nova República. Nesse número não estão computadas as centenas de campanhas em que o Ipespe (Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas) forneceu pesquisas.

Faço essa observação apenas para dizer que, desde as primeiras eleições pós-redemocratização, acompanho o problema do diferencial de comparecimento. Quando os clientes tinham condições de vencer no primeiro turno, preocupava-me assegurar uma margem de alguns pontos acima dos 50%, pois a experiência mostrava que parte dessa vantagem não se concretizaria.

Na quinta-feira anterior ao primeiro turno deste ano, antecipei em entrevista ao NeoFeed que "Lula perderia milhões de votos para a abstenção" e que "não ficaria surpreso se ele nas urnas fosse ultrapassado por Flávio".

A princípio, todos os candidatos perdem votos para a ausência nas urnas. Quem não conhece amigos ou parentes que deixaram de votar pelos mais variados motivos? O voto obrigatório certamente impede que o comparecimento seja menor, mas não evitou que os ausentes superassem um quinto do eleitorado.

A questão com repercussão concreta é outra: quem perde mais? Ou o prejuízo é simétrico? Fernando Henrique Cardoso perdeu votos. Lula e Dilma Rousseff também. Perdem mais os candidatos, de esquerda ou direita, com grande penetração na base da pirâmide social.

Em 1989, nenhum dos principais concorrentes tinha essa característica e, com abstenção baixa, as urnas praticamente reproduziram as pesquisas para os três primeiros líderes. De 2002 para cá, em média, os candidatos do PT recuaram oito pontos na totalização do TSE para o primeiro turno, em relação aos levantamentos divulgados na véspera.

Os principais adversários dos petistas declinaram quatro vezes menos: apenas dois pontos. Os terceiros colocados perderam três, mesma redução média do agregado das demais candidaturas.

Como podemos inferir isso? Pelo menos desde a eleição passada, estabeleceu-se relativo consenso entre os participantes do COP/Abep (Conselho de Opinião Pública da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa) e da Abrapel (Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais) em torno de duas premissas.

A primeira: pesquisas não são prognósticos (o que tenho afirmado publicamente desde 2014). Medem "atitudes", dentro de margens de erro conhecidas, sem pretender prever o "comportamento" na urna. Somente no caso de previsões cabe falar em "acerto ou erro".

A segunda: a comparação correta entre levantamentos e resultados oficiais exige cotejar os respectivos totais. Como sintetiza o veterano pesquisador João Francisco Meira: "Amostras são desenhadas para representar o total do eleitorado. Estimar comparecimento é apenas uma adivinhação educada".

Em artigo na Ilustríssima, na eleição de 2022, rebati críticas às pesquisas, explicando as discrepâncias com base nos totais divulgados por Datafolha, Ipespe, MDA, Ipec e Quaest.

A tabela abaixo reúne as últimas pesquisas anteriores ao primeiro turno das dez eleições presidenciais pós-ditadura, ao lado dos resultados do TSE, ambos calculados sobre o eleitorado total. Os levantamentos são do Datafolha, único instituto presente em todo o período, permitindo acompanhar uma série metodologicamente consistente.

Por que trato seus números como referentes ao universo dos eleitores, e não apenas aos votantes, embora o instituto tenha aplicado um filtro, excluindo quem declarava não pretender votar? Por três razões.

Primeiro, porque sua metodologia define o universo como "eleitores com 16 anos ou mais". Segundo, porque a pergunta sobre comparecimento é em grande medida inócua. A ausência, embora sujeita a multa baixa, é socialmente ilegítima e pouco confessada, enquanto o TSE promove intensas campanhas de estímulo ao voto, inclusive dos desobrigados.

Na última pesquisa Nexus, próxima à do Datafolha, nada menos que 96% declaravam intenção de comparecer.

Terceiro, pela evidência empírica: os percentuais da pesquisa da véspera praticamente repetiram os de três dias antes, sem filtro. Lula permaneceu estável; Flávio avançou dois pontos, dentro da margem de erro, possivelmente pelo voto útil; e os demais oscilaram de 11 para 10 pontos.

No primeiro turno de 2026, todos os candidatos tiveram eleitores que não compareceram. Conforme a tabela, Lula perdeu 8 pontos; Flávio, 5; Cury, apenas 1; e os demais, somados, 4. Brancos e nulos representaram 4% do eleitorado, enquanto a abstenção superou ligeiramente 21%.

Foi isso que mudou a ordem de colocação. Lula perdeu mais, em razão do peso de pessoas de baixa renda, menor escolaridade e mais idosas na composição de sua base. Na véspera, alcançava 56% entre os eleitores de ensino fundamental, 51% entre os não economicamente ativos e 50% na faixa de até dois salários mínimos.

Neste último grupo estavam cerca de 6 em cada 10 eleitores dele, contra pouco mais de um terço dos de Flávio.

Como mostra a tabela, FHC também sofreu perdas expressivas em 1994 e 1998, quando tinha grande força entre os mais pobres. Há quem discorde, argumentando que a ausência não prejudicou Lula porque permaneceu relativamente estável no país e até diminuiu no Nordeste, sua principal base eleitoral.

Essa interpretação ignora, primeiro, que o fenômeno já havia subtraído votos potenciais do presidente em 2022, como demonstrei no artigo mencionado. Naquela ocasião, o prejuízo pode ter sido ainda maior, pois sua intenção de voto era 6 pontos superior, com concentração mais acentuada na base da pirâmide.

Segundo, mesmo que tenha perdido proporcionalmente menos no Nordeste, isso não exclui a possibilidade de muitos de seus apoiadores terem ficado em casa nas demais regiões, especialmente no Sudeste.

O cientista político Jairo Nicolau identificou que, nas cinco maiores cidades —São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Guarulhos e Campinas—, a abstenção superou a média nacional. Ressalvando possíveis problemas cadastrais, destacou que quase 30% dos ausentes não tinham obrigação de votar.

Nesse contingente estavam nada menos que 4,5 milhões de mulheres idosas de baixa escolaridade que não compareceram.

O gráfico é eloquente. Elaborado com dados da eleição de 2022, cuja taxa geral de abstenção diferiu da registrada agora em apenas 0,13 ponto percentual, revela uma relação ordinal quase perfeitamente inversa entre escolaridade e abstenção nas oito categorias analisadas.

A taxa de ausência chega a 52,1% entre os eleitores analfabetos, contra 12,4% entre aqueles com ensino superior completo. No primeiro grupo, portanto, a abstenção é 4,2 vezes maior. Como o número de categorias é pequeno, o coeficiente deve ser entendido como estritamente descritivo.

Além disso, por se basear em dados agregados, não autoriza inferências sobre comportamentos individuais, o que incorreria em "falácia ecológica".

A maior ausência dos mais pobres não é singularidade brasileira. Há décadas sabe-se que a participação eleitoral é socialmente seletiva, favorecendo grupos com maiores recursos econômicos, educacionais e políticos.

A ausência atinge especialmente pessoas de baixa renda, trabalhadores em ocupações precárias e mulheres pobres chefes de família, que no Brasil enfrentam dificuldades adicionais com o fechamento das creches públicas aos domingos eleitorais.

A tese clássica do cientista político Arend Lijphart, sobre a desigualdade socioeconômica refletida na presença às urnas, confirma-se a cada ciclo.

Embora a abstenção varie entre países por múltiplos fatores, a maioria dos estudos encontra associação positiva entre renda, escolaridade e participação. Os mais escolarizados, além de disporem de mais informação e recursos, têm maior familiaridade com temas políticos e atribuem maior importância ao voto.

A educação reduz, portanto, os custos cognitivos da participação e aumenta a probabilidade de comparecimento.

A renda exerce efeito menos direto e não linear. Votar, em princípio, não exige grandes despesas, mas custos aparentemente modestos, como transporte até a seção eleitoral, podem representar obstáculos relevantes para cidadãos pobres, sobretudo quando residem longe do local de votação.

A idade também constitui recurso político importante. Em geral, os mais velhos comparecem mais que os jovens, tanto nas democracias desenvolvidas quanto nos países em desenvolvimento. Exemplo clássico foi o brexit. A maioria da opinião pública optava por permanecer na União Europeia. Os jovens, porém, votaram menos, e os mais velhos deram vitória à saída do grupo.

No Brasil, contudo, há uma particularidade decisiva: a desobrigação do voto a partir dos 70 anos altera essa trajetória. Consideradas 22 faixas etárias, a correlação entre idade e abstenção é positiva, mas não linear.

A taxa começa relativamente baixa aos 16 anos (16,22%), cresce até os 21–24 (23,50%) e depois declina até atingir o mínimo entre 55 e 59 anos (11,93%). A partir daí volta a subir, alcançando 38,98% entre 70 e 74 anos e ultrapassando amplamente 50% nas idades seguintes.

Aqui na América Latina, os cientistas políticos Carreras e Castañeda-Angarita analisaram o comparecimento em 18 países a partir de três perspectivas: recursos individuais, motivações políticas e redes de mobilização.

Concluíram que, embora votar demande menos tempo e dinheiro do que outras modalidades de participação, exige habilidades e recursos mínimos para compreender o que está em disputa e desenvolver interesse pelo resultado, aspecto enfatizado também por Jairo Nicolau.

Para os autores, a idade aproxima a experiência política acumulada pelo contato com questões concretas —emprego, habitação, impostos, saúde e benefícios sociais—, além das conversas e do aprendizado sobre política.

Seus resultados não atribuem a nenhuma das três perspectivas capacidade isolada de explicar o comparecimento. Identificam, porém, dois preditores particularmente fortes: escolaridade e idade, esta última como indicador de experiência.

Esses recursos objetivos explicam a participação bem mais que motivações subjetivas, como confiança nas eleições, sentimento de eficácia e até interesse pela política, que frequentemente pressupõem algum patamar educacional.

Os autores contestam, assim, interpretações como a de Carolina A. Fornos, segundo a qual variáveis socioeconômicas, decisivas em outras democracias ocidentais, teriam pouca relevância na América Latina.

Ao contrário, demonstram que escolaridade, idade e situação ocupacional são preditores fundamentais do ato de votar.

O que eu já havia constatado empiricamente muito tempo atrás no marketing eleitoral, quando, apuradas as urnas, faltavam votos que as pesquisas nos haviam feito aguardar.

Fonte original Publicado originalmente por Folha de S. Paulo
Ver na fonte
Compartilhe

Comentários 0

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar.

0