Campo Grande, MS | 26°C | 14 de Junho de 2026
AO VIVO 07:58
Brasil

Com 'Pillion', produções independentes penam para chegar aos cinemas do Brasil

Premiado longa gay já teve estreia adiada por três vezes

14/06/2026 03:00 Davi Galantier Krasilchik Folha de S. Paulo 0 visualizações há 4 horas
Com 'Pillion', produções independentes penam para chegar aos cinemas do Brasil

Um mês após as filmagens de "Pillion", em 2024, os direitos de distribuição deste romance BDSM entre um motoqueiro durão e um jovem tímido já estavam nas mãos da A24. Em maio do ano passado, o longa com Alexander Skarsgard chamou a atenção no Festival de Cannes, levou o prêmio de melhor roteiro na mostra Um Certo Olhar e chegou aos cinemas americanos em fevereiro deste ano.

Foi nesta época que a Diamond Films anunciou a estreia brasileira para abril. De lá para cá, o filme foi adiado duas vezes, a última para 21 de maio, até sumir do calendário nacional.

Na bolha cinéfila das redes, as mudanças causaram estranhamento, com sugestões de que o título cortará custos de divulgação e irá direto ao streaming. Mas Vinícius Pagin, diretor da Diamond, maior distribuidora independente da América Latina, diz que o destino de "Pillion" segue indefinido.

O filme de Harry Lighton é apenas um, dentre vários filmes, estrangeiros e nacionais, que sofrem esse vai e vem para chegar ao circuito nacional, num jogo complexo que envolve estratégias financeiras, calendários de festivais, premiações e a consolidação do Brasil como polo de atração mundial.

Outro filme da Diamond tomou a última data prevista para "Pillion". O terror "Hokum", lançado em 1º de maio nos Estados Unidos, antes de hits como "Obsessão", estava previsto para chegar um dia antes no Brasil, mas foi empurrado para o dia 21 por blockbusters como "Michael" e "O Diabo Veste Prada 2", que dominaram as salas no final de abril.

Além disso, nesse meio-tempo, "Pillion" chegou ao catálogo da HBO Max dos Estados Unidos —e, consequentemente, à pirataria.

"Lançamos quase 30 filmes por ano, que afetam uns aos outros", diz Pagin. "Cinemas dão conta de longas independentes, blockbusters e títulos já em cartaz. Lançar dois filmes juntos é um suicídio econômico."

No Brasil, a maioria dos filmes tem suas sessões definidas na semana de estreia, após exibições especiais para representantes de cinemas. Uma exceção são blockbusters aguardados, lançados por seus próprios estúdios, com sessões marcadas com maior antecedência e pré-venda de ingressos.

Nos demais casos, os cinemas analisam as obras e indicam o que querem ou não exibir. Assim, cabe às distribuidoras avaliar o retorno e, então, manter ou propor novas datas.

Os exibidores —que bancam o aluguel das salas, projetores e taxas de sites de venda, entre outros custos— ganham mais da metade da bilheteria inicial. A fatia para os donos de cinemas aumenta a partir da segunda semana, conforme novos títulos disputam o público.

Distribuidoras colhem o restante e compensam a compra dos direitos de distribuição —um valor que, a depender do tamanho da produção, pode variar de centenas de milhares até milhões de dólares. Outros gastos incluem o marketing e a produção dos arquivos para as salas de projeção.

O processo ainda inclui impostos nacionais. É o caso do ISS, o Imposto Sobre Serviços, que afeta a venda de ingressos, e a Condecine-remessa —para obras estrangeiras, exige dos distribuidores 11% do que os investidores de fora recebem.

"O exibidor sinaliza cenários em que a data escolhida coincide com lançamentos que podem prejudicar outros", diz Valdinei Strapasson, gerente de programação da Cinesystem, dona de 29 salas em São Paulo.

Já Adhemar Oliveira, dono do Espaço Petrobras, diz alocar mais títulos com menos sessões para cada um. Hoje, o cinema de rua tem três salas em atividade. Procurada, a Cinemark, rede internacional que tem mais de 150 salas na capital paulista, não respondeu à reportagem.

Nas redes sociais, usuários sugeriram que o atraso de "Pillion" se devia à sua temática queer, e o compararam a outras produções do subgênero que demoraram a chegar ao Brasil. Uma delas é "A História do Som", com Josh O’Connor e Paul Mescal.

Depois da estreia em Cannes, a Mubi lançou o filme nos Estados Unidos, em outubro do ano passado, enquanto ele era exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. À época, a distribuição no Brasil era da Universal Pictures, mas o longa acabou deixando a empresa e chegou em fevereiro deste ano pela Imagem Filmes, de menor porte.

Strapasson, da Cinesystem, diz que critérios ideológicos não interferem na programação. "Toda produção é analisada sob a ótica dos planos de exibição, contanto que tenha classificação indicativa e autorização. Complexos voltados a filmes de arte costumam dar mais espaço a obras como 'Pillion' se comparados a locais frequentados principalmente por famílias."

Já o premiado "O Olhar Misterioso do Flamingo" —sobre travestis acusadas de espalhar uma doença pelo olhar— passou pelo Festival do Rio e, depois, saltou de fevereiro para março no calendário de estreias.

Segundo o diretor de operações da Imovision, Luan Filippo Oldenbrock, o filme foi pensado para um circuito menor no Brasil. A distribuidora é dona do cinema Reserva Cultural, que ajuda a alocar seus títulos.

Dados da Agência Nacional do Cinema, a Ancine, mostram que o longa, em 166 sessões, arrecadou no Brasil cerca de R$ 20 mil —ou US$ 4.000, menos de 10% dos quase US$ 70 mil arrecadados globalmente. Orçado em US$ 3 milhões, o filme não prejudicou seus produtores graças à venda dos direitos de distribuição e verbas viabilizadas pela coprodução entre Chile, França, Alemanha, Espanha e Bélgica.

Já "Queens of the Dead", também da Imovision, se saiu pior. O terror americano sobre drag queens que lutam contra zumbis custou US$ 2 milhões, teve boa recepção em festivais, mas arrecadou apenas US$ 113 mil. No Brasil, em 169 sessões, algumas na Cinesystem, arrematou apenas o equivalente a US$ 2.000. "Ficou muito abaixo da média de salas que filmes B costumam ter", diz Oldenbrock.

"Pillion" é um caso particular, pois não passou por festivais brasileiros. Não faltaram chances —a Mostra de São Paulo e o MixBrasil, voltado à cultura LGBTQIA+, tentaram incluir o filme em suas seleções. Como estratégia, diz a Diamond, nenhum de seus lançamentos participou de eventos nacionais no ano passado.

Para o diretor do MixBrasil, André Fischer, filmes queer não enfrentam dificuldades de distribuição. Para ele, recentemente, distribuidoras têm se esquivado de festivais para evitar críticas negativas que eventualmente atrapalhem o lançamento comercial de seus títulos.

Nesse sentido, a má recepção de "Alpha" —longa de Julia Ducournau que metaforiza a Aids—, no Festival de Cannes, em maio do ano passado, é um possível motivo para o filme só ter sido lançado por aqui no início deste mês.

Outros profissionais consultados pela reportagem, porém, dizem que exibidores não acreditam que filmes sobre questões como gênero, raça e orientação sexual atraiam muito público no país.

A falta de indicações de "Pillion" ao Oscar também influenciou a Diamond. A expectativa era que o longa repetisse o efeito de "Conclave", que estreou em fevereiro do ano passado no país e somou 23 mil sessões, quatro meses após a estreia americana.

Grandes estúdios seguem a mesma lógica, como mostra o oscarizado "Anora". Originalmente previsto para 2024, a Universal adiou a estreia brasileira para 2025, em data posterior ao anúncio dos indicados. Por aqui, o filme arrecadou quase US$ 35 milhões.

Agora, a Diamond enfrenta dilemas parecidos com "Fjord", vencedor da última Palma de Ouro, e "I Love Rocky", longa sobre Sylvester Stallone que chega aos Estados Unidos em novembro.

"Posso apelar ao público que espera esses filmes e surfar no período anterior às indicações, ou frustrar o pessoal, talvez perdê-lo para a pirataria, mas projetar esses títulos com possíveis nomeações", diz Pagin.

Desde a pandemia, a distância entre a estreia nos cinemas e o lançamento no streaming diminuiu. Lá fora, "Pillion" chegou ao aluguel um mês depois de lançado nas salas.

Falando de produções nacionais, "Ainda Estou Aqui" e "O Agente Secreto" ficaram vários meses em cartaz antes de chegar ao streaming. No caso do filme com Wagner Moura, a produção criou expectativa após ser premiado em Cannes, em maio do ano passado, saiu-se bem na estreia em novembro e foi ainda impulsionado pelas indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro.

Gerente de lançamento da Vitrine Filmes, que distribuiu o longa, Bernardo Lessa afirma que a falta de grandes adversários também pautou a escolha daquele mês.

Os dois trabalhos, porém, são uma exceção num mar de produções nacionais independentes que demoram a chegar ao circuito e, quando chegam, são praticamente ignoradas.

Segundo dados da Comscore, quase 60% das semanas de 2025 tiveram cinco ou mais estreias nacionais. Mais da metade das duas centenas de filmes nacionais lançados, porém, não atraiu sequer mil espectadores, de acordo com o Filme B.

Em paralelo, só neste ano, mais de 150 projetos foram aprovados pelo Edital de Comercialização em Cinema, que determina que os títulos sejam lançados dentro dos 12 meses seguintes.

Embora o público tenha crescido desde a pandemia, outro desafio é a concentração de títulos nacionais em dias de semana e em horários pouco frequentados, antes das 17h.

Uma reportagem da Folha mostrou como "Zuzubalândia: O Filme", uma animação de 2024, voltou às salas da Cinemark no ano passado e, até maio deste ano, teve milhares de sessões pela manhã, com média de 0,1 espectador por exibição. A prioridade dada ao desenho serviu para cumprir a Cota de Tela, que obriga a reserva de parte da programação para obras nacionais, e evidenciou fragilidades da política pública.

"Precisamos incentivar a volta dos brasileiros às salas", afirma Lessa. "Devemos investir na formação de plateia desde a escola, em ingressos populares, no acesso em cidades sem cinema. Sem público, não há como alocar a produção."

Compartilhar:

Comentários (0)

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro!