Chips em crise e empresas com medo
Uma nova fábrica demora de dois a três anos para ficar pronta, e a oferta pode seguir apertada para além de 2028
Se você costuma alugar carros, já deve ter dirigido veículos novos, mas com equipamentos multimídia antigos. São criaturas da crise dos chips, que abalou o mercado em 2021.
À época, incêndios em fábricas de semicondutores coincidiram com a explosão da demanda por eletrônicos. Computadores e celulares encareceram. Chassis ficaram parados nas montadoras, que recorreram a adaptações para entregar os veículos.
Agora, um relatório do Deutsche Bank aponta um novo capítulo dessa história, provocado pela corrida da inteligência artificial. O gargalo está nos chips de memória. As fabricantes estão direcionando mais capacidade para a HBM, memória de alta velocidade usada em data centers, cuja produção exige cerca de três vezes mais silício do que a memória convencional.
Quanto mais a indústria atende aos projetos de IA, menos capacidade sobra para computadores, celulares e carros. Uma nova fábrica demora de dois a três anos para ficar pronta, e a oferta pode seguir apertada além de 2028.
Nos Estados Unidos, os preços ao produtor de componentes eletrônicos subiram 26,9% em maio, ante 5,9% em janeiro. O Deutsche Bank chama esse efeito de "imposto inflacionário da memória", onde o consumidor ajuda a pagar pela corrida da IA ao comprar um computador, celular ou carro.
A crise também explica a volatilidade das bolsas asiáticas. As coreanas Samsung e SK Hynix respondem por quase 70% da produção de DRAM, a memória que guarda temporariamente os dados necessários para computadores, celulares, servidores e carros funcionarem. Quando a demanda por IA cresce, a Coreia do Sul se beneficia. Quando surgem dúvidas, essa concentração joga contra o país.
Nesta sexta-feira (26), o índice Kospi (Ibovespa coreano) caiu mais de 8% e acionou um circuit breaker, mecanismo que suspende as negociações para conter o pânico. As fabricantes de chips ficaram no centro das vendas.
Mas a incerteza não está restrita às bolsas. Juros elevados pressionam as contas, enquanto a revolução produtiva prometida pela IA exige investimentos pesados. Ninguém sabe quanto gastar, onde cortar, quais projetos darão retorno e em quanto tempo.
É nesse ambiente que as companhias passaram a buscar executivos financeiros mais experientes. Pesquisa da Russell Reynolds, publicada pelo Monitor do Mercado, mostra que a rotatividade de CFOs atingiu em 2025 o maior nível da série histórica: 10% acima de 2024 e 12% acima da média dos sete anos anteriores.
No Brasil, cerca de 40% das posições mudaram de mãos. Enquanto 57% dos nomeados no mundo assumiram seu primeiro mandato, a procura por profissionais experientes cresceu 7,5%, também um recorde. No Brasil, 65% dos novos CFOs já haviam ocupado a cadeira.
O recado dos conselhos parece claro. Em meio a investimentos bilionários, custos crescentes e cortes, há menos espaço para aprendizado. As empresas querem profissionais capazes de decidir sob pressão, preservar caixa e explicar quando a promessa da IA produzirá lucro.
A inteligência artificial segue como promessa econômica desta geração e a crise da memória mostra que ela já cobra um preço, antes de entregar crescimento amplo ou segurança.
Os estragos da volatilidade nas bolsas asiáticas e a onda de mudanças nos times das empresas podem ser mais relevantes para o mercado brasileiro do que o ruído eleitoral.