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Economia

Chips em crise e empresas com medo

Uma nova fábrica demora de dois a três anos para ficar pronta, e a oferta pode seguir apertada para além de 2028

28/06/2026 22:00 Folha Mercado 0 visualizações há 14 dias
Chips em crise e empresas com medo

Se você costuma alugar carros, já deve ter dirigido veículos novos, mas com equipamentos multimídia antigos. São criaturas da crise dos chips, que abalou o mercado em 2021.

À época, incêndios em fábricas de semicondutores coincidiram com a explosão da demanda por eletrônicos. Computadores e celulares encareceram. Chassis ficaram parados nas montadoras, que recorreram a adaptações para entregar os veículos.

Agora, um relatório do Deutsche Bank aponta um novo capítulo dessa história, provocado pela corrida da inteligência artificial. O gargalo está nos chips de memória. As fabricantes estão direcionando mais capacidade para a HBM, memória de alta velocidade usada em data centers, cuja produção exige cerca de três vezes mais silício do que a memória convencional.

Quanto mais a indústria atende aos projetos de IA, menos capacidade sobra para computadores, celulares e carros. Uma nova fábrica demora de dois a três anos para ficar pronta, e a oferta pode seguir apertada além de 2028.

Nos Estados Unidos, os preços ao produtor de componentes eletrônicos subiram 26,9% em maio, ante 5,9% em janeiro. O Deutsche Bank chama esse efeito de "imposto inflacionário da memória", onde o consumidor ajuda a pagar pela corrida da IA ao comprar um computador, celular ou carro.

A crise também explica a volatilidade das bolsas asiáticas. As coreanas Samsung e SK Hynix respondem por quase 70% da produção de DRAM, a memória que guarda temporariamente os dados necessários para computadores, celulares, servidores e carros funcionarem. Quando a demanda por IA cresce, a Coreia do Sul se beneficia. Quando surgem dúvidas, essa concentração joga contra o país.

Nesta sexta-feira (26), o índice Kospi (Ibovespa coreano) caiu mais de 8% e acionou um circuit breaker, mecanismo que suspende as negociações para conter o pânico. As fabricantes de chips ficaram no centro das vendas.

Mas a incerteza não está restrita às bolsas. Juros elevados pressionam as contas, enquanto a revolução produtiva prometida pela IA exige investimentos pesados. Ninguém sabe quanto gastar, onde cortar, quais projetos darão retorno e em quanto tempo.

É nesse ambiente que as companhias passaram a buscar executivos financeiros mais experientes. Pesquisa da Russell Reynolds, publicada pelo Monitor do Mercado, mostra que a rotatividade de CFOs atingiu em 2025 o maior nível da série histórica: 10% acima de 2024 e 12% acima da média dos sete anos anteriores.

No Brasil, cerca de 40% das posições mudaram de mãos. Enquanto 57% dos nomeados no mundo assumiram seu primeiro mandato, a procura por profissionais experientes cresceu 7,5%, também um recorde. No Brasil, 65% dos novos CFOs já haviam ocupado a cadeira.

O recado dos conselhos parece claro. Em meio a investimentos bilionários, custos crescentes e cortes, há menos espaço para aprendizado. As empresas querem profissionais capazes de decidir sob pressão, preservar caixa e explicar quando a promessa da IA produzirá lucro.

A inteligência artificial segue como promessa econômica desta geração e a crise da memória mostra que ela já cobra um preço, antes de entregar crescimento amplo ou segurança.

Os estragos da volatilidade nas bolsas asiáticas e a onda de mudanças nos times das empresas podem ser mais relevantes para o mercado brasileiro do que o ruído eleitoral.

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