China amplia produção de baterias no exterior diante de barreiras comerciais
CATL, BYD e outras fabricantes ampliam fábricas fora da China
Xangai e Londres |Financial Times Empresas chinesas estão construindo uma cadeia global de fornecimento de baterias fora de seu mercado doméstico, enquanto países ocidentais adotam medidas para se proteger de uma enxurrada de materiais, componentes e células acabadas produzidos na China.
Na última década, gigantes mundiais do setor de baterias —entre eles CATL, BYD, Gotion, CALB e Sungrow— e seus fornecedores investiram bilhões de dólares em operações na China, ampliando sua escala e aperfeiçoando suas tecnologias de fabricação.
Esses fabricantes conseguem construir uma gigafábrica —termo usado pelo setor para designar instalações que produzem células destinadas a veículos elétricos, centros de armazenamento de dados para inteligência artificial e sistemas de reserva para redes elétricas— na China por cerca de um terço do custo e em um terço do tempo necessários para erguer uma instalação equivalente na Europa.
Apesar dessas vantagens, grupos chineses do setor concluíram que a opinião pública e a orientação política global se voltaram para o protecionismo e a produção local, possivelmente de forma permanente, segundo executivos do setor, analistas e autoridades de governos estrangeiros. Essa avaliação está levando as empresas a acelerar a criação de uma cadeia completa de fornecimento de baterias fora da China.
Empresas chinesas anunciaram investimentos de US$ 12 bilhões (R$ 60,34 bilhões) em 14 operações fora do país neste ano, segundo dados da Climate Energy Finance, grupo de pesquisa sediado em Sydney. Com isso, o total investido desde 2023 se aproxima de US$ 90 bilhões (R$ 452,5 bilhões) — dos quais US$ 52 bilhões (R$ 261,4 bilhões) foram destinados à fabricação de células e US$ 38 bilhões (R$ 191,1 bilhões) à produção de materiais.
A Europa está entre as principais regiões visadas pelas empresas chinesas, com investimentos em células e materiais que somam US$ 31,5 bilhões (R$ 158,4 bilhões) desde 2023. O valor fica atrás apenas dos US$ 35,2 bilhões (R$ 176,9 bilhões) investidos no Sudeste Asiático no mesmo período.
No exemplo mais recente, a Gotion anunciou, no fim de setembro, que investirá mais de 1 bilhão de euros (R$ 5,66 bilhões) em uma joint venture com a Volkswagen para produzir baterias na Espanha, na Eslováquia e no Marrocos.
Nas últimas semanas, a Europa parece ter endurecido sua oposição às exportações chinesas de tecnologia, pressionando Pequim a reduzir os embarques de veículos elétricos híbridos e ameaçando adotar novas medidas de retaliação.
Zhu Lingbo, diretor de tecnologia da unidade de negócios internacionais da CATL, maior fabricante de baterias do mundo, afirmou que a tendência já era evidente antes mesmo da conclusão das novas regras europeias de produção local, que entrarão em vigor no próximo ano.
"Independentemente do que a regulamentação determinar, a CATL precisa localizar a produção dos principais componentes", disse Zhu em entrevista na sede do grupo, em Ningde. Ele acrescentou que a empresa procura novos locais para fábricas e mantém conversas com governos de toda a Europa, com o objetivo de ampliar sua presença atual na Alemanha, na Hungria e na Espanha.
Bruxelas quer que o bloco tenha uma cadeia de fornecimento de baterias inteiramente localizada na região até o fim da década. A Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis, porém, alertou que será necessário mais tempo, devido à falta de conhecimento tecnológico, de materiais para baterias e de competitividade de preços.
Na fábrica da CATL na Alemanha, pouco menos da metade dos componentes utilizados é adquirida na Europa, incluindo alguns materiais para cátodos. As baterias produzidas na unidade abastecem a Porsche e a Audi. Com o aumento da demanda por veículos elétricos, porém, encontrar fornecedores locais tende a ficar mais difícil.
"Ainda precisamos pensar em como ampliar a escala", afirmou Matt Shen, diretor-geral da CATL para a Europa. Segundo ele, também há dúvidas sobre como controlar os custos e gerar lucro. "Normalmente, não se deveria comprar tudo de fora da Europa para produzir aqui —isso não é economicamente viável."
A velocidade com que as empresas chinesas conseguirão localizar suas operações em mercados estrangeiros também dependerá de Pequim, afirmou Simon Engelke, fundador da Battery Associates, consultoria sediada em Dublin. "Investir no exterior e transferir as tecnologias mais recentes de baterias exigem, ambos, aprovação oficial", acrescentou.
Os investimentos também correm o risco de entrar na mira de reguladores estrangeiros. Governos têm intensificado o escrutínio sobre aportes chineses.
Em março, por exemplo, o Reino Unido impediu que produtos da fabricante chinesa de turbinas Ming Yang fossem utilizados em parques eólicos offshore, alegando riscos à segurança nacional. No início deste mês, a Alemanha bloqueou a aquisição de um grupo de logística chinês que atua em seu maior porto marítimo.
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Carregando...A dimensão dos investimentos chineses levanta o temor de que o país mantenha seu domínio sobre as cadeias de fornecimento essenciais aos sistemas de eletricidade, transporte e inteligência artificial do futuro.
Cada vez mais, empresas como a CATL também pressionam seus próprios fornecedores chineses a investir em novas fábricas no exterior. Isso complica os esforços liderados pelos Estados Unidos para desvincular as economias de outros países de uma dependência excessiva da China e de empresas controladas por chineses.
Jiayue Zheng, analista da cadeia de fornecimento de armazenamento de energia da Wood Mackenzie, sediada em Xangai, observou que diversos novos participantes do mercado —entre eles a sueca Northvolt, que fracassou— vêm tentando desafiar o domínio chinês, mas enfrentam a perspectiva de investimentos "enormes", com prazos de retorno muito longos.
"Mesmo que saibam fabricar uma bateria, produzir 100 GWh é algo completamente diferente. Ampliar as cadeias de fornecimento e a fabricação é realmente um desafio", afirmou, referindo-se à capacidade das maiores fábricas de baterias do mundo, em construção na China. "Quem vai construir uma capacidade desse porte? Eu diria que continuarão sendo os fabricantes chineses."
Dados da Wood Mackenzie mostram que, nos quatro principais componentes das baterias, a participação dos grupos chineses na produção supera 80%. As projeções da consultoria também indicam que a fatia de mercado das empresas chinesas nesses componentes terá mudado pouco até 2034, apesar da transferência de parte da produção para outros países.
Duo Fu, analista de baterias na China da consultoria Rystad, afirmou que a desaceleração do crescimento no mercado chinês também impulsiona a expansão internacional. Atualmente, há excesso de capacidade de fabricação de baterias para veículos elétricos e armazenamento de energia em relação às projeções de demanda para o curto prazo.
"Elas precisam sobreviver, precisam ir para o exterior", disse.
As ações da CATL caíram mais de 8% em Shenzhen na quinta-feira (15), depois que os resultados do terceiro trimestre ficaram abaixo das previsões. Com isso, os papéis acumulam uma queda de quase 50% desde o início de junho.
Enquanto tentam desenvolver uma cadeia de fornecimento de baterias fora da China, as empresas chinesas continuam exportando o máximo possível a partir de suas fábricas domésticas.
Na maior unidade de produção da Sungrow, em Hefei, no leste da China, cerca de 90 contêineres carregados com sistemas de baterias, que podem pesar até 40 toneladas, saem diariamente das linhas de produção. Muitos têm como destino mercados estrangeiros.
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Carregando...Zhuang Cai, executivo da divisão de armazenamento de energia da Sungrow, afirmou que a fabricante chinesa já conversou com grandes empresas americanas de inteligência artificial sobre a possibilidade de fornecer sistemas de baterias em meio à corrida para construir data centers voltados à tecnologia.
"Esta é uma ótima oportunidade para participarmos com eles desde a fase inicial de implantação", disse Cai ao Financial Times, referindo-se à expansão dos data centers de IA.
Ele observou que a Sungrow opera fábricas na Tailândia e na Índia e está construindo outra na Polônia. Isso permite à empresa "atender" a pedidos de baterias fabricadas fora da China.
Embora as empresas chinesas possam expandir suas cadeias de fornecimento na Europa e em partes do mundo em desenvolvimento, alguns analistas afirmam que o acesso aos Estados Unidos —um mercado potencial gigantesco— continua incerto. Além das tarifas elevadas, os fabricantes chineses de baterias enfrentam a ameaça de proibições, em meio a temores de que equipamentos produzidos na China representem riscos de espionagem e segurança.
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Tim Bush, analista do setor de baterias do banco UBS sediado em Hong Kong, avalia que, ao menos nos Estados Unidos, o movimento de "desacoplamento da China" está "apenas se acelerando".
"Depender integralmente da China para o fornecimento de baterias e equipamentos elétricos é tão inaceitável quanto depender totalmente do petróleo da Arábia Saudita ou do Oriente Médio era há 20 ou 30 anos", afirmou.
"Se você depende de empresas chinesas para sua cadeia de fornecimento de data centers, armazenamento de energia, sistemas de armazenamento em escala de rede elétrica, baterias para veículos elétricos ou acordos de licenciamento, está assumindo esse risco por sua própria conta."
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