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Cade mira Live Nation e Ticketmaster por venda casada em shows

OUTRO LADO: Live Nation diz que indústria de entretenimento ao vivo no Brasil é

13/06/2026 12:52 Guilherme Pimenta Folha Mercado 0 visualizações há 7 horas
Cade mira Live Nation e Ticketmaster por venda casada em shows

O Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) mira a atuação da Live Nation no mercado brasileiro de shows após receber uma denúncia que acusa a empresa de supostas práticas anticompetitivas com eventual fechamento de mercado e prejuízo aos concorrentes na produção de eventos e comercialização de ingressos.

Ainda não há investigação formal aberta, mas a representação anônima está sob análise da Superintendência-Geral do órgão, que poderá decidir pela abertura das investigações. A empresa é investigada pelas mesmas práticas por autoridades internacionais de defesa da concorrência, o que pode reforçar a possibilidade de o Cade abrir uma investigação formal.

A representação, obtida pela Folha e agora analisada pelos técnicos do órgão, sustenta que a Live Nation teria construído uma estrutura verticalizada que reúne, sob o mesmo grupo econômico, a promoção de grandes shows, a venda de ingressos por meio da Ticketmaster e contratos considerados estratégicos com arenas, estádios e festivais.

Procurada para comentar, a Live Nation informou em nota que "a indústria de entretenimento ao vivo no Brasil é altamente competitiva".

"Artistas, espaços e organizadores de eventos têm ampla liberdade para escolher seus parceiros. A Live Nation está comprometida em continuar investindo no Brasil para ampliar o acesso ao entretenimento ao vivo e aprimorar a experiência de artistas, fãs, assim como de arenas e casas de espetáculo", afirmou.

Segundo a representação, todos os eventos promovidos pelo grupo no Brasil têm ingressos vendidos exclusivamente pela Ticketmaster, sem concorrência entre plataformas que atuam nesse segmento.

A prática é descrita pelos denunciantes como uma forma de venda casada, ao vincular a produção e promoção dos shows ao uso obrigatório do sistema de bilheteria do grupo. Os reclamantes são competidores da empresa e não são identificados.

A denúncia diz que a prática de verticalizar a operação permitiu a cobrança de taxas de conveniência de até 20%, o que teria elevado o custo final dos ingressos em até 40% em comparação com um cenário de maior concorrência.

Caso o processo tenha andamento, o Cade poderia, no limite, aplicar multa à empresa e determinar o encerramento de práticas que sejam consideradas anticompetitivas. Um acordo também pode ser firmado com o órgão, no qual a empresa se comprometeria a encerrar, por conta própria, práticas investigadas.

A peça diz que a empresa ampliou seu poder de mercado por meio de contratos de longo prazo com alguns dos principais espaços para shows do país. Entre os exemplos citados estão o MorumBIS, que pertence ao São Paulo Futebol Clube, onde a Live Nation possui acordo de exclusividade até 2031. São citados também contratos de preferência com o Nubank Parque, do Palmeiras, e o controle da empresa na Rock World, responsável por festivais como Rock in Rio, The Town e Lollapalooza Brasil.

O controle ou a influência sobre esses espaços criaria barreiras para produtoras concorrentes interessadas em trazer grandes turnês internacionais ao país. O argumento central é que o mercado brasileiro contempla um número limitado de arenas e estádios com capacidade e infraestrutura adequadas para receber artistas globais de grande porte e que os contratos de exclusividade barram os competidores.

A denúncia cita ainda a aquisição da BaladAPP pela Ticketmaster, aprovada pelo Cade em 2025, e negociações envolvendo a produtora 30e e a Diverti, que promove eventos sertanejos, como parte de uma estratégia mais ampla de expansão e consolidação do grupo no país.

Os autores afirmam que a combinação entre promoção de eventos, controle de espaços para apresentações e venda de ingressos cria um mecanismo de retroalimentação, que seria capaz de reforçar continuamente a posição da empresa. A lógica, segundo a representação, é que o acesso a grandes artistas fortalece a relação com arenas e estádios, o que por sua vez amplia o poder da Ticketmaster e dificulta a entrada de concorrentes.

A denúncia busca respaldo em investigações e processos conduzidos em outros países. Nos Estados Unidos, a Live Nation e a Ticketmaster foram alvo de ação antitruste movida pelo DOJ (Departamento de Justiça americano). A empresa foi acusada de supostamente utilizar sua presença simultânea nos mercados de promoção de shows, gerenciamento de locais de eventos e venda de ingressos para preservar seu poder de dominância no mercado.

Nos EUA, a empresa decidiu firmar acordos, abrindo a plataforma de venda de ingressos para os concorrentes e permitindo que outras empresas atuassem nos espaços da Live Nation. Também houve o pagamento de multas em processos que tramitam em alguns estados.

O documento cita ainda o Reino Unido. Em maio, o Comitê de Negócios e Comércio da Câmara dos Comuns recomendou que a autoridade britânica de concorrência realize até o fim de 2026 uma ampla investigação sobre o mercado de música ao vivo. O relatório recomenda atenção especial ao comportamento e à atuação do grupo durante a eventual investigação.

A tramitação no Cade prevê que a denúncia possa se converter em um procedimento preparatório, etapa preliminar utilizada quando os indícios ainda precisam ser melhor compreendidos. Nessa fase, os técnicos podem solicitar documentos, informações e esclarecimentos às empresas envolvidas e a outros agentes do mercado para avaliar se existem elementos que justifiquem o aprofundamento da apuração.

Caso a área técnica entenda que há indícios consistentes de infração à ordem econômica, poderá instaurar um inquérito administrativo. Trata-se de uma investigação mais robusta, com coleta sistemática de provas, requisição de contratos, análise de dados de mercado e manifestações das partes envolvidas.

O objetivo é verificar se os fatos narrados na denúncia possuem fundamento suficiente para justificar a abertura de uma investigação formal. Já o inquérito administrativo representa o início de uma apuração concorrencial propriamente dita.

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