Busca por propósito na vida pode gerar ansiedade; saiba como lidar
Especialistas explicam por que a pressão para encontrar sentido na vida pode provocar angústia
Ellen Hendriksen, psicóloga clínica em Boston, conversa com frequência com pacientes que se sentem ansiosos em relação ao rumo de suas vidas.
Alguns cursaram medicina porque era o que seus pais esperavam deles, "e, por isso, se sentiam infelizes", diz ela. Outros se esforçaram muito para chegar ao topo de suas áreas, apenas para se perguntarem: "Para que serviu tudo isso?".
O que eles não percebiam era que cada um enfrentava dificuldades para encontrar um propósito de vida —algo que às vezes é chamado de "ansiedade de propósito".
O propósito é uma das principais formas pelas quais atribuímos sentido à nossa vida. Uma vez estabelecido, "ele se torna a estrutura arquitetônica, a planta que orienta como organizar sua vida", diz Todd Kashdan, professor de psicologia da Universidade George Mason, que estuda como as pessoas buscam e vivem seu propósito.
Ele também traz diversos benefícios. Ter um senso de propósito está associado a uma saúde física melhor, níveis mais elevados de felicidade e satisfação com a vida, níveis mais baixos de depressão e ansiedade e até mesmo maior longevidade.
Felizmente, segundo especialistas, há maneiras de descobrir seu propósito sem entrar em uma espiral de angústia.
O que é propósito e por que ele provoca ansiedade?
A expressão "ansiedade de propósito" não é muito usada na psicologia, mas o conceito é conhecido tanto por pesquisadores quanto por profissionais da área clínica. A expressão parece ter sido criada em 2014 por um estudante de pós-graduação em psicologia que pesquisava o tema e concluiu que a maioria das pessoas anseia por um senso de propósito na vida, mas "quase sempre enfrenta ansiedade de propósito durante o processo de busca, independentemente da idade de quem procura".
Às vezes, essa ansiedade decorre de ideias equivocadas sobre o que o propósito realmente é e sobre o papel que ele desempenha em nossa vida, disse Kashdan.
Em primeiro lugar, as pessoas costumam pensar no propósito como algo que beneficia apenas a elas próprias. Mas os maiores ganhos psicológicos vêm da busca por um propósito que também beneficie os outros.
Em segundo lugar, algumas pessoas presumem que ter um propósito exige um objetivo grandioso, como alcançar um alto cargo de liderança ou encontrar a cura para uma doença.
Essa suposição "pode deixar as pessoas realmente ansiosas, como se pensassem: ‘Ah, como é que algum dia vou conseguir chegar a esse patamar ou atingir esse nível?’", afirma Patrick Hill, professor de ciências psicológicas e do cérebro na Universidade Washington em St. Louis, que estuda o propósito há mais de uma década.
Mas seu propósito pode ser menor e menos ambicioso, dizem os especialistas. Ele também pode mudar ao longo da vida, e você pode ter mais de um propósito ao mesmo tempo.
Na última década, Daryl Van Tongeren, professor de psicologia do Hope College, em Holland, Michigan, encontrou propósito em plantar sementes de pimenta, cuidar de seus caules delicados e depois colhê-las para fazer molho picante para familiares e amigos.
É algo diferente de seu trabalho habitual e uma maneira divertida de se conectar com as pessoas que ama.
As pesquisas de Van Tongeren constataram que agir de modo a beneficiar os outros pode aumentar o sentido da vida. "Isso melhora nossos relacionamentos, e os relacionamentos são a fonte mais segura de sentido", disse ele.
Como descobrir o que faz você se sentir vivo?
Encontrar um propósito pode ser difícil. Uma pesquisa com mais de 2.400 integrantes da geração Z, publicada em junho, constatou que cerca de 45% dos entrevistados relataram falta de sentido ou propósito na vida.
Se você se sente sem rumo, há algumas abordagens que pode adotar.
Uma delas é buscar ativamente um propósito, diz Kashdan, experimentando diferentes atividades, lendo sobre assuntos que despertam seu interesse e prestando atenção ao que faz você se sentir vivo. Isso também exige períodos de reflexão para identificar quais experiências pareceram mais significativas e por quê.
Outra forma de encontrar um propósito é buscar inspiração em um acontecimento transformador, afirma Kashdan. Por exemplo, um atleta que sofreu uma lesão e foi obrigado a se aposentar pode encontrar um novo propósito em ajudar outras pessoas a recuperar o corpo e decidir se tornar fisioterapeuta.
Tasha Edwards, de 51 anos, que mora em Madison, Alabama, encontrou propósito ao dar aulas de exercícios e atuar como orientadora de saúde, sobretudo para pessoas de baixa renda, que muitas vezes vivem estressadas e sobrecarregadas.
Edwards, que cresceu em um conjunto habitacional popular, sabia como era enfrentar dificuldades financeiras e ver a saúde cair para o fim da lista de prioridades. Ela queria ajudar seus clientes a encontrar "algum senso de controle quando sentiam que não tinham nada", acrescenta, em vez de apenas dizer às pessoas quantas flexões deveriam fazer.
Kashdan recomenda algo chamado "aprendizagem social", que consiste em observar e depois imitar o bom comportamento de outras pessoas. Ou, como alternativa, prestar atenção quando outras pessoas despertam repulsa moral ou irritação, o que pode ensinar quem você não quer ser, acrescenta.
"Quanto maior sua curiosidade, quanto mais perguntas você fizer e quanto mais comparar a maneira como essas pessoas vivem com aquilo que considera ideal para si, mais energia e motivação surgirão para experimentar essa vida por conta própria", diz Kashdan.
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