Brasil vive primeira eleição do 'precariado', diz economista britânico
Para economista britânico, parte dessa nova classe social é atraída pela direita e começa a expressar seu peso político nesta eleição brasileira
Há 15 anos, o economista britânico Guy Standing lançou o livro "O Precariado: A Nova Classe Perigosa", popularizando o conceito de um novo segmento social que ganhava força com o avanço da flexibilização das relações de trabalho.
Como diz o nome, esse "proletariado precário" viveria sob constante insegurança econômica, com direitos trabalhistas e previdenciários frágeis e poucas perspectivas de futuro. Standing também alertou no livro que o crescimento dessa nova classe nos anos seguintes poderia provocar profundas mudanças políticas, inclusive apoiar a ascensão de movimentos extremistas.
"Infelizmente, meu alerta, ou previsão, se concretizou", afirmou Standing à Folha, tomando como exemplo dessa tendência política a eleição de Donald Trump em 2016.
Na avaliação do pesquisador, a atuação do precariado se globaliza e mostra sua força também nas eleições brasileiras deste ano.
"O Brasil é um caso extraordinário. Infelizmente, eu chamaria a sua atual eleição presidencial de a primeira eleição do precariado, porque ela está sendo decidida por essa nova estrutura de classes." Leia a seguir os principais trechos da entrevista.
No Brasil, tentamos entender se há alguma relação entre as mudanças sociais e a ascensão da direita. Mas, antes de discutirmos isso, até para o leitor compreender o conceito, quais transformações levaram o sr. a identificar, lá atrás, o surgimento do precariado?
A percepção de que o precariado estava surgindo como a nova classe de massa veio quando a revolução econômica neoliberal dos anos 1980 começou a produzir muito mais desigualdade e insegurança, especialmente quando a direita política e os economistas convencionais passaram a defender o que se chamava de flexibilidade do mercado de trabalho, revertendo as proteções aos trabalhadores e tornando a política social menos universalista.
O que me deixava triste e indignado naquela época era que a velha esquerda, incluindo os partidos social-democratas e trabalhistas, não compreendia nem se importava com o precariado emergente. Não conseguira perceber que ele era potencialmente uma classe transformadora. Escolheram seguir o que se chamava de terceira via. Aceitaram o modelo econômico neoliberal, enquanto esperavam atenuar seus efeitos negativos com mais políticas de bem-estar social baseadas no Estado.
Como era previsível, o neoliberalismo produziu o que chamei de capitalismo rentista, no qual uma parcela cada vez maior da renda, do status e do poder vai para os proprietários de bens —propriedade financeira, intelectual e física—, enquanto uma parcela cada vez menor da renda vai para aqueles que dependem do trabalho. Assim, o precariado foi perdendo renda real.
Infelizmente, esse caminho também foi seguido no Brasil, assim como nos Estados Unidos, pelos democratas, e no Reino Unido, pelo Novo Trabalhismo.
Passados 15 anos, o conceito não mudou?
Desde a publicação da primeira edição do meu livro, em 2011, o precariado passou de uma classe em formação para uma classe mais consciente de si mesma, e deve ser visto dentro de uma estrutura fragmentada: todas as classes situadas acima dele são rentistas, beneficiando-se da propriedade privada e desvinculadas do Estado social.
Mas o que é o precariado? Ele pode ser compreendido em três dimensões. Primeiro, possui relações de produção distintas —padrões de trabalho e emprego. Está sendo habituado a aceitar trabalho instável e inseguro, mesmo sendo, de maneira inédita, a primeira classe trabalhadora de massa cujo nível médio de escolaridade é superior ao exigido pelos empregos que ocupam.
Além disso, precisa realizar tarefas não remuneradas impostas pelo Estado, o que é uma fonte de ressentimento [literalmente, trabalhar para o Estado, como perder tempo em filas, com formulários e outras exigências para obter benefícios ou serviços públicos].
Segundo, o precariado precisa depender quase inteiramente de salários em dinheiro, sem acesso a benefícios não salariais ou estatais garantidos por direitos. Como argumentei em meus livros recentes, o precariado perdeu o acesso aos bens comuns, que historicamente foram dos pobres. Essa é mais uma fonte de ressentimento contra o Estado.
Esta também é a primeira classe de massa a ser sistematicamente explorada pelo endividamento, refletindo a financeirização da sociedade e a estagnação dos salários reais. O endividamento crônico também é uma fonte de ressentimento contra a velha esquerda, porque, sob a gestão de governos de esquerda, a financeirização se tornou dominante. A dívida sufoca a esperança de que a vida vá melhorar sob o atual regime político.
Terceiro, o precariado experimenta uma sensação de perda de segurança e de direitos oferecidos pelo Estado. Isso nos leva ao verdadeiro significado da precariedade: os membros dessa classe se sentem quase como mendigos, tendo de pedir favores a proprietários de imóveis, empregadores, escolas, pais e burocratas. A esquerda política oferece uma saída para tudo isso? Na verdade, não.
Mas o precariado ainda é uma classe em formação, dividido internamente. A parcela menos escolarizada, eu chamei de atavistas. Eles olham para trás ou imaginam que o passado era melhor do que o presente e, por isso, dão ouvidos aos populistas que prometem trazer de volta a "grandeza", em torno de noções de família, religião e ultranacionalismo.
Em contraste, a parcela mais escolarizada do precariado, eu chamo de progressistas. Eles foram incentivados a cursar uma faculdade ou universidade com a promessa de um futuro seguro, mas esse futuro não existe. Eles não votarão na extrema direita, mas também não querem preservar o antigo Estado burocrático. Estão procurando uma nova política do paraíso e não a encontram no espectro político.
A disseminação do trabalho por aplicativos faz parte do conceito de precariado?
Os observadores da sociedade, incluindo economistas e jornalistas, precisam ir além da superfície da uberização e das plataformas digitais. Elas fazem parte da história do precariado, mas são apenas parte.
No seu livro, em 2011, o sr. já falava do potencial político do precariado. Há evidências de que tenha contribuído com a ascensão da direita, como estamos vendo recentemente?
Infelizmente, meu alerta, ou previsão, se concretizou. Na página um do livro, alertei que, a menos que as inseguranças e aspirações do precariado fossem compreendidas e traduzidas em uma nova política, veríamos o surgimento de um monstro político. Infelizmente, ele surgiu em 2016, para ser imitado por outros monstros desde então.
O sr. fala de Trump?
Sim. Os atavistas foram mobilizados ali. Clinton [Hillary, candidata do Partido Democrata à Presidência em 2016] chamou os atavistas de deploráveis, e você não conquista "corações e almas" criticando pessoas que, na realidade, foram abandonadas pelo sistema educacional que as formou. Tentei explicar isso no meu novo livro, "Human Capital: The Tragedy of the Education Commons" [Capital Humano: A Tragédia dos Bens Comuns da Educação", livro mais recente que é uma crítica à transformação da educação em instrumento de formação para o mercado de trabalho, em detrimento da formação intelectual, cultural e política dos indivíduos].
O sr. argumenta que endividamento crônico é fonte de ressentimento do precariado, e o endividamento das famílias atingiu níveis recordes no Brasil. Exatamente como isso afeta o comportamento político?
A parte do precariado endividada sabe que um acidente, uma doença ou um erro podem levá-la à miséria e à perda da moradia. A insegurança crônica torna as pessoas intolerantes, desprovidas de empatia. Como destaquei em meu livro "The Politics of Time" ["A Política do Tempo", que discute a desigualdade na gestão do tempo], Aristóteles foi o primeiro a afirmar que a combinação de elevada desigualdade e endividamento generalizado levará a uma tirania.
Em países emergentes como o Brasil, condições precárias e informalidade são características históricas do mercado de trabalho. O conceito de precariado pode ser aplicado no Brasil da mesma forma que aos países desenvolvidos?
Há muito tempo argumento contra a noção de trabalho ou emprego informal. Ela mistura coisas diferentes. Eu gosto de ser informal! Mas, deixando isso de lado, alguém que realiza uma pequena produção ou exerce atividades por conta própria não faz realmente parte do precariado, que se caracteriza pela necessidade de depender do trabalho assalariado.
Em certo sentido, o precariado é o sucessor do antigo proletariado. O precariado experimenta uma perda de direitos sociais —o que os franceses chamam de les droits acquis [direitos adquiridos]— que o proletariado havia conquistado. Mas isso não significa que seus integrantes queiram o antigo modelo.
Constatei que o precariado existe no mundo inteiro. Meu livro foi traduzido para 25 idiomas, e pessoas de todo o mundo me escrevem contando como pertencem a essa classe.
O Brasil é um caso extraordinário. Infelizmente, eu chamaria a sua atual eleição presidencial de a primeira eleição do precariado, porque ela está sendo decidida por essa nova estrutura de classes.
Devido ao capitalismo rentista e à financeirização, as classes superiores —a plutocracia [dos extremamente ricos], a elite [pessoas em cargos de poder] e o salariado [com trabalho seguro]— estão desvinculadas do Estado de bem-estar social baseado no trabalho assalariado e tenderão a apoiar a extrema direita, mesmo que alguns detestem sua vulgaridade e seu núcleo antidemocrático.
No Brasil, vocês têm voto obrigatório, então, a parcela progressista do precariado está ficando em casa.
É uma afirmação contundente descrever a eleição presidencial brasileira de 2026 como a primeira eleição do precariado no país. Por que não 2018, quando o Brasil elegeu Jair Bolsonaro, pai do atual candidato? Acho que 2018 foi, em parte, um reflexo da ascensão do precariado, mas foi dominado principalmente pela indignação com a criminalidade e a corrupção. Em contraste, embora a economia esteja apresentando um desempenho bastante bom, Lula agora está enfrentando dificuldades.
A Grã-Bretanha teve sua primeira eleição desse tipo em maio deste ano, quando os atavistas votaram na extrema direita e os progressistas votaram contra o Partido Trabalhista, principalmente nos Verdes.
Receio que outra presidência de Bolsonaro seguiria, de fato, o modelo de Trump, como eles estão prometendo abertamente.
Nenhuma pessoa sensata pode ser enganada pelo presidente perturbado que está na Casa Branca, que ameaça países com genocídio, apoia o genocídio em curso em Gaza e nos territórios ocupados, supervisiona assassinatos ilegais, captura ilegalmente o presidente de outro país, deleita-se com o espetáculo da transmissão ao vivo de uma execução pública e vulgariza a linguagem com desinformação agressiva quase todos os dias.
A tragédia que está se desenrolando foi ajudada pelo fato de a esquerda da política brasileira ter ficado no passado. Ela não tem conseguido alcançar o precariado. O Bolsa Família foi um grande avanço lá em 2003. Mas era essencial que marcasse um movimento em direção a uma nova sociedade universalista, em vez de consolidar um Estado burocrático e paternalista.
Embora tenha havido experiências fascinantes, a esquerda não avançou no sentido de oferecer segurança básica universal, por meio de uma renda básica. Fez pouco para recuperar os bens comuns, muito menos para introduzir gradualmente a democracia deliberativa ou resgatar o sistema educacional disfuncional que está alimentando a extrema direita, um argumento central do meu livro "Human Capital".
Receio que uma nova guinada para a extrema direita cause danos terríveis aos jovens do precariado. Mas o velho PT não deveria ser responsabilizado por permitir que isso aconteça. Meu bom amigo Eduardo Suplicy, o presidente Lula e seus colegas daquela geração abriram o caminho para sair da escuridão da última onda de ditaduras. Parece injusto culpá-los por não serem a voz do precariado de hoje. Essa voz terá de surgir de dentro das fileiras dos progressistas do próprio precariado. A luta continua.
RAIO-X / Guy Standing
1948, Londres
Nascido na Inglaterra, é economista com doutorado na área pela Universidade de Cambridge. Trabalhou por cerca de 30 anos na OIT (Organização Internacional do Trabalho). É cofundador da Rede Mundial de Renda Básica e foi professor da Escola de Estudos Orientais e Africanos, vinculada à Universidade de Londres, onde hoje atua como pesquisador associado. Autor de ampla pesquisa sobre relações trabalhistas, assina mais de 30 livros, entre eles "O precariado: A Nova Classe Perigosa" (2011), "The Corruption of Capitalism" (2016), "Basic Income" (2017), "The Politics of Time" (2023) e "Human Capital" (2026).
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