Bomba-relógio da nova classe trabalhadora quase estourou nesta eleição
Mobilização política venceu, mas tendências libertárias e autoritárias continuam conquistando corações e mentes
As novas classes aspiracionais são fundamentais para entender o cenário político brasileiro. Elas são a base ascendente da pirâmide. Qualquer mudança de um lado ou de outro impacta as urnas.
Argumentei em artigo na Ilustríssima que o Brasil ia às urnas dividido entre aqueles que viram sua vida melhorar com políticas públicas sustentáveis dos anos lulistas, e aqueles que se ressentem e projetaram seus sonhos em projetos políticos ultraindividualistas e alinhados à extrema direita.
Em uma das minhas últimas pesquisas sobre as aspirações de quem saiu da pobreza por meio de políticas sociais, encontrei uma nova geração que rejeita o extremismo. Em um dos maiores processos de mobilização social já vistos na história do país, essas pessoas lutaram pela democracia nas últimas semanas e levaram seus avós às urnas.
Elas entendem que as aspirações alcançadas são resultado de esforço individual e de políticas públicas combinadas ao longo de gerações. Veem o Estado como aliado nessa trajetória. Sabem que as melhorias vêm com o tempo e não são garantidas. Sem essa memória viva do que significa mobilidade social na prática, não haveria André Janones que pudesse resolver a eleição.
Mas eu ainda quero falar sobre a outra metade da base ascendente da pirâmide social. Aquela que tem aspirações legítimas de ascensão, mas percebe o Estado como ausente nesse projeto. A que votou em Flávio Bolsonaro (PL) ou simplesmente não foi votar por não estar mobilizada. Essas pessoas ainda estarão no centro das disputas ideológicas nos próximos anos.
A força da mobilização política venceu. Mas a transformação da classe trabalhadora continua a avançar rapidamente, com tecnologia alienante, desagregação social e fé na meritocracia vazia. O sonho da prosperidade pelo empreendedorismo e da autonomia também cresce.
Para esses segmentos, há um ecossistema digital gigantesco de coaches e influenciadores de extrema direita que vendem sonhos e valores políticos a esses novos empreendedores e trabalhadores plataformizados.
O Brasil mostrou uma força contra a extrema direita que deve ser copiada em todo o mundo, mas isso não anula o fato de que a subjetividade antidemocrática —com tendências libertárias, conservadoras e autoritárias— continua conquistando corações e mentes, ganhando espaço entre as classes trabalhadoras, ainda que silenciosamente.
Esses grupos continuam representando milhões de pessoas insatisfeitas com o governo, vendo o Estado como inimigo e abraçando narrativas autoritárias e populistas que atendem à sua raiva e aos seus sonhos de ascensão por suposto mérito próprio.
A vitória do fim da escala 6x1 foi uma das maiores conquistas da sociedade brasileira das últimas décadas. Transforma a vida de trabalhadores formais, dá dignidade e liberdade a milhões de trabalhadores. É preciso, agora, que o governo expanda seu olhar para os informais, os autônomos e os aspirantes a empreendedores.
A alternativa mais eficaz, no médio e no longo prazos, é gerar empregos bem-remunerados e gratificantes. Mas há uma multidão autônoma que quer permanecer autônoma. O perdão de dívidas e a ampliação da cobertura de MEIs (microempreendedores individuais), por exemplo, são políticas importantes e merecem ser comunicadas da forma devida.
É preciso também oferecer capacitação empreendedora, por meio de plataformas digitais governamentais, que alcance milhões de pessoas gratuitamente e transmita valores coletivos e democráticos —ao contrário do que recebem milhões de aspirantes a empreendedores, que hoje estão completamente à mercê de influenciadores alinhados à extrema direita, que cobram por cursos que prometem muito e entregam pouco.
Mas, principalmente, diferentes ministérios devem trabalhar juntos, promovendo maior diálogo entre as pastas, para criar sistemas integrados de interesses comuns que atenuem a desproteção dessa nova classe trabalhadora.
É preciso mostrar, de forma mais enfática, a esse novo trabalhador que há um governo atento às suas aspirações e que produz políticas públicas concretas, para além do discurso de raiva e das falsas promessas que coaches de internet tentam vender —e que foram reproduzidas na campanha eleitoral de Flávio Bolsonaro nos debates.
A partir de minhas conversas com diversos segmentos do governo, seria injusto dizer que o governo não tem se preocupado com a transformação da classe trabalhadora, bem como com suas aspirações, sonhos e frustrações.
O PT voltou ao poder após um golpe, uma prisão injusta e um governo bolsonarista, após uma pandemia que devastou o país. Nesse meio-tempo, o Brasil se uberizou, e isso teve efeitos políticos sobre as maiorias. O PT retornou ao poder tentando olhar para esses segmentos e recuperar o tempo perdido. Mas é preciso urgência.
Para uma democracia mais estável, o governo deve priorizar esses segmentos nos próximos quatro anos, para que haja não apenas uma eleição menos sufocante, mas também uma sociedade menos dividida ideologicamente. É preciso atenuar a sanha individualista por meio de mudanças concretas.
Os efeitos da plataformização do trabalho são uma bomba-relógio política que não estourou nessas eleições, mas ensaiou estourar e está sempre prestes a explodir. É preciso, agora, olhar para os trabalhadores informais e autônomos como prioridade e mostrar que o Partido dos Trabalhadores é de todos os trabalhadores. Nos ensinaram os que tomaram as ruas e as redes que a proteção do Estado é o maior antídoto contra a extrema direita.
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