Bleach, Naruto e One Piece: o que foi o "Big Three"?
Durante os anos 2000, três mangás e suas adaptações em anime dominavam o mercado japonês. Bleach, Naruto e One Piece eram forças a serem consideradas, uma tríad
Por Diego Corumba • Editado por Jones Oliveira | 02/11/2026 às 11:30
Durante os anos 2000, três mangás e suas adaptações em anime dominavam o mercado japonês. Bleach, Naruto e One Piece eram forças a serem consideradas, uma tríade sem precedentes em todo o cenário — com uma base colossal de fãs e presença garantida em qualquer evento da comunidade.
Essa indústria já tinha visto febres antes, assim como viu algumas depois, mas o trio carregava “o molho”. Publicadas na Weekly Shonen Jump, as obras eram as mais lidas de todas (mesmo que, naquela época, também estivessem disponíveis histórias como Rurouni Kenshin e Gintama).
Elas não representavam apenas a culminação do que é um “herói shonen”, mas reforçava todos os valores da emblemática revista nipônica. Onde mais você veria lutas épicas, conversão de inimigos para o lado heroico e grupos tão diversos e unidos em prol do “bem”? Em resumo, nada batia de frente com eles.
Conhecidos como o “Big Three”, Bleach, Naruto e One Piece definiram uma época. Tanto para quem lia mangás, quanto para quem assistia animes, eles representavam um fenômeno como nunca houve antes — nem mesmo nos dias atuais. Conheça como ele se formou e seus impactos na cultura global:
No ano de 1995, o mangá de Dragon Ball Z tinha sua história encerrada por Akira Toriyama e deixou um grande vácuo no mercado. Mesmo com o anime em circulação, a revista Weekly Shonen Jump entrou em estado de desespero: quem faria vender volumes agora que Goku tinha partido?
A revista ainda contava com ótimas histórias. Slam Dunk, Rurouni Kenshin (conhecido no Brasil como Samurai X), Detective Conan e Yu-Gi-Oh! até tinham popularidade, mas não a força para estourar a bolha como a obra de Toriyama. Para ter uma ideia, Yu-Gi-Oh! só foi brilhar nos anos 2000, com o card game.
Neste período, Eiichiro Oda apareceu e lançou One Piece em 1997. A publicação foi um estrondo imediato no Japão e ajudou a consolidar a sequência de sucessos que a Weekly Shonen Jump prometia. A jornada de Luffy ganhou um anime apenas em 1999, mas ainda em 1998 os estúdios já brigavam por ele.
Ainda que fosse um fenômeno no mercado nipônico, algumas barreiras o impediam de ser um estouro global. O traço simples do artista era um deles, além do apelo inicial para o bom humor e para uma história construída em cima de uma jornada (e não de batalhas colossais, de escala galáctica).
Na prática, ao menos naquela época, a revista precisava de mais do que um sucesso para não perder espaço. Outros gêneros estavam em ascensão — como o Seinen (com Berserk, Vagabond, Initial D e até Great Teacher Onizuka) e os Shojo (encabeçado por Cardcaptor Sakura e Fruits Basket).
Ou seja, mesmo com uma galinha de ovos de ouro nas mãos, não era o bastante. Ela precisava de mais, o que estabeleceria de vez a sua liderança e impediria uma disputa direta contra a concorrência, que carregava um peso ainda maior. Diante disso, em 1999 surgiu Masashi Kishimoto com Naruto.
O ninja da Vila da Folha Oculta, diferente de Luffy no primeiro momento, teve um forte apelo global logo de cara. Os poderes, lutas, o fato de o ninjutsu ter um aspecto cultural que chama a atenção fora do território japonês e as rivalidades foram um grande destaque sem qualquer esforço maior.
Antes de ter um anime, revistas globais já chamavam a atenção para a sua história e personagens. No Brasil, quem não se lembra de tê-lo conhecido por meio destas publicações? Naquela época que Goku e seus amigos estampavam as bancas e traziam a tiracolo o seu “novo filho” entre os temas em alta.
Não demorou nada para que One Piece e Naruto se tornassem famosos no mundo todo. No ano 2000, um deles já tinha um anime e o outro estava em negociações para ganhar o seu — o que era um sinal extremamente positivo para a Shonen Jump, certo? Errado, caros leitores.
No fim dos anos 1990, o Seinen ganhou uma força absurda. A revista japonesa até tentava abordar isso de certo modo, mas não era o seu estilo. Ela perdia leitores, mesmo com ambas as obras em total ascensão e popularidade.
Além disso, One Piece e Naruto se passavam em um mundo fictício. Quem se lembra dos anos 2000, sabe bem que foi uma geração que buscava o realismo para tudo — nem mesmo o Batman escapou dessa, imagine os mangás.
Famosa por seus universos fantasiosos, como misturar o que vivemos no mundo real com seus maiores elementos? Elementos como luta de espadas, poderes místicos e vilões malignos não se encaixavam nesse conceito. Faltava uma “cola” ali.
A Shonen Jump era 8 ou 80. Ou era urbana demais, ou fantasiosa demais. Não existia um meio-termo. Já existiam histórias mágicas, assim como tramas escolares e com delinquentes. O único que conseguiu se encaixar ali foi Tite Kubo, em 2001, com Bleach.
Com uma mistura de design cool, personagens maduros, uma trama “adulta” sem perder suas raízes jovens e batalhas épicas, também não demorou tanto tempo para ele alcançar uma popularidade similar a Naruto e One Piece.
Não foi a mesma, temos de pontuar, mas era considerável o suficiente para formalizar eles como o “Big Three”. Um destacava uma aventura, outro o estilo ninja com batalhas e o terceiro veio com “samurais modernos” e um toque de filosofia.
Ainda que o público global já tivesse acesso a Dragon Ball Z, Yu-Yu Hakusho, Shurato e Cavaleiros do Zodíaco, não eram todas as animações que chegavam nos demais países. Na virada do milênio, a internet e a globalização mudaram esse fator e tudo se tornou mais acessível ao público.
As pessoas ainda tinham as revistas, mas ia além disso agora. Você via mais animes na TV aberta (TV Globinho e Bom Dia & Cia foram os grandes responsáveis por essa expansão no Brasil), a comunidade crescia ainda mais e vivemos o início dos eventos do gênero, fora do Japão.
De forma mais localizada, o Anime Friends começou justamente nessa época. Em 2003 ele teve a sua primeira edição em São Paulo e com o sucesso, virou uma febre ao redor do país — toda região tinha sua própria reunião da comunidade, onde os fãs se juntavam para celebrar sua paixão.
As bancas de jornal não se limitavam mais a revistas com Goku e Seiya estampados na capa. A Conrad começou a publicar essas histórias oficialmente, seguida pela editora JBC e a Panini nos anos seguintes — o que também fez um imenso sucesso entre o público.
Grande parte das pessoas, nos anos 2000, entrou nesse universo por Bleach, Naruto e One Piece. Ou apenas um deles. Ficaram por terem visto que o mercado não se limitava apenas a eles — em uma época em que Death Note, Fullmetal Alchemist e Yu-Gi-Oh! também entregavam muito conteúdo.
O que o Big Three começou, os demais foram responsáveis por manter dentro da cultura japonesa. Se a década anterior foi uma “Era de Ouro”, essa nova tinha um potencial ainda maior de furar a bolha e construir pilares dentro e fora do cenário oriental. E foi exatamente o que conseguiram fazer.
Mesmo no fim desse período e início dos anos 2010, elas continuaram a dominar a indústria. Alguns começavam e encerravam, mas Bleach, Naruto e One Piece permaneciam intactos e com aventuras cada vez mais ambiciosas.
Masashi Kishimoto tirou seu ninja da infância, para acompanhar os leitores que envelheciam. Eiichiro Oda trazia disputas políticas, que eram grandes questões para os jovens de todo o planeta. Já Tite Kubo reforçava suas tramas com o fim de um arco que fora construído desde o primeiro capítulo da sua obra.
A partir disso, outros começaram a roubar a sua atenção. Quem cresceu com essas histórias, já se cansava destes personagens que duravam mais de 10 anos e o amadurecimento pesava. A Weekly Shonen Jump era uma revista para crianças e adolescentes, mas a longevidade se tornou um problema.
Quem começava One Piece em 1997 com 9 ou 10 anos, já estaria com 22 ou 23 anos em 2010. Os adolescentes desta época, então, nem se diga: as preocupações mudaram drasticamente com trabalhos exaustivos, construção de família, filhos e outros dilemas que todos os adultos possuem. Esse foi o “início do fim”.
A década de 2010 foi bem difícil para estas três obras colossais. Um anime surgiu e tomou todos de assalto: Shingeki no Kyojin (conhecido aqui como Attack on Titan). O seu sucesso foi arrebatador nas bancas e o anime chocou toda a sociedade por sua violência e cenário impiedoso.
Quem cresceu com Bleach, Naruto e One Piece já não ligava mais para erros juvenis, falhas comportamentais e ações sem consequências. Tanto que isso levou a mudanças expressivas nessas histórias, com a promessa de acompanhar o que tinha se tornado tendência entre os fãs.
Em 2010, One Piece aplicou o que Naruto já tinha feito e trouxe um salto temporal. Isso explicaria a mudança de tom que a história passaria a trazer, assim como a promessa de entregar uma rota mais clara para o desfecho de sua trama (que mostrava sinais de cansaço naquela época).
Porém, Naruto precisou de tempo apenas para encerrar a narrativa. Em 2014, vimos o último capítulo da obra e o sonho do ninja se tornar realidade — ele virou adulto, uma pessoa respeitável e amada por todos e um Hokage. Mesmo com uma guerra criticada pelos fãs, seu fim emocionou.
Bleach aplicou tarde o salto temporal e se perdeu no meio disso tudo. Com a saída de Naruto, ele se desestabilizou e nem mesmo um salto temporal deu conta de salvar a queda da popularidade. Após um arco que dividiu opiniões, Tite Kubo teve de acelerar sua conclusão e não terminou em “bons termos” com os fãs.
O único que se manteve em pé foi One Piece. Por quebrar recordes de vendas e de audiência, ele conseguiu passar por essa turbulência ileso e se consolidar com o público global. Tanto que, na década de 2020, ele conseguiu sucesso até mesmo com uma adaptação live-action pela Netflix.
Não é como se Tite Kubo e Masashi Kishimoto tivessem ficado parados desta época para cá. O autor de Bleach emplacou Burn the Witch — um spin-off de sua história — e conseguiu fazer o anime voltar, 12 anos depois que sua exibição também foi cancelada sem contar o fim da história.
Kishimoto encarou desafios mais complexos. Ao auxiliar na produção de Boruto, sequência oficial da sua história, ele viu uma grande resistência dos fãs. Seja pelo caminho narrativo ou por terem revertido muitas coisas estabelecidas em Naruto, tanto o anime quanto o mangá sofreram muitas críticas.
Porém, as coisas mudarão a partir de 2026. Pelo ninja ainda ter um nome e reputação, ele receberá uma adaptação live-action em Hollywood também — supervisionada pelo autor do original. Além disso, um novo anime chegará em 2027 para continuar a trama da forma “correta”, com Naruto e seus amigos adultos.
O sucesso que o fim de Bleach no anime alcançou também garantiu a promessa de futuras sequências. Durante o período de sua exibição, Tite Kubo publicou “No Breathes from Hell”, um capítulo extra que adiciona personagens e elementos para dar base à continuação. Quando ela virá, no entanto, segue incerto.
Os três grandes ícones do que representava uma comunidade e toda uma base de fãs nos anos 2000 prometem estar juntos mais uma vez em breve. Com o retorno do ninja da Vila Oculta da Folha em 2027 e um futuro reservado para Bleach (talvez em 2028), as expectativas são altas para uma nova fase do Big Three.
A esperança é que One Piece não encerre até este dia chegar. Ainda que o mangá chegue ao fim, vale notar que isso não significa que o trio não estará forte e unido de algum modo — já que ainda temos o seriado da Netflix, o remake do anime e a exibição do fim da trama em animação ou filme.
Claro que eles atraem muita nostalgia, o que pode ser o princípio de uma nova geração para todos eles. Todos que começaram a acompanhar suas histórias na virada do milênio já são adultos, muitos com filhos, o que se torna uma bela oportunidade de abrir essa porta para os jovens de amanhã.
Nesse período houve muitas obras que fizeram sucesso, como Demon Slayer -Kimetsu no Yaiba-, Jujutsu Kaisen, Chainsaw Man, My Hero Academia e outros que se consolidaram entre o público dos anos 2010 em diante. Estes já estão na comunidade, mas há milhares que ainda seguem curiosos para pisar neste universo.
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