Beth Goulart dá vida a Clarice Lispector e suas criaturas
Amir Haddad supervisionou cena e levou atriz a buscar o olho no olho com plateia
Em "Simplesmente Eu, Clarice Lispector", o desafio de transpor a densidade silenciosa da literatura para a extroversão inevitável do palco encontra uma solução inesperada: em vez de tentar explicar Clarice, o teatro a flagra no ato de se inventar. Beth Goulart, idealizadora do projeto, compreendeu que a autora de "Água Viva" não habitava a crônica biográfica, mas os vãos entre as palavras. Ao transformar a reclusão literária em matéria física, a montagem investiga o peso que o pensamento exerce sobre o corpo.
Trata-se de um trabalho autoral e profundamente pessoal de Beth Goulart: o encontro de uma atriz em seu amadurecimento artístico com uma das mentes mais complexas da literatura. Desse encontro nasce uma comunhão que transborda em emoção e pensamento. O espetáculo convida o público a refletir sobre criação, solidão, o divino e, sobretudo, o amor, oferecendo um retrato da mulher por trás da lenda, feita de contradições e de uma humanidade avassaladora.
Essa passagem da página para a voz ganhou contornos nítidos graças à interferência de Amir Haddad na supervisão de cena. Conhecido por suas dinâmicas no teatro de rua, Haddad atuou como uma âncora à terra, impedindo que a montagem naufragasse no isolamento hermético e estimulando a atriz a buscar o olho no olho com a plateia.
O resultado é uma interpretação equilibrada entre transe e comunicação direta: Goulart não se esconde atrás da personagem, mas convida o público a testemunhar os mecanismos da própria atuação, quebrando a ilusão do fantasma literal para estabelecer um pacto de cumplicidade com o espectador.
O roteiro se estrutura por meio de uma galeria de alter egos que funcionam como desdobramentos psíquicos da escritora, todos unificados pela investigação do amor em suas diferentes gradações, do afeto cotidiano ao confronto com o sagrado. A Clarice biográfica serve de matriz para que surjam a Joana de "Perto do Coração Selvagem", a Ana do conto "Amor", a Lóri de "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres" e a Mulher Sem Nome, figura irônica de "Perdoando Deus". O texto opta por uma montagem fragmentada, na qual a passagem entre a autora e suas criaturas se dá por meio de detalhes técnicos rigorosos.
Goulart adota a dicção peculiar da escritora — marcada pela língua presa, respiração curta e o cigarro entre os dedos —, mas abandona essas marcas físicas ao migrar para a ficção, limpando a voz e alterando a postura corporal. Esse trânsito se apoia em uma arquitetura de cena que valoriza o vazio.
A cenografia de Ronald Teixeira e Leobruno Gama reduz o mundo a um divã, uma cadeira e uma escrivaninha com uma máquina de escrever portátil: móveis dispostos sobre uma caixa branca que emula o espaço mental da criação. Esse minimalismo é ampliado pelas projeções de Fabian e pela direção de cena de Guaraci Ribeiro, que inserem referências geográficas sem sobrecarregar o plano visual.
A atmosfera ganha tridimensionalidade com a luz de Maneco Quinderé, que atua como elemento de corte entre o real e o ficcional, desenhando sombras capazes de alterar a percepção do tempo. Paralelamente, a trilha sonora original de Alfredo Sertã pontua os silêncios e serve de moldura para que a palavra dita mantenha sua centralidade absoluta.
No fim, Beth Goulart não apenas desvenda Clarice ao público: ela faz com que sintamos, por um instante, o mundo através dos olhos da escritora. Não há pretensão de esgotar um mito, mas sim de oferecer uma trégua — o privilégio de habitar, por alguns minutos, a solidão, o amor e o silêncio que precedem suas palavras.
Três perguntas para…
… Beth Goulart
A literatura de Clarice é predominantemente interior, feita de silêncios e epifanias. Qual foi o maior desafio para transformar essa matéria essencialmente abstrata em ação física e jogo cênico?
Acredito que para recriar o ambiente propício para se viver esse silêncio é preciso estar no estado de silêncio interior, para se viver uma epifania em um estado de abertura na alma para se compreender a dimensão dessa experiência. O espetáculo é bem sensorial e procuramos provocar no público essa abertura, através da música, da iluminação, da projeção e do ritmo da cena, que envolve e inspira esse envolvimento.
O roteiro costura a biografia de Clarice com suas criaturas ficcionais. Como foi o processo de edição e montagem desses textos para que eles operassem como uma linha dramatúrgica contínua e fluida?
Procurei na dramaturgia separar os temas de acordo com as personagens. Então, antes de Joana, trato do processo criativo de Clarice; na personagem Ana, abordo a importância das relações; em Lóri falo sobre o amor; na mulher que passeia por Copacabana, discorro sobre Deus com a ironia e inteligência do conto "Perdoando Deus" e, antes do final, falo sobre a compreensão da morte.
Na encenação, você adota marcas específicas da Clarice — dicção, respiração, o cigarro —, mas as abandona ao dar voz às personagens. Como foi desenhada essa engenharia corporal para que a transição parecesse uma extensão orgânica da mente dela?
No processo de preparação do espetáculo, durante seis meses fiz encontros com Rose Gonçalves, para trabalhar a voz de cada personagem e chegamos no sotaque de Clarice. Fui aos poucos entrando nos detalhes vocais e corporais de cada personagem, para que pudesse, ao entrar no espaço cênico, ter domínio de cada uma delas e poder transitar por elas de uma maneira orgânica e fluida. As marcações são uma partitura física, como uma coreografia cênica onde as personagens surgem e desaparecem, assim como os figurinos, a luz, os elementos e a música. Tudo segue um ritmo específico de acordo com a cena que é vivenciada por mim, todo espetáculo segue essa magia comandada pela intérprete e essa é uma linguagem cênica que caracteriza a minha direção.