Best-seller de Belle Burden toca a dor da violência patrimonial
Livro atrai multidão de curiosos pelo que deu errado numa vida aparentemente perfeita
Há algo fascinante na vida privilegiada daqueles que, por sorte, herança ou ofício, acumulam capital a perder de vista. As festas extravagantes em uma terça-feira qualquer, as notinhas na coluna social, a casa de campo para fugir nos finais de semana, as aulas de tênis e as dinâmicas sociais no clube. Uma vida aparentemente irretocável.
Mas nem o 0,1% está livre de decepções amorosas e picuinhas matrimoniais. Talvez por isso, pela blindagem desse verniz de classe, Belle Burden tenha captado tantos leitores curiosos a respeito de seu casamento de 20 anos, encerrado às pressas pelo marido durante a pandemia por um relacionamento extraconjugal.
"Estranhos: Vestígios de um Casamento" virou sensação, best-seller do New York Times e assunto de rodas de conversas de amigas que tinham algum tipo de conexão com a narrativa. E não há como não ter.
À parte das descrições minuciosas de espécies de pássaros e passatempos inusitados, o livro toca em algo central da experiência feminina, ainda pouco falada: a violência patrimonial.
Belle é neta e filha de pessoas importantes da alta sociedade nova-iorquina. Sempre viu a avó nos principais jornais e circulou com nomes da cultura e da política dentro de casa. Seu avô deixou para ela uma herança, assim como seu pai, que morreu jovem.
O marido James, por sua vez, vinha de uma família com altos e baixos financeiros e, por isso, decidiu priorizar a ascensão profissional para garantir que não teria mais nenhuma volatilidade. Nem quando chegou aos seus cargos mais almejados deixou de controlar os gastos da família que formara com Belle, do tipo de comercial de margarina, com três filhos e um cachorro.
Contudo, enquanto ele perdia cada vez mais o interesse e o tempo para cuidar das crianças, Belle precisou abdicar da carreira de advogada para ter uma rotina doméstica.
Confiando em seu parceiro de anos, se deixou desinteressar pelas finanças. Assinava papéis sem olhar o extrato, sem saber exatamente quanto ele ganhava, sem dimensionar o patrimônio da família. Mas, apaixonada pelo "homem perfeito", gastou seus dois fundos fiduciários para comprar seu apartamento na cidade e sua casa em Martha’s Vineyard —e pôr ambos os imóveis nos nomes dos dois.
Seria lindo, se não fosse a alteração que James pediu, anos antes, no contrato pré-nupcial: eles dividiriam os bens em partes iguais em caso de divórcio, desde que estivessem em nome dos dois.
É nesse ponto que "Estranhos" revisita uma discussão importante sobre relacionamentos, especialmente os heterossexuais. Na ingenuidade afetiva e na segurança de que aquele casamento jamais se desmancharia, Belle nunca se protegeu materialmente diante do pior, o fim.
Parou de trabalhar, não tinha mais fonte de renda nem as reservas financeiras que gastou com os imóveis. Agora, ainda teria que dividir tudo com um homem que, depois do abandono, ela descobriu que ganhava um salário na casa dos milhões por ano. Tinha um apartamento, um barco e outros bens só no nome dele.
A autora descreve também o descaso com os filhos, dos quais James nunca sequer pediu a guarda. Foi embora com uma amante sem explicação, deixando a parceria de 20 anos em um estado de profunda tristeza e desamparo. Depois foi atormentá-la com advogados mesquinhos e postura egoísta diante da partilha material.
A distância entre os dois fez Belle refletir sobre quem era esse homem que estava diante de seus olhos, autor de mensagens ríspidas, que não tinha mais semelhança alguma com aquele com quem se casara mais jovem. Será que ele sempre foi assim e ela não percebeu, embebida pela narrativa ideal?
Ao usar a escrita como ferramenta de elaboração, a autora ainda transforma "Estranhos" em uma espécie de metalinguagem da experiência, sem nunca usar o vitimismo para gerar empatia.
É no ponto de vista feminino dessa história que temos acesso aos bons e maus momentos de um casamento intocável, entendendo de dentro as diferenças cruciais entre quem pensa no bem coletivo e quem está ali para beneficiar só a si mesmo.
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