Associações vão aos EUA defender que tarifas de Trump prejudicam americanos
Entidades e empresas estarão em audiências públicas em Washington a partir desta segunda (6)
Representantes de associações de indústrias e bens brasileiros vão argumentar, em audiências públicas na próxima semana, que as novas tarifas propostas pelo governo Donald Trump poderão causar danos à cadeia produtiva dos Estados Unidos.
O argumento principal é que as sobretaxas de 25% propostas pelo USTR (Escritório do Representante Comercial dos EUA, na sigla em inglês) irão elevar os custos para os produtores que dependem de insumos fornecidos pelo Brasil, encarecendo as operações de empresas e, na ponta final, os produtos para os consumidores norte-americanos.
A CNI (Confederação Nacional da Indústria), a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária) estão entre as entidades que irão às audiências em Washington a partir da próxima segunda-feira (6).
As associações que representam a indústria de máquinas (Abimaq), calçados (Abicalçados), madeira processada (Abimci), café (Cecafé), ferro-gusa (Sindifer), entre outras, também irão participar dos encontros na Comissão de Comércio Internacional dos EUA.
A audiência pública foi convocada pelo USTR para discutir as práticas comerciais do Brasil, no âmbito da investigação aberta com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA. A apuração foi iniciada há um ano e concluiu que o Brasil adota práticas discriminatórias e desarrazoadas no comércio com os EUA. Como punição, o USTR defendeu tarifa de 25% sobre produtos brasileiros —há uma extensa lista de exceções.
No cronograma dos painéis da audiência, também consta como participante o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O pré-candidato à Presidência disse na sexta-feira (3) que irá aos EUA para "defender o Pix", sem esclarecer como seria a defesa.
As manifestações já foram encaminhadas ao gabinete do USTR, e a soma chega a 365 pleitos, entre documentos enviados por entidades, associações, empresas brasileiras, multinacionais e pessoas físicas.
A CNI e a Fiesp serão representadas pelo embaixador Roberto Azevêdo, em uma estratégia de defesa coordenada para contestar a investigação. Entre os pontos centrais, está o chamado "efeito bumerangue" das tarifas, isto é, a tese de que as sobretaxas prejudicariam os próprios americanos que dependem da indústria brasileira.
Na manifestação da Fiesp, a entidade argumenta que as medidas "aumentariam os custos para empresas que operam no Brasil, incluindo aquelas de propriedade norte-americana, bem como para as empresas sediadas nos Estados Unidos que dependem de insumos americanos".
"Em última análise, essas medidas correm o risco de enfraquecer laços comerciais de longa data e impor custos adicionais a consumidores e produtores em ambos os países."
Já a CNI, que argumenta que as tarifas não se justificam "sob aspectos jurídico, econômico e estratégicos", afirma que fabricantes, agricultores e consumidores dos EUA dependem de insumos brasileiros que não possuem alternativas fáceis de preço ou volume.
"Ainda que as tarifas fossem juridicamente justificáveis, elas seriam contrárias aos interesses econômicos dos Estados Unidos. A medida proposta enfraqueceria a cooperação industrial entre Brasil e Estados Unidos justamente nas áreas em que ela é mais estratégica: geração de empregos, investimentos de capital e resiliência das cadeias de suprimentos em setores críticos", afirma o texto.
"Seria contraproducente impor tarifas punitivas a um parceiro cujos recursos minerais são essenciais para a estratégia americana."
As entidades argumentam que a relação comercial é superavitária para os Estados Unidos, o que derrubaria a tese de que o comércio americano é prejudicado pelo Brasil. Elas destacam avanços no combate à pirataria e ao desmatamento ilegal, além de rebater acusações sobre falhas na proteção à propriedade intelectual.
O argumento de que não há evidências econômicas que sustentem o tarifaço também é defendido pela CNA, que diz que as críticas às tarifas preferenciais, ao acesso ao mercado de etanol e ao combate ao desmatamento são injustificáveis —inclusive pelas regras da OMC (Organização Mundial do Comércio), que defendem que eventuais divergências sejam resolvidas por meio da cooperação bilateral.
As associações setoriais –como de maquinários, vestuário, calçados e aço– também defendem a cooperação entre os países e mencionam efeitos prejudiciais à economia americana. A Cecafé chegou a construir uma estratégia de defesa em conjunto com a NCA (National Coffee Association), entidade que representa a indústria de café nos Estados Unidos.
As entidades cafeeiras defendem a manutenção da isenção tarifária para o setor e solicitam a inclusão do café solúvel na lista de produtos isentos. A produção em solo americano, diz a NCA, é "virtualmente inexistente e logisticamente inviável", e o insumo é considerado vital para a "inovação de produtos em rápida expansão, como o café pronto para beber e o cold brew", consumidos por mais de 53 milhões de adultos nos EUA.
Representantes de empresas como WEG, Bauducco, Nestlé, Taurus, Coca-Cola e Suzano também enviaram manifestações para o USTR.
A audiência de segunda-feira será sobre práticas comerciais que supostamente prejudicam empresas americanas. No dia seguinte, terça-feira (7), está prevista outra audiência —desta vez, sobre o processo que incluiu o Brasil na lista de países acusados de importar mercadorias produzidas por trabalhadores em condições análogas à escravidão.