Apostas triplicam na Copa e atingem 34,8% da população, diz estudo
Valor médio diário de depósitos cresce, com pico de R$ 524 pós-jogo do Brasil; levantamento da Klavi usa dados do Open Finance. Leia no Poder360.
A parcela de brasileiros que apostou em bets durante a Copa do Mundo 2026 triplicou em relação a maio e alcançou 34,8% da população, segundo levantamento da fintech Klavi com base em dados do Open Finance, sistema de integração de dados do Banco Central. Em maio, esse índice era de 11%.
O estudo, feito a pedido do jornal Folha de S.Paulo com uma amostra de 1,2 milhão de pessoas, mostra que a Copa impulsionou tanto o número de apostadores quanto o valor médio depositado. O crescimento levanta preocupações sobre dependência e práticas publicitárias abusivas de canais que transmitiram o torneio.
O valor médio diário por apostador ficou acima de R$ 188 desde o início do campeonato. No domingo (28.jul), a média chegou a R$ 272. O pico foi registrado em 14 de junho, dia seguinte ao jogo das seleções de Brasil e Marrocos, quando o depósito médio por usuário atingiu R$ 524, segundo a Klavi. Os dados consideram apenas transferências enviadas a bets legalizadas.
A concentração das apostas também mostra um padrão de risco. Mais de 60% dos depósitos foram feitos depois das 18h, horário em que se concentra a maior parte das transmissões dos jogos e no qual evidências ambulatoriais já apontam índice mais alto de jogo problemático. Só 10% dos depósitos foram feitos pela manhã, quando não há partidas.
A Klavi identificou ainda forte concentração de gastos entre um grupo pequeno de apostadores. Os 10% que mais depositaram movimentaram 20 vezes o valor dos 90% restantes, um perfil conhecido no setor como “high rollers”.
O Ministério da Justiça investiga a CazéTV por suspeita de práticas abusivas em anúncios, como a promessa de prêmios majorados para atrair novos clientes. O canal também foi criticado por apresentar opções de palpites na voz de seus apresentadores durante a cobertura do torneio.
Globo e SBT, que também transmitiram jogos, estão sob monitoramento pelos mesmos motivos. Todas as emissoras veicularam publicidade de apostas em horários de grande audiência, conforme dados da Kantar Ibope. As empresas afirmaram atuar em conformidade com a legislação.
Em nota, a CazéTV disse que as mudanças adotadas recentemente na exibição de marcas de apostas respondem às preocupações do governo e do Conar (Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária). A empresa declarou que o mercado de apostas esportivas no Brasil está em processo de amadurecimento e que o debate contribui para a evolução do setor.
No Brasil, as restrições à publicidade de bets limitam-se ao formato; as empresas devem incluir avisos de desestímulo ao jogo e alertas sobre riscos. O Ministério da Fazenda fiscaliza a conduta das bets e pode aplicar multas de até R$ 2 bilhões por violações. Em comparação, outros países adotam medidas mais restritivas; a Austrália proíbe anúncios de apostas durante eventos esportivos ao vivo; o Reino Unido permite veiculação apenas depois das 21h; Portugal libera a publicidade depois das 22h30; Holanda e Bélgica vedam propagandas com figuras públicas, o que excluiria a participação de locutores esportivos.
Grupos de saúde e de direitos digitais temem que as empresas optem por descumprir regras ao calcular que o retorno financeiro supera o custo das punições. Em 2024, a Senacon (Secretaria Nacional do Consumidor) aplicou R$ 70 milhões em sanções somadas.
As multas da Fazenda podem chegar a R$ 2 bilhões, mas penas mais brandas são esperadas para empresas sem histórico de violações; a menor punição prevista nas normas brasileiras é a advertência. O acordo entre CazéTV e YouTube movimentou R$ 2 bilhões em cotas de patrocínio, vendidas a R$ 185 milhões cada.