Ações de empresas de defesa dos EUA caem com avanço democrata
Investidores temem que os democratas barrem US$ 500 bilhões adicionais em gastos militares
As ações de empresas de defesa dos Estados Unidos vêm sendo pressionadas pelo aumento das expectativas de uma vitória ampla dos democratas nas próximas eleições de meio de mandato. Investidores apostam que os planos do governo de Donald Trump de ampliar os gastos militares em US$ 500 bilhões (R$ 2,53 trilhões) serão abandonados.
O iShares US Aerospace and Defence ETF, fundo negociado em bolsa considerado referência para o setor, caiu 16% entre o início de julho e meados de outubro, enquanto o índice S&P 500, referência do mercado americano, avançou 3,5%.
No mesmo período, a probabilidade de os democratas retomarem o controle das duas Casas do Congresso em novembro aumentou 20%, segundo a plataforma de mercados de previsão Kalshi.
"As perspectivas políticas de Trump e a possibilidade de os republicanos perderem o Senado têm acompanhado quase em paralelo o desempenho das ações de defesa", disse Robert Stallard, analista do setor na Vertical Research Partners. "Normalmente, a defesa é uma questão bipartidária, mas este governo tornou o tema partidário."
A expectativa generalizada é que os democratas conquistem a maioria na Câmara dos Representantes nas eleições de meio de mandato, mas o partido enfrenta uma batalha difícil para retomar o controle do Senado, onde 35 das 100 cadeiras estarão em disputa.
Havia grande entusiasmo entre investidores e executivos do setor de defesa em janeiro, quando Trump propôs elevar os gastos militares anuais de US$ 1 trilhão (R$ 5,03 trilhões) para US$ 1,5 trilhão (R$ 7,58 trilhões) para construir uma "força militar dos sonhos".
Mas as relações entre o secretário de Defesa, Pete Hegseth, e o Congresso se deterioraram por causa da guerra no Irã, enquanto os democratas prometeram reverter cortes profundos em programas domésticos.
Preocupações com a inflação e a alta dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano também colocaram em dúvida o apoio bipartidário ao aumento dos gastos militares.
As ações de empresas americanas de defesa têm apresentado desempenho inferior ao do mercado neste ano, apesar da disparada dos gastos militares globais e da continuidade dos conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio, que impulsionaram a demanda por sistemas de mísseis fabricados nos EUA.
Os principais fornecedores de equipamentos militares já enfrentam dificuldades para dar conta de encomendas acumuladas ao longo de vários anos. Assim, a corrida dos Estados Unidos e de seus aliados para recompor e ampliar os estoques de munições desde o início da guerra não se traduziu em maior entusiasmo dos investidores.
A Lockheed Martin, principal contratada do sistema de defesa antimísseis Patriot, cuja demanda está em alta, acumula queda de mais de 20% desde o pico registrado no início de março. No mesmo período, as ações das também grandes empresas de defesa Northrop Grumman e L3Harris recuaram 35% e 36%, respectivamente.
Byron Callan, sócio-diretor da consultoria de pesquisa Capital Alpha Partners, de Washington, observou que vários executivos do setor demonstraram otimismo no início do ano com a possibilidade de os republicanos aprovarem os US$ 500 bilhões (R$ 2,53 trilhões) adicionais em gastos militares propostos por Trump.
Os democratas, porém, estão insatisfeitos com a forma como parte dos recursos para a defesa foi aprovada pelo Congresso. Hegseth irritou ainda mais os parlamentares ao se recusar a fornecer uma prestação de contas detalhada dos custos do conflito com o Irã.
Embora haja apoio bipartidário ao aumento da produção para recompor os estoques de mísseis esgotados, Callan afirmou que os parlamentares provavelmente questionarão o volume de encomendas de equipamentos de alto custo, como os caças F-35 e os mísseis balísticos intercontinentais Sentinel.
"Não ouço nenhum democrata defender cortes drásticos nos gastos militares, mas a defesa não pode ser analisada isoladamente", disse. "Os democratas vão querer aumentar os gastos com outras áreas que não a defesa, e os gastos militares provavelmente serão incorporados a essas discussões."
Randy Gwirtzman, gestor de carteira da Baron Capital, afirmou, porém, acreditar que os investidores estão dando importância excessiva ao resultado das eleições de meio de mandato. Ele observou que as ações de empresas menores do setor de defesa foram ainda mais afetadas do que as das principais contratadas militares.
Segundo ele, existe uma "percepção equivocada" de que, "se os democratas vencerem as eleições de meio de mandato, o setor de defesa será destruído. Realmente não acho que isso vá acontecer".
Stallard, da Vertical Research Partners, afirmou que projetos de grande visibilidade associados pessoalmente a Trump —muitos considerados excêntricos ou inviáveis por especialistas em defesa— podem estar em risco. Entre eles estão uma "Frota Dourada", formada por encouraçados da classe Trump, e uma rede de armas baseadas no espaço batizada de "Domo Dourado".
"Qualquer coisa que tenha o nome de Trump ou a palavra ‘dourado’ pode estar em risco", disse Stallard.
Algumas das principais ações de empresas americanas de defesa se recuperaram nesta semana, com investidores à espera de resultados sólidos no terceiro trimestre, que devem ser divulgados na próxima semana. Os papéis de empresas aeroespaciais e de defesa também foram beneficiados pela migração de recursos para fora do setor de tecnologia, em meio a temores de gastos excessivos com infraestrutura de inteligência artificial.
Analistas argumentam que, independentemente do resultado do processo orçamentário americano, as tensões geopolíticas continuarão impulsionando a demanda por armamentos dos Estados Unidos.
Segundo o banco de investimentos Cantor Fitzgerald, as ações das empresas de defesa já estabelecidas tendem a se beneficiar "à medida que conflitos prolongados enfraquecem a capacidade de dissuasão dos EUA a ponto de aumentar a probabilidade de novos conflitos globais".
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