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A violência do estado de Santa Catarina contra o povo xokleng

Fala do governador Jorge Mello é a ponta visível de um racismo estrutural

10/07/2026 23:12 Txai Suruí Folha de S. Paulo 0 visualizações há 1 dia
A violência do estado de Santa Catarina contra o povo xokleng

A postura do governador Jorginho Mello (PL-SC) durante o protesto de indígenas na Barragem Norte, em José Boiteux, não é um fato isolado nem um simples deslize de linguagem. Ela se insere em uma longa e vergonhosa história de violência estrutural do estado de Santa Catarina contra o povo xokleng.

Ao xingar uma cacique que exercia seu legítimo direito de reivindicar em seu próprio território, o governador não apenas demonstrou seu desprezo pessoal como escancarou a continuidade de um projeto de silenciamento que remonta à própria construção da barragem.

Erguida na Terra Indígena Ibirama-Laklãnõ durante a ditadura militar e inaugurada em 1992, a Barragem Norte foi feita sem nenhum estudo de impacto ambiental ou diálogo com os xoklengs, alagando parte significativa de seu território ancestral, destruindo aldeias, roças e o modo de vida da comunidade. Promessas judiciais de indenização e compensação, firmadas nos anos 1990 e 2000, foram sistematicamente ignoradas pelos sucessivos governos estaduais. Mais do que uma obra de engenharia, a barragem tornou-se o símbolo de um abandono que dura gerações.

Em outubro de 2023, essa tensão histórica explodiu em confronto aberto: durante fortes chuvas, o governo fechou as comportas para conter cheias em cidades como Blumenau, mas o fez de forma truculenta, sem estudos adequados; e a Polícia Militar empreendeu uma violenta operação, com bombas de gás e tiros, contra os indígenas, que ficaram desabrigados e sem acesso a água e alimentos, mesmo após decisão judicial que determinava assistência.

É nesse contexto de décadas de violação de direitos que se dá o episódio de 8 de julho de 2026 com o governador Jorge Mello. Enquanto concedia entrevista sobre as obras, parou para gritar às manifestantes: "Vai para a put* que o pariu". Minutos depois, ao ser confrontado por uma cacique que exigiu respeito pela terra onde a barragem foi construída, a resposta foi: "A senhora não quer ir à merda?". E, quando ela reafirmou sua posição, o governador disse um desdenhoso "e eu com isso?". A escalada de agressividade demonstra que não se trata de improviso, mas de uma postura deliberada de hostilidade e arrogância, que replica, em uma escala individual, a violência institucional que os xoklengs sofrem há meio século.

A nota oficial do governo, ao omitir qualquer menção aos xingamentos e descrever o protesto como pauta "federal", tenta naturalizar como "bate-boca" o que é, na verdade, a violência do representante máximo do estado contra uma minoria que luta por direitos básicos. A tentativa do governador de se apresentar como "cercado e desrespeitado" inverte os papéis, transformando o agressor em vítima.

A fala de Jorge Mello, ao negar o território e a autoridade de uma liderança indígena, não é um ato isolado de grosseria. É a ponta mais visível de um racismo estrutural que, em Santa Catarina, tem na Barragem Norte seu monumento de concreto e sangue. O ato do governador deve ser repudiado e a voz que ele tentou calar com xingamentos, que há décadas denuncia o descumprimento de acordos, a destruição ambiental e a violência policial deve ser reconhecida.

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