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A surpreendente popularidade da IA

Ao contrário dos ocidentais ricos, muitas pessoas ao redor do mundo veem a tecnologia com esperança

A surpreendente popularidade da IA

The Economist Quando era menino e crescia no período posterior à Guerra da Coreia, Bae Oh-do se aventurava pela floresta para recolher lenha e aquecer a casa da família. "A era do trabalho manual está completamente arraigada em mim", diz o vendedor de violinos de 70 anos, em Seul. Ele se lembra de ter de usar uma "bomba de pedal" para tirar água, bem como da alegria que sentiu quando os primeiros tratores chegaram à zona rural sul-coreana.

Nas últimas décadas, ele viu as coisas "se desenvolverem e se tornarem tão práticas", com a internet e os smartphones. E quanto à inteligência artificial? "Não é algo com que os seres humanos devam se preocupar. Esse tipo de coisa é bom", afirma. "Eles devem continuar desenvolvendo a tecnologia. A humanidade avançou muito até a nossa geração. Não há como saber de que maneira o mundo vai mudar."

Ao ler as manchetes da imprensa ocidental, pode parecer que uma reação contrária à IA está se espalhando rapidamente por toda parte. Mas, até agora, não está.

A visão otimista do sr. Bae sobre a IA é compartilhada por quase dois terços dos sul-coreanos, segundo uma pesquisa realizada para a The Economist pela GlobeScan, empresa especializada em pesquisas de opinião. Fora dos países ricos, esse sentimento positivo é ainda mais forte: quase nove em cada dez pessoas na Nigéria e no Vietnã, por exemplo, disseram que a IA melhorará não apenas a vida delas, mas a condição da humanidade.

A pesquisa, realizada em 34 países, foi conduzida pela internet, o que pode ter inclinado as opiniões a favor da IA. Ainda assim, no mesmo levantamento, o sentimento nos países ricos do Ocidente foi muito mais sombrio.

Nos Estados Unidos, no Canadá e na França, mais pessoas tinham uma visão negativa do que positiva sobre o futuro impacto da IA na humanidade. Em outros países ocidentais, o saldo das opiniões era positivo, mas muito menos do que nos países pobres. Outra pesquisa recente, realizada em 37 países pela Gallup em parceria com a Microsoft, apresentou resultados semelhantes: a IA é popular de modo geral, mas menos nos países ricos do Ocidente.

Por que existe essa diferença entre o Ocidente e o restante do mundo? Parte do otimismo pode arrefecer à medida que mais pessoas em países pobres entrem em contato direto com a IA ou com centros de dados e percebam que a tecnologia ajuda ou prejudica alguns mais do que outros. Cerca de 9% dos quenianos em idade ativa usaram IA no segundo trimestre de 2026, segundo um estudo da Microsoft. Ainda assim, 85% disseram à GlobeScan que ela mudaria suas vidas para melhor.

Mas muitas pessoas, pobres e ricas, já têm ao menos uma vaga consciência das armadilhas da IA. Em uma pesquisa do Pew Research Centre, os sul-coreanos foram os mais propensos —ao lado dos australianos— a dizer que esperam que a IA provoque perdas maciças de empregos e agrave a desigualdade. Por enquanto, porém, esses temores parecem ser superados pelo fascínio diante das promessas da tecnologia.

Parte da explicação é que muitos trabalhadores fora dos países mais ricos têm menos a perder com a IA do que seus pares no Ocidente. Em grande parte do mundo pobre, o trabalho costuma ser informal e, em comparação com os empregos no Ocidente, precário.

A possibilidade de perder para a tecnologia um emprego estável em escritório é um problema mais próprio dos países ricos (embora, na Índia, por exemplo, trabalhadores de tecnologia da informação e de outras funções administrativas pareçam vulneráveis a transtornos).

O mundo pobre também tem muito a ganhar com a IA. Em países onde instituições e educação formal podem ser deficientes, a IA ajuda algumas pessoas a se virarem por conta própria. "O pessimismo é um privilégio de quem pode se dar ao luxo de perder a esperança", argumenta Payal Arora, autora de "From Pessimism to Promise", livro sobre as divergências nas atitudes em relação à tecnologia.

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Na Índia, usuários obtiveram acesso gratuito ou barato a aplicativos como o Gemini, do Google, e o ChatGPT, da OpenAI; quase um em cada cinco indianos em idade ativa usou IA generativa no segundo trimestre de 2026, ante um em cada três americanos, segundo um estudo recente da Microsoft. O DeepSeek, uma alternativa chinesa gratuita, é popular na África, onde a Microsoft estima que, em muitos países, cerca de uma em cada dez pessoas em idade ativa usou IA generativa no segundo trimestre.

A censura a conteúdos produzidos por IA parece menos comum fora dos Estados Unidos e da Europa. Os ocidentais "historicamente monopolizaram o conhecimento e a produção de ideias, mas a IA põe isso em xeque", afirma Yuen Yuen Ang, da Universidade Johns Hopkins. "Será uma crise apenas para quem perde com essa transformação?"

Mesmo em alguns países ricos e de renda média, onde parece haver mais a perder com essa transformação, a IA é surpreendentemente popular. Os singapurianos estão entre os maiores usuários de IA do mundo, segundo a Microsoft; quase dois terços disseram à GlobeScan que acreditavam que a tecnologia teria um efeito positivo sobre suas vidas. Na Malásia, que vive uma grande expansão dos centros de dados, pequenos protestos contra essas instalações ainda não se transformaram em uma reação contrária mais ampla.

Alguns países em que o otimismo em relação à IA é elevado compartilham fatores que parecem transcender as diferenças socioeconômicas. Um deles é a iminente escassez de trabalhadores. Regiões do mundo que há muito apresentam baixas taxas de fecundidade, como o leste asiático, estão envelhecendo rapidamente. Muitos esperam que a IA —e os robôs movidos por ela— possa substituir os trabalhadores que não existem, ajudando os países a cuidar de populações cada vez mais grisalhas.

Outra característica de alguns países otimistas em relação à IA é a memória ainda viva de tecnologias que transformaram radicalmente suas sociedades no espaço de uma geração. Singapura, Coreia do Sul e Taiwan passaram de pobres a ricos, em parte, ao adotar rapidamente novas tecnologias surgidas no exterior.

Na China e na Índia, saltos tecnológicos, inclusive por meio de aplicativos de pagamentos digitais e entregas, trouxeram praticidade e autonomia extraordinárias.

Nos países ocidentais, em contraste, o pessimismo em relação à IA pode refletir a percepção das pessoas de que suas vidas não estão melhorando muito, de que a IA poderia piorá-las —e de que não se pode confiar nos políticos para proteger seus interesses. Daniel Dobrygowski, autor do livro "Technology Governance", argumenta que essa atitude é influenciada pela experiência das pessoas com as redes sociais e as gigantes de tecnologia, que os governos ocidentais têm tido dificuldade para controlar.

A maneira como políticos e empresas falam sobre a IA também pode fazer diferença. Os chefes dos laboratórios americanos alertam para perdas de empregos e para a extinção humana enquanto correm rumo à "inteligência artificial geral".

Políticos e executivos de tecnologia asiáticos raramente falam dessa forma, talvez em parte porque não estão desenvolvendo por conta própria capacidades de ponta. Em vez disso, tendem a se concentrar nos usos práticos da IA —no que farão com a tecnologia, e não no que ela fará com eles. É pouco provável ouvir o chefe da Samsung falar publicamente sobre uma catástrofe provocada pela IA.

Na China, onde grandes avanços em IA estão sendo realizados, as autoridades de fato se preocupam com riscos, de ameaças à segurança cibernética a transtornos econômicos. Mas o tom geral da imprensa estatal é de entusiasmo.

Seria errado concluir, porém, que as pessoas nos países mais favoráveis à IA não têm preocupação alguma. Algumas estão mais resignadas diante do avanço da tecnologia, como se fosse um destino inevitável.

Fonte original Publicado originalmente por Folha de S. Paulo
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