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A política na era da ansiedade

Percepção de estabilidade nas condições de jogo se enfraquece desde meados da década passada

A política na era da ansiedade

Era uma vez um tempo, nos países de tradição ocidental, em que a disputa política acomodava forças adversárias na convicção mútua de que perder não custa tanto. Os derrotados podiam ir para casa sem o temor de se tornarem alvo da desforra dos novos governantes e certos de que em breve teriam plenas condições de competir novamente pelo poder.

Embora as instituições sigam as mesmas, a percepção de estabilidade nas condições de jogo se enfraquece desde meados da década passada. A ansiedade, intolerante à frustração dos desejos, passou a disputar espaço com o autocontrole e a fleuma, característicos da linhagem democrática liberal.

Não se trata de deriva apenas retórica. A propaganda política desde sempre procura mimetizar os temas da guerra e incutir no eleitor a ideia de que ele está diante de um confronto existencial, tudo ou nada. A novidade é que esse frêmito de cruzada mudou de sentido e frequência. O que era atiçado episodicamente de cima para baixo agora jorra continuamente de uma sociedade eletrizada para seus representantes.

A política na era da ansiedade ajuda a produzir as profecias que apregoa. Se não confio no bom comportamento do adversário da oposição nem na capacidade das instituições de impedir que ele saia da linha, farei de tudo para destruí-lo enquanto eu estiver no governo e de tudo para não sair do governo. Na política da paranoia, é aniquilar ou ser aniquilado.

Atribui-se a Kurt Gödel, gigante da matemática e da lógica do século 20, a detecção de uma brecha no sistema constitucional dos Estados Unidos que permitiria transformar o regime democrático numa tirania observando apenas caminhos legais estritos. A anedota envolve o gênio austríaco, quando estudava para o teste de cidadania norte-americana, e seus amigos ilustres Albert Einstein e Oskar Morgenstern.

Não são necessários dotes intelectuais de Gödel para perceber que nenhum regimento institucional, por mais coeso e indevassável que seja, é capaz de sustentar a democracia liberal sem que os agentes acreditem nas suas premissas e pratiquem a política de acordo com elas. No papel a Constituição soviética era um colosso de direitos e garantias civis. Regramentos formais têm papel relativo no confuso percurso britânico que produziu uma democracia sólida.

Sem maturidade para acomodar derrotas, reais ou imaginárias, e tolerar desaforos e contrariedades, essa máquina funciona mal. Sem a perspectiva do futuro, ela engripa.

E o futuro conta muito pouco na "ansiopolítica", que está imersa num presente eterno. A desconfiança da própria sombra inibe os cálculos dilatados no tempo e as barganhas entre reprimir os impulsos hoje e colher frutos daqui a alguns anos. O ansioso torra seus recursos agora, pois acha que do contrário será atropelado. Endivida-se mais e paga preços e juros altos. O conjunto das nações democráticas empilha dívida há anos seguidos, faça chuva recessiva ou sol expansivo.

Sofrem as políticas públicas de longa maturação. A educação das crianças e dos adolescentes requer paciência, método e constância. O desempenho global dos estudantes de 15 anos na prova internacional Pisa cai há uma década mesmo descontados os efeitos da pandemia de coronavírus. Há dificuldades crescentes para ler e compreender textos e resolver problemas matemáticos. A ansiedade emburrece porque corrói a atenção do aluno e das autoridades nas suas tarefas.

Kit Moresby, a protagonista do romance de Paul Bowles "O Céu que nos Protege", contempla o azul celeste do Saara. Deitado em seu colo, o marido Port reflete sobre a estranheza daquela visão, que lhe parece uma fina camada azulada a escudá-los da escuridão e da noite absoluta que estão por trás.

O leitor descobrirá que o equilíbrio estava mesmo por um fio. Também na política, o que nos poupa da degradação que está sempre à espreita são frágeis mecanismos imaginários.

Fonte original Publicado originalmente por Folha de S. Paulo
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