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Economia

A pergunta errada sobre o dólar

Antes de investir no exterior, vale entender qual proporção de sua carteira já está exposta à moeda

28/06/2026 22:00 Michael Viriato Folha Mercado 0 visualizações há 14 dias
A pergunta errada sobre o dólar

Poucas recomendações são tão repetidas no mercado financeiro quanto a afirmação de que "todo investidor deveria ter uma parte do patrimônio aplicada no exterior". E, em muitos casos, ela faz sentido. O problema é que a frase normalmente vem desacompanhada da pergunta mais importante: para quê?

Talvez por isso uma das dúvidas que mais recebo seja justamente esta: está na hora de investir em dólar?

A curiosidade é que a pergunta surge em qualquer cenário. Quando o dólar ultrapassou os R$ 6, muitos investidores queriam iniciar ou aumentar sua exposição à moeda americana. Agora que voltou para perto dos R$ 5, a dúvida continua exatamente a mesma. Isso sugere que a discussão está sendo conduzida da forma errada.

Antes de decidir se deve investir em dólar, o investidor deveria responder a perguntas muito mais importantes. Qual retorno sua carteira precisa gerar? Quanto risco está disposto a suportar? Qual horizonte de investimento? O objetivo é proteger patrimônio, diversificar riscos ou acessar oportunidades que não existem no Brasil?

Sem essas respostas, a escolha da moeda se transforma em um detalhe elevado à condição de estratégia.

Existe ainda outro aspecto pouco discutido. Muitos investidores acreditam que só têm exposição ao dólar quando compram ativos no exterior. Na prática, boa parte deles já está mais exposta à moeda americana do que imagina.

Investidores que têm títulos indexados ao IPCA, por exemplo, já carregam uma proteção parcial contra a valorização do dólar. Combustíveis, alimentos, equipamentos eletrônicos, medicamentos e diversos insumos utilizados pela economia brasileira possuem preços influenciados pelos mercados internacionais. Quando o câmbio sobe de forma persistente, parte desse movimento acaba chegando à inflação.

O mesmo ocorre se o investidor já aplica em fundos, ETFs ou ações de empresas brasileiras que são exportadoras ou ligadas a commodities, pois essas têm parte de suas receitas em dólar.

Isso não significa que investir no exterior seja desnecessário. Existem excelentes razões para internacionalizar parte do patrimônio, seja para diversificação geográfica, seja para acessar mercados e setores mais amplos do que aqueles disponíveis no Brasil.

Mas até mesmo nesses casos é importante entender exatamente o que se busca. Afinal, investir internacionalmente não significa necessariamente apostar no dólar.

Esse ponto se torna ainda mais relevante em um momento em que o diferencial entre os juros brasileiros e americanos permanece elevado. Dependendo da estratégia adotada, esse diferencial pode ser mais importante para o resultado final da carteira do que a própria variação cambial. E com menos risco.

No fundo, muitos investidores não querem investir no exterior. Querem apenas acertar a próxima direção do dólar.

O problema é que prever o comportamento do câmbio está entre as tarefas mais difíceis da economia. Não por acaso, a frase atribuída a Delfim Netto continua atual: o câmbio existe para ensinar humildade aos economistas. Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja se está na hora de investir em dólar. A pergunta correta é: qual problema da minha carteira estou tentando resolver?

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